A outra história do Profeta – o que acontece com Hernanes?

Créditos da imagem: Reprodução / Isto É

Entre todos os motivos para se aborrecer, o que mais deve desanimar os são-paulinos é o futebol de Hernanes. Ainda não admitem expressamente. Procuram dizer que os outros fogem do jogo, que Hudson o atrapalha e em time bagunçado craque também sofre. Tudo isso é verdade. Mas nenhum destes fatores esconde o que salta aos olhos: está completamente fora de forma. Visivelmente mais pesado e bufando com meia hora de jogo – se tanto. E não dá para dizer que não treinou, porque estreou na temporada depois dos outros, para se preparar melhor. Não fez a menor diferença. Se tivesse chegado nesta forma há quase dois anos, o São Paulo teria passado 2018 na série B. Sem salvação.

Não vou tirar o corpo fora, porque tampouco antevi essa dificuldade quando analisei o anúncio do novo retorno. Imaginei que, se em 2017 fez tudo aquilo depois de encostado na China, chegaria mais inteiro depois de efetivamente jogar por lá. O olhômetro já denuncia o erro. Não é difícil constatar que estava mais fino em tal temporada. Seu físico ainda tinha memória muscular da preparação na Itália, de onde se transferira para o futebol chinês meses antes. Já 2018 foi passado inteiramente na China. Apenas 14 partidas. Com lesões, só teve uma sequência no final do ano. É o que preocupa ainda mais, porque terminou a temporada atuando. Embora haja o desconto de que estava há quase dois meses de férias, um mês de treinos é o suficiente para devolver aptidão para adquirir ritmo nos jogos. Não é o que está acontecendo. Tanto que, a cada jogo, ele só piora.

Claro que deve haver cautelas para concluir a respeito de um jogador de tal potencial. Jogar onde foi escalado contra o Talleres, como segundo volante, não seria o recomendável mesmo que estivesse na ponta dos cascos. São 33 anos, tendo que fazer um papel que já o complicava há 10. Sim, porque Muricy nunca o favorecia taticamente. Pelo contrário. Sugava tudo o que tinha. Hernanes tinha que marcar, criar e ainda chegar à frente. Uma soma de funções muito maior que a de um segundo volante comum. Tanto que 2009 foi seu pior ano pelo São Paulo, a ponto de muitos entendidos de araque acharem que, em 2010, seria reserva de Léo Lima. Claro que não foi e saiu de bem com a galera, mas regularidade não foi a marca daqueles tempos. Uma década mais tarde, era óbvio que os problemas seriam maiores. Para um meio-campista, 33 é uma idade limite.

Por este motivo, o próprio Hernanes chegou indicando que preferiria jogar mais adiantado, próximo ao centroavante. Mais similar à forma com que Mancini o escalou no clássico. Em tese, isso favoreceria aquilo que menos depende do físico – o chute. Mas, com a movimentação lenta e a falta de fôlego que vem mostrando, só se combinar com o adversário, que não vai topar. Nem será preciso colocar um marcador especial. Basta marcá-lo normalmente e fechar o espaço quando um lance de chute se avizinhar. Sobrariam apenas bolas paradas. Muito pouco. No momento, a única opção competitiva que vejo é colocá-lo na meia hora final das partidas. Contra adversários cansados, a chance de se sentir confortável em campo (consequentemente, de desequilibrar) aumenta. Nada, contudo, que sugira o decantado “upgrade” coletivo que se esperava.

Claro que não se pode, agora, bancar o vidente do passado dando a contratação como erro. A rigor, foi inevitável. Ao contrário de roubadas que deveriam ter passado ou repassado, não havia muito o que pensar. O risco de ele fazer sucesso em outro clube brasileiro tornava a negativa um suicídio de gestão. Agora resta administrar o problema para transformá-lo em alguma solução. Carlinhos Neves parece o homem certo para a tarefa e há tempo antes do Brasileirão. Assim como há muito trabalho a fazer. Com certeza o Profeta se dedicará. Se vai dar certo, é uma profecia que não me arrisco a fazer. Apenas torço por ela. Sou fã de seu futebol desde 2007. Quero vê-lo encerrar sua trajetória tricolor como merece. Mas nem sempre o merecimento ganha.

Deixe sua opinião e colabore na discussão