Sobre as idas e vindas na análise dos técnicos

Créditos da imagem: futnet

Sandoval Quaresma, personagem de Brandão Filho na Escolinha do Professor Raimundo

“Tava indo tão bem…”

Vida de treinador não é fácil? Vida de quem analisa o trabalho de técnico é pior ainda. Se o leitor ganhasse cem reais cada vez que um comentarista elogiasse um técnico, com este sendo demitido no mês seguinte, teria um belo reforço financeiro. É o tipo de opinião mais sujeito a reviravoltas. Há três meses, Felipão era ultrapassado, Aguirre um redentor e Dorival Jr um incompetente. O que aconteceu? Por que aconteceu? Se não pensarem no assunto, vão continuar batendo cabeça e concluindo sempre que “são coisas do futebol”. Mas é possível buscar critérios que permitam diferenciar quando um treinador está indo bem e quando realmente faz um bom trabalho. Não é a mesma coisa. Dá pra entender, quando se aprende os fatores que podem gerar um “falso positivo”.

1 – superconcentração inicial – quando dirigentes demitem treinadores, normalmente falam da necessidade de um “fato novo” para dar um gás ao time. Isso não é desprovido de ciência. A mudança de técnico aumenta a concentração dos jogadores – tanto os titulares quanto quem quer entrar. Com isso, o rendimento técnico cresce e provoca a sensação de que “o dedo do treinador” já melhorou a equipe. O problema é que esse efeito não é eterno. Mais cedo ou mais tarde, o nível de concentração volta ao usual – e o futebol jogado também.

2 – doping emocional – parece com o fator acima, porque o efeito é o mesmo. O que muda é a causa. Pode ter a ver com eventual crescimento da torcida ou com atitudes do próprio técnico, como preleções motivacionais e afins. Além de prorrogar a superconcentração, pode devolvê-la em momentos isolados, como jogos de mata-mata. Principal explicação para quando seu time se arrasta nos pontos corridos e ganha disputas improváveis em copas.

3 – preparo físico – não raro um time parece muito bem compactado, mas simplesmente porque os jogadores estão correndo mais que a média. Tanto por estarem em início de temporada, quanto por eventuais estratégias. Como poupar titulares por mais de uma semana antes de jogos decisivos, expediente típico de técnicos de países vizinhos na Libertadores. A equipe parece ter qualidades que, na verdade, não mostraria se jogasse toda semana.

4 – bom plano A, mas sem o B – talvez o fator que separa melhor o bom técnico dos regulares, fracos ou principiantes. OK, o trabalho realmente está dando certo, com ou sem superconcentração, doping emocional, força física, mandinga, etc… Só que, em determinado momento, os adversários encontrarão maneiras de enfrentar o sistema de jogo, marcando as jogadas e explorando lacunas defensivas. Nessa hora muitos treinadores caem em desgraça, por não conseguirem respostas. É algo que o técnico precisa antever, inclusive para pedir jogadores que viabilizem modificações. Do contrário, vai insistir no que ficou manjado ou mudar o time no desespero. Demissão na certa.

5 – tempo – para ter mesmo certeza de que a boa avaliação não decorre dos fatores acima e outros não cogitados, só mesmo um lapso razoável. Ouso dizer que apenas depois deste período (que estimo em seis a oito meses) dá para cravar que um trabalho é bom. O mesmo não vale para trabalhos ruins. Alguns são perceptíveis em noventa minutos – ou menos. Mesmo que os primeiros resultados sugiram o contrário. É aquele perna-de-pau escalado no meio, aquele esquema do tempo do onça, etc… Uma hora a casa cai. Quem continua lá é o comentarista, errando e errando…

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