Cezar x Cezar – jornalista em auto-conflito

Créditos da imagem: Reprodução ESPN Brasil

Sobre Mauro Cezar e sua retórica incendiária contra Abel Braga

Mauro Cezar Pereira capitaneia o “delenda est Abelus”. O fundamento é que se trata de um técnico imediatista e ultrapassado, cuja escolha denuncia amadorismo da diretoria rubro-negra. Eu concordo com o fundamento e discordo redondamente da conclusão. Inclusive porque o blogueiro e comentarista foi, pois sim, um dos responsáveis diretos pela vinda do próprio Abel – mesmo discordando da mesma. Ele e todos os jornalistas que, fazendo coro a torcedores (inclusive, MCP é torcedor assumido do Flamengo), decretaram que o clube “tem” que conquistar um título (carioca não vale) na temporada. Como reclamar por contratarem um técnico de curto prazo? Diria um personagem de Jô: “Freud, póide?”.

Argumenta Mauro Cezar que deveriam ter ido atrás de um técnico que pratique futebol, algo diferente do que vigora no país. Seus exemplos habituais desse futebol diferente são Guardiola e Klopp. Ótimos exemplos. Mas, primeiramente, não há dinheiro para contratar Guardiola e Klopp. Mais importante: ter um dos dois não garantiria uma conquista relevante no primeiro ano. Em sua estreia no City, Guardiola ganhou apenas uma Copa local – algo que seria secundário por aqui, uma vez que não dá vaga na Champions League. Klopp nem se fala. Vai completar sua terceira temporada no Liverpool, sob considerável risco de não ser campeão. Fracassos? De jeito nenhum. Seus times são altamente competitivos e ganhariam o Brasileirão com o pé nas costas. Não sem antes trabalharem muito até o patamar pretendido. Sem pragmatismo. Só futebol, na visão de cada um.

Conhecendo o pavio do jornalista, a esta altura ele estaria “desenhando” que não pediu para contratar um dos dois, e sim quem tivesse conceitos semelhantes. Entendi perfeitamente. Só que, se os dois expoentes mais bem acabados teriam dificuldades na primeira temporada (ainda mais ante nosso atraso tático), o que se diria dos discípulos e afins? A resposta seguinte seria afirmar que, com o elenco rubro-negro, seria possível queimar etapas. Seria mesmo? Não estaria o comentarista esquecendo que elenco não é mera soma? Como torcedor, já viu seu time investindo alto em estrelas que não encaixaram. O “melhor ataque do mundo” (Romário, Sávio e Edmundo) que o diga. No Flamengo de hoje, realmente há talento. Já em termos de movimentação para usar o talento, nem tanto. Usar o talento e ainda marcar na frente, que dureza…

Vale lembrar que, quando o Flamengo tentou inovar, a paciência de comentaristas como Mauro não foi tudo isso. Rueda, por exemplo. Nas primeiras semanas, tinham que dar tempo ao treinador. Não demorou e “dois meses” deveriam ser o suficiente para mostrar alguma evolução. Como se fosse tudo linear no futebol. Como se não houvesse adversários. Como se os clubes não tivessem que jogar quarta e domingo logo de cara, limando treinos. É esse tipo de “paciência” que, mesmo de forma involuntária, emprega Abelões. No máximo, surgem brechas para interinos vindos da base, cuja modernidade nem sempre pode ser reeditada entre profissionais – como o SPFC viu com André Jardine. Não há como servir a dois senhores ao mesmo tempo. Ou você segue o do título instantâneo, ou o do trabalho consistente – algo que só se avalia após bem mais que dois meses.

Existe outra questão: e se Abel for demitido hoje? Qual seria o objetivo de seu sucessor? Pela assertiva de Mauro Cezar, classificar logo de cara e ser campeão. Fosse mudar de rumos e preparar uma equipe para jogar o futebol desejado, a demissão não teria que acontecer neste momento. Não sem um técnico disponível, nos padrões desejados. Muito menos sem tempo para replanejar. Parada da Copa América? Serviria para ajustes básicos, e só. Planejar envolve escolha do elenco, dispensa de atletas. Algo que, num clube profissional, pensa-se no fim da temporada. A não ser que o cenário seja de tal desespero precoce que, consequentemente, implique medidas desesperadas. Não inclui botar os passageiros do Titanic em botes salva-vidas dois dias antes de o iceberg aparecer. Queda na Libertadores? É a tônica rubro-negra desde 1982. Por que se preocupar com isso agora?

Gosto da existência de jornalistas como Mauro Cezar, que não se aquietam e muito menos tecem elogios protocolares. Porém, todos temos vícios a corrigir. No caso dele, além da irritação fácil (algo que compartilhamos), existem dois pontos: 1 – lidar com as contradições do eterno conflito entre paixão e razão no futebol: 2 – aprofundar-se no que aprecia. Vejo partidas da Premier League com seus comentários. São agradáveis, mas raramente dão maiores detalhes táticos e técnicos dos times – algo que Paulo Calçade tenta fazer. Caso houvesse tal profundidade, talvez ele mesmo compreendesse que exigiu (e segue exigindo) a lua na Gávea. Dominando isso, seria mais Cezar e menos Catão – o senador do começo da coluna.

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