A eterna dança dos treinadores

Créditos da imagem: Sergio Barzaghi/Gazeta Press

Lá vamos nós falar sobre gestão esportiva. É fevereiro e estamos vendo treinador demitido – ou rebaixado – contratação que só vem depois, interino que jamais seria interino. É o futebol brasileiro.

Não custa lembrar o que penso sobre troca de treinadores: quanto antes, melhor. Em qualquer atividade profissional, quando um contratado não se mostra aderente à cultura, ou seu desempenho clara e conceitualmente é inferior ao esperado, tem que trocar. Pode ser um diretor de empresa, um CFO, um treinador de futebol. Persistir no erro de manter alguém que mostra métodos e conceitos diferentes do que se espera, supostamente em nome de uma moderna visão de que tudo depende de tempo, é postergar o óbvio e atrasar a entrega de resultados.

Sendo mais específico e falando de futebol, uma coisa que precisamos ter em mente quando se fala em um treinador é que a contratação tem sempre três lados que a avaliam: diretoria, torcedores e analistas (imprensa). E uso o Jardine como exemplo.

O torcedor é aquele que se empolga com o nome e acha que vai dar certo ou errado, mesmo sem ter a menor ideia de como o treinador pensa o futebol. Jardine foi campeão na base e o torcedor achou que ele era brilhante. Problema de valorizar a conquista na base, e não a formação. E ele jogava como joga hoje: 4-3-3 ou 4-4-2, com 2 volantes de contenção e laterais jogando ao ataque. Nenhum time profissional de bom nível joga assim, pois o time se expõe demais, dá espaços demais. A palavra da moda é intensidade, e ela vem com movimentação, velocidade e talento.

Daí há os analistas, que depois que a contratação vai mal, chegam e falam que não tem experiência, erra muito, não controla o elenco. Mas ninguém falava isso antes, porque ninguém conhecia o que o treinador pensava. Optam pelas justificativas de praxe, sem entender o que de fato ocorre. Tenho sérias dúvidas se mais de 3 analistas conheciam em detalhes o que o Jardine pensava e praticava de futebol na base do São Paulo.

Por fim a diretoria. Que em qualquer lugar deveria fazer uma avaliação, uma entrevista, entender o que o cidadão pensa do jogo, como ele montaria o time, quais as alternativas. Mas os clubes – e o São Paulo é só o exemplo da vez – não têm profissionais capazes de entender isso, e nem fazer as perguntas básicas e certas. A ponto de, no exemplo, se assustarem com o que viram em campo. Porque ninguém avaliou antes, e simplesmente atendeu um pedido do elo menos capacitado da corrente: o torcedor. Porque era óbvio que quem analisasse e observasse o elenco que Jardine tinha em mãos saberia que os volantes seriam lentos, os laterais são limitados e têm pouca mobilidade. Mesmo para um esquema datado, o insumo não ajudava.

O São Paulo é o exemplo, mas essa história vale para a maioria dos clubes. Por isso os treinadores não duram. Porque são mal escolhidos, porque os elencos são incompatíveis, porque o perfil não é condizente com a cultura futebolística, porque o dirigente não entende nada de futebol, é só um torcedor com acesso privilegiado. E a imprensa não ajuda na construção, porque pede tempo – inútil quando não há uma combinação que funcione – ou porque critica sem nem entender o que se passa.

Assim não se constrói nada além de elencos inchados e treinadores despreparados. Trocas constantes porque nascem de maneira equivocada. Desperdício de dinheiro e tempo. Transformamos o que se joga no Brasil em algo parecido com futebol, que é aquele esporte bacana que se pratica na Europa.

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