A inevitável concentração

Créditos da imagem: Sergey Dolzhenko/EFE

O futebol é um segmento muito sui generis na indústria do entretenimento. Assim como diversos setores da economia, tem regras próprias de funcionamento, de maneira que aplicar teorias gerais para sustentar mudanças ou estruturas é quase perda de tempo.

No mundo globalizado onde as indústrias buscam escala para reduzir custos e maximizar retorno, alguns caminhos nessa direção são a expansão territorial e a fusão e aquisição de empresas concorrentes ou complementares. Concentra-se visando reduzir a força dos fornecedores e diminuir as possibilidades dos clientes, ou mesmo para ter porte suficiente para competir em mercados cada vez mais duros e com preços apertados. Exceto em casos de caos generalizado, a maior parte dos países atravessa período de inflação baixa, o que significa preços gerais sob controle.

Pensando no nosso futebol, essas alternativas não funcionam, ou funcionam pouco. O Empoli não será comprado pela Juventus, assim como o Fulham não será incorporado pelo Arsenal. Barcelona e Real Madrid não precisam adquirir marcas para crescer. Para esses clubes basta a força das conquistas, que significa mais dinheiro, maior capacidade de investimento e elencos fortes e, consequentemente, mais conquistas.

Se alguns clubes tem optado por comprar unidades em países periféricos, mais como forma de acessar primeiramente mercados formadores de atletas do que tentando conquistar economicamente esses mercados, nenhum deles cresce por aquisições, mas concentram cada vez mais renda por serem clubes globais.

Acabou a era do clube nacional. Não basta vencer 7 Campeonatos Italianos consecutivo; é preciso contratar CR7 para conquistar a Europa (e o Mundo). Não interessa mais ser soberano na França, mas sim transformar PSG em marca de consumo em todos os cantos.

Por isso, muitos atletas jovens se despedem do Brasil em busca de conquistas e glórias maiores na Europa, pois não cabem mais dentro de um Campeonato Brasileiro ou de uma Libertadores. Vinícius Jr, Rodrygo e Paquetá são exemplos recentes, que somam a necessidade financeira dos clubes com o sonho de conquistar o mundo. Não se iludam nem tentem apenas culpar os clubes, pois os atletas sonham em jogar no Real Madrid e fazer uma final de UCL contra Messi e Salah, e quem sabe serem os futuros Messi e Salah.

Então, isso significa que o futebol brasileiro acabou e temos apenas que recolher os cacos? Não, absolutamente. Mas significa que precisamos nos repensar e nos reinventar, sob diversos aspectos.

Fora de campo, precisamos de clubes equilibrados e robustos financeiramente, para que suas marcas voltem a ser alvo de desejo dos atletas. Precisamos também que voltem a ser desejo dos torcedores, das gerações mais jovens. E dentro de campo precisamos converter o talento que vai embora cedo e encanta o mundo em bons espetáculos. Quantos clubes realmente organizados e equilibrados temos? Quantos jogos do atual Campeonato Brasileiro são dignos de lembrança?

Enquanto isso, temos que evitar soluções simplistas. Ainda estamos muito atrás da Europa, que já passou da fase de ver os campeonatos nacionais perderem o interesse e agora clubes e torcedores se voltam à grande competição continental. Aqui se fala numa “super Libertadores”, com México e EUA, sem antes termos clareza de quem serão os sobreviventes localmente. A Champions League existe forte não é porque todos os anos um novato pode ser campeão, mas sim porque todos querem ver e saber quem será o campeão entre os poucos gigantes do futebol. O Grasshopper campeão tem muito menos graça do que o tricampeonato do Real Madrid com direito a gols de bicicleta.

Queremos novamente imitar os Europeus, mas, como sempre, começando pelo fácil, já que o difícil dá trabalho. Lamentar e lutar contra a concentração não ajudará a resolver o problema. Precisamos nos preparar para enfrentá-la e encontrar a parte que cabe ao futebol brasileiro de clubes no futebol mundial.

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