Qualificar o elenco: uma questão de eficiência

Créditos da imagem: Daniel Augusto Jr. / Agência Corinthians

Iniciamos o ano de 2022 divulgando duas escalações para o torcedor avaliar o potencial das equipes:

  • Equipe A: Fúria; Orelha, Cabanhas, Pezão e Bolt; Favorito, Caranguejo e Ureia; Buião, Pagé e Faísca.
  • Equipe B: Weverton; Danilo, Marquinhos, Militão e Alex Sandro; Casemiro, Fabinho e Paquetá; Neymar, Gabriel Jesus e Raphinha.

Se você, torcedor, pudesse optar por uma das duas equipes, qual escolheria? Sem ser necessariamente um especialista em tática e nos aspectos dentro de campo, eu escolheria a Equipe B, ainda que na lista da Equipe A possamos encontrar no futuro um novo titular da Seleção Brasileira.

É justamente este o pensamento dos dirigentes quando dizem que precisam contratar atletas que aumentam a capacidade competitiva das suas equipes. Afinal, equipes com atletas qualificados tendem a apresentar melhor futebol, conquistarem melhores colocações nos campeonatos e, consequentemente, mais dinheiro.

“Nosso problema foi que gastamos para montar um time para vencer a Copa do Brasil e a Libertadores, mas caímos nas fases iniciais das competições, então fomos obrigados atrasar salários. O planejamento não deu certo”

Acreditem, ouvi isso de um dirigente após ele questionar uma análise na qual eu dizia que o clube tinha sido mal gerido numa determinada temporada.

O problema nunca é contratar atletas melhores. Na verdade, a dificuldade em entender o tema da formação de elenco em termos financeiros não é comparar o “caro e eficiente” com o “barato que sai caro”. O aspecto mais relevante na hora de formar um elenco se chama eficiência, que é a capacidade de conseguir melhores resultados gastando menos.

“Ah, lá vem ele com o bom e barato de novo”. Não, não é isso. Dá para ter bons e caros, bons e baratos. A única coisa que deveria prevalecer é a definição “bom”, mas que deveria estar associada à palavra “viável”. E viabilidade é a capacidade de gastar dentro do que se arrecada, para que os custos não virem atrasos e dívidas.

Daí entramos em outra análise: o tamanho dos elencos e a história de pagamentos que eles deixam. É muito comum ouvirmos os dirigentes falarem “reduzimos a folha de R$ 12 milhões para R$ 9 milhões e agora podemos contratar”. Não é bem assim. Geralmente o número falado é apenas parte da conta, pois quando os dirigentes falam em “folha” eles citam apenas os salários e direitos de imagem, ignorando dois itens importantes: encargos e impostos.

Essas duas palavras que podem ser traduzidas em INSS, FGTS e Imposto de Renda. Mas que muitos clubes simplesmente não recolhem, o que acaba se transformando em dívidas fiscais e trabalhistas. Essas mesmas que já foram renegociadas em Refis, Profut, Transação Tributária e acordos previdenciários recorrentes.

Vamos então dar o benefício da dúvida. Mesmo que os dirigentes insistam em renegociar esses valores anualmente, consideraremos que eles estão em dia. Ainda assim a história da redução da folha é só parte da análise. Porque os clubes possuem diversos acordos e renegociações de salários que não foram pagos durante a vigência dos contratos, e agora fazem parte de dívidas e devem ser pagos ao longo do tempo. Também já vi atletas que ganham salários na casa do milhão recebendo “parcelinhas” mensais de R$ 20/30 mil de clubes por onde passaram.

Mas o dirigente apenas ignora que essas dívidas precisam ser pagas e deveriam constar na conta da folha salarial, ou ao menos serem considerados como desembolsos de caixa mensais. Mas ninguém faz isso, porque consideram que essas dívidas seguirão sendo renegociadas, atrasadas, renegociadas, atrasadas…

Quando você ouvir que a folha do seu clube foi reduzida, mas ainda assim o clube não conseguiu reduzir suas dívidas, saiba que o dinheiro não está indo para o pagamento desses atrasados, entre tantas outras dívidas.

Isso tudo acontece porque os dirigentes contratam, contratam, e contratam, mas os critérios são sempre pouco claros. Os clubes hoje dizem possuir sistemas de monitoramento, scouting, análise de desempenho, mas está difícil acreditar que são de fato utilizados, ou que os profissionais são efetivamente ouvidos. Sem contar a quantidade de executivos, gerentes, diretores e coordenadores de futebol que contratam, contratam, contratam, mas usam pouco os atletas, e acabam voltando a contratar.

Mesmo clubes de ponta na Europa erram contratações. Acontece. Mas a chance de errar costuma ser menor quando o trabalho é bem-feito. E quando a preocupação é com a sustentabilidade da instituição. Não dá para ter 80 atletas no elenco, mais 30 emprestados, e ainda outros 50 na lista de credores, que são pagos de vez em quando.

Basta ver os clubes que iniciaram a temporada passada contratando para dar experiência, e que terminaram usando a base. Só que agora precisam emprestar e dispensar atletas e contratar experientes, porque os anteriores não funcionaram. Ou então clubes que dizem que precisam elevar o nível do elenco, ainda que o elenco “frágil” tenha sido construído de forma inchada e desequilibrada pelos mesmos dirigentes. É tudo custo que se perpetua e dificulta o trabalho de formação de um elenco eficiente e viável.

Não caia nessa conversa. Os dirigentes fazem isso porque o sistema associativo é benevolente. Veja o caso da chegada de Ronaldo ao comando do Cruzeiro. Já dispensou um monte de gente cara, reverteu contratos “que respeitavam o orçamento”, mas que pelo visto não estavam dentro da capacidade de pagamento do clube, que provavelmente estava “qualificando o elenco” para voltar à Série A. Será que havia o devido cuidado com as contas ou era apenas a tentativa de conquista esportiva para deixar o problema financeiro para resolver depois?

Clube com dono faz conta, o que é raro de acontecer no futebol associativo. E os que fazem nós conhecemos e estamos vendo conquistarem posições esportivas relevantes.

Nunca é apenas sobre qualificar ou não um elenco, mas sim sobre como qualificá-lo. Para dar um passo para frente é fundamental dar dois para trás. Exceto se você quer ver seu clube andando em círculos.

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