A cruel e implacável Libertadores, na qual só jogar futebol não basta

Créditos da imagem: Juan Mabromata / AFP

Há toda uma mística em cima da competição mais importante das Américas sobre a necessidade de ter um elenco de jogadores experientes, uma garra acima da média, uma malandragem e uma catimba em momentos cruciais. A isso, costumam dar o nome da tal “alma de Libertadores”. Muita gente boa acha que é exagero: basta jogar futebol que as coisas funcionam. Quem acha isso, precisa analisar a campanha do Flamengo deste ano, que resultou em uma eliminação cruel para o torcedor, e certamente terá que refazer seus conceitos.

Antes de mais nada, a parte técnica – “jogar futebol” – falhou. O Flamengo perdeu para o San Lorenzo, na Argentina, no que foi a pior apresentação do time sob o comando de Zé Ricardo. Abdicou de jogar, apesar de boa partida defensiva na maior parte do tempo. Teve falhas individuais de Matheus Sávio e Vaz/Trauco no primeiro gol, e uma bola defensável que Muralha não interceptou no segundo. Sem contar a nulidade de praticamente todos os outros jogadores, dos badalados Guerrero, Arão e Trauco, passando pelos quase sempre inoperantes Rômulo e Berrío. O comandante da tropa é Zé Ricardo, e ele, claro, também tem culpa. As mexidas não surtiram efeito e o técnico não soube manter atenta, motivada e concentrada sua equipe. Faltou experiência? Provavelmente.

Também falhou a parte do planejamento, o Flamengo como clube de futebol, e a diretoria precisa ser cobrada por isso. Donatti, Cuellar, Mancuello, Gabriel e Ederson são alguns dos nomes que custam caro aos cofres rubro-negros e que fracassaram. Rômulo e Berrío também não conseguem mostrar 1/10 do esperado, ainda que esses mereçam outras chances, já que chegaram há menos tempo. Confiaram demais em um goleiro apenas regular, sem sombra desde a saída de Paulo Victor. Sem contar, claro, a aparente letargia do presidente Bandeira de Mello e toda sua turma, que parecem hesitar botar o pé na porta e falar uma meia dúzia de palavrões nessas horas. Mostrar inconformismo, tristeza, raiva. Mostrar-se, naquele momento, torcedor, e não gestor.

Mas a eliminação teve um outro elemento-chave, este mais abstrato e talvez inominável. O Flamengo jogou bem e foi melhor que o adversário em cinco dos seis jogos que fez na competição. Mas perdeu dois deles por detalhes. E os detalhes, no futebol, às vezes fogem ao ato de jogar bola em si.

Lembra a tal “Alma de Libertadores”? Alguma coisa do tipo faltou – no time inteiro – para não conseguir arrancar um merecido empate contra o Atlético no Paraná, ou não tomar um injusto gol por desatenção da Católica no Chile. E principalmente, faltou ALMA ao tomar a facada no peito, na Argentina, aos 47 minutos do segundo tempo, quando o juiz deu apenas os protocolares 3 minutos de acréscimo. Um time não pode, em hipótese alguma, tomar um gol nessa altura do jogo, porque simplesmente é o “gol de ouro”. Não houve, no Flamengo, ninguém que esfriasse o jogo do adversário, ou mesmo esquentasse o do time. Faltou a todos que vestiram rubro-negro, dentro e fora de campo, um controle mental da disputa, tão necessário nessas horas críticas. Não teve ninguém para fazer o tal “algo mais”. O que o Flamengo fez foi só ficar acuado e se defender, como um boxeador semi-nocauteado nas cordas, só esperando a derrota se confirmar por pontos ou nocaute.

Apesar do elenco superestimado, o time do Flamengo é competitivo para erguer a cabeça e disputar o título do Campeonato Brasileiro ou da Copa do Brasil. Mas faltou, novamente, a alma que costuma ser necessária para disputar a Libertadores, na qual nem só jogar bem adianta. Os títulos do torneio normalmente contam com a ajuda do acaso, de um goleiro iluminado, de atacante mediano em grande fase, ou um zagueiro “quizumbeiro”, enfim, um algo a mais que esse Flamengo simplesmente não teve, e não tem não é de agora.

Não dá para destruir o trabalho todo – que no balanço ainda é favorável -, mas certamente esses jogadores, o clube e, principalmente, os torcedores, sabem que para ir avançando na Libertadores, só jogar  futebol não basta. É esse algo a mais que o Flamengo precisa correr atrás para deixar o final da fila dos campeões. E ele, dinheiro nenhum compra.

6 comentários em: “A cruel e implacável Libertadores, na qual só jogar futebol não basta

  1. Bom demais, Caio Bellandi! Realmente, o Flamengo demonstrou falta de “alma”, não de futebol! Parece que da diretoria ao elenco, está tudo muito “certinho demais”…

  2. Aquele lance do primeiro gol do San Lorenzo em que o Matheus Savio consegue roubar a bola do Barrios para logo em seguida perdê-la, graças à insistência do argentino, é a síntese da Libertadores. Alma, vontade, garra, dê o nome que quiser, essa “entidade” faz times medíocres se superarem e superarem gigantes.

  3. Não concordo ser joga ser futebol ganha o jogo fácil esse time argentino é fraco na época de Zico os Campos era horrível a pressão era maior tinha extra campo mas o futebol ganhou porque o time era bom

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