O imprevisível Brasileirão e as apostas erradas

Créditos da imagem: Marcos Ribolli / GloboEsporte.com

Começa o Brasileirão 2018, campeonato mais importante do país.

Como?

Não tem sido esta a tônica dos últimos anos. Apesar de ser o campeonato que define o melhor time do país, e que é disputado a maior parte do ano, o que temos visto é a disputa do campeonato nacional como uma alternativa a quem está fora da Libertadores, este sim o título considerado pelos clubes e até pelos torcedores como o mais importante a ser disputado. Afinal, dá a chance ao campeão de disputar o Mundial de Clubes no final do ano e garante o sonho, cada vez mais sonho, de ser Campeão do Mundo. Uma total inversão de valores, que reflete a incapacidade dos clubes de se planejarem. No fim do dia, é mais um aspecto que leva à imprevisibilidade histórica do Brasileirão, que muitos insistem em chamar de Equilíbrio.

Outros colunistas de No Ângulo já trataram desse tema, como o Gustavo Fernandes, e aproveito para retomá-lo discutindo outros aspectos.

Num mundo organizado e profissional como a Europa, a disputa dos Nacionais tem sido cada vez mais modorrenta, à medida em que os favoritos são bastante conhecidos e se confirmam ano após ano. Nos 5 principais campeonatos da Europa, o título nunca foge dos 2 ou 3 suspeitos de sempre, quando este suspeito não se reduz ao eterno mordomo, como na Itália, Alemanha e mais recentemente na França. Mesmo na Inglaterra e seu competitivo campeonato, o resultado não escapa de 2 ou 3, porque Arsenal, Liverpool e Tottenham não tem passado de coadjuvantes para os Manchesters e Chelsea. Até em Portugal é uma raridade que Benfica ou Porto não levantem a taça, assim como na Holanda. Veja nos gráficos abaixo:

  • Premier League

    Entre 2007/08 e 2016/17 tivemos quatro campeões, sendo que Manchester United, Manchester City e Chelsea se repetiram em nove oportunidades, e apenas o Leicester foi o azarão que furou a fila uma única vez. Nesta temporada o Manchester City manteve a escrita. De qualquer forma, são raros os clubes que ocupam as 6 primeiras posições e que não se chamem Manchester City, Manchester United, Chelsea, Arsenal, Tottenham ou Liverpool.

 

  • Serie A

    Na Itália, após 4 anos de revezamento entre Inter e Milan, só dá Juventus, que deve se repetir na temporada atual. Exceto pela queda recente de desempenho de Milan e Inter, na maior parte das vezes os clubes que disputam as primeiras posições são Roma e Napoli, além dos três já citados.

 

  • Bundesliga

    A Bundesliga é a competição mais brasileira da Europa, pelo lado da imprevisibilidade. Excluindo o eterno campeão Bayern de Munique, os demais se alteram com frequência espantosa, e não dá para cravar quem disputará o vice-campeonato, uma vez que o campeão já é conhecido alguns anos antes.

 

O futebol nacional de clubes na Europa se tornou monótono porque os ricos se tornaram tão ricos que são melhores, pelo elenco e pela estrutura. Quando a organização e o planejamento se equilibram, é o dinheiro quem faz a diferença.

Entram em jogo então as competições continentais. A Champions League é a meta dos grandes, ainda que seja usualmente vencida por um seleto grupo de clubes –desde a Lei Bosman que 65% dos finalistas se concentram em Real Madrid, Barcelona, Juventus, Milan, Bayern e Manchester United, e se incluirmos o Liverpool esta conta vai a 71%– e a Europa League é a competição mais democrática do continente, onde há mais chances de um clube médio ser campeão.

Como as competições nacionais são previsíveis, resta aos clubes de maior relevância a busca por um título continental. Para a Champions League, como vimos, usualmente acaba nas mãos de poucos clubes –e nesta temporada, dos 4 semifinalistas, apenas a Roma é um outlier, porque os outros 3 são campeões históricos– de forma que a disputa também começa a ficar limitada. Mas para a Europa League há mais chances para todos, pois há enorme equilíbrio entre os clubes médios europeus. Ou seja, realmente trata-se de uma chance de ser campeão.

O problema é que com base nessa premissa, os clubes brasileiros preferem se dedicar à Libertadores, que por ser eliminatória traz muito mais risco de eliminação precoce, que ao Brasileiro, cuja organização e planejamento deveriam ser condições necessárias para a disputa do título. Mas na falta dessas, e na incerteza que leva à imprevisibilidade, os clubes optam pelo “mata-mata”. Inclusive porque aos olhos do torcedor parece fazer mais sentido.

Sem contar que os clubes ainda acreditam ser possível bater os grandes europeus no Mundial, quando isto é a exceção, e a realidade tem sido muito mais de ser eliminado nas semifinais do que vencer o campeão da Champions League.

Entretanto, se na Europa, quando há planejamento, o dinheiro faz diferença, no Brasil, onde não há e as estruturas são amadoras, o que faz a diferença é o acaso. E isto é uma das explicações para a imprevisibilidade do Brasileirão.

Seja porque a montagem do elenco deu liga mesmo na base da aposta, seja porque os melhores elencos resolveram se dedicar à Libertadores, e quando são eliminados precocemente optam pela Copa Do Brasil, o fato é que os campeões nem sempre são os potencialmente melhores. Muitos, inclusive, encerram o ano do título com atrasos de salários e endividados, porque optaram pelo “all in” ou simplesmente tiveram a sorte que cabe aos campeões, vide o Corinhians de 2017. E vide Palmeiras e Flamengo do mesmo ano, ou o Cruzeiro bicampeão Brasileiro recentemente.

Dessa forma, o Brasileiro acaba se tornando possível para todos, tem ar de competitivo até certo momento, e depois alguém dispara e se consolida rumo ao título. Esta sim é a tônica. Ou seja, começa com cara de Corrida Maluca e acaba como Fórmula 1 na Era Schumacher.

É bom? Os mais antigos dirão que sim, porque temos “12 grandes candidatos ao título”, mas eu prefiro um modelo organizado, planejado e que seja competitivo pela eficiência e não pelo acaso. Até porque, diferente do que acontece na Europa, no Brasil não há diferenças de receitas tão grandes que justifiquem a preocupação de que dois ou três times passem a concentrar títulos. O problema é que o imprevisível de hoje reflete na má qualidade do jogo, que nos faz preferir assistir aos campeonatos manjados europeus que à nossa aberta imprevisibilidade.

2 comentários em: “O imprevisível Brasileirão e as apostas erradas

  1. Título irônico ein!!!!! E assustador ver esses gráficos com a diferença de desempenho dos times na Premier League, Bundesliga e Itália!!!!!

  2. Caro Cesar Grafietti,
    Seus textos são sempre ensinamentos primorosos que apontam conclusões difíceis de se discordar (para quem leu).
    Parabéns

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