Crônica de uma boa final

O Flamengo surpreendeu. Muito por ter ele mesmo rebaixado as expectativas, após as dificuldades na final da Libertadores e, principalmente, na semifinal do Mundial. A julgar por ontem, ficou sugerido que a pressão – primeiro pelo tabu, depois para não passar vergonha – alterou a lucidez e dificultou sair do piloto automático em tais partidas. Sem este peso a carregar, lucidez foi o que não faltou ontem. No lugar do notório jogo vertical, conseguiram rodar a bola por longos minutos. Assim, por mais de meio-tempo, levaram o Liverpool à irritação por passar 25 minutos sem jogar. Sim, sem jogar.

Surpresa, mas não encanto. No período em que controlou o adversário, o Flamengo não fez Alisson trabalhar. Em parte porque não houve semanas suficientes para treinar esta mudança de estilo por completo. Em parte porque, a despeito de estar sendo mais vencida que de costume, a defesa do Liverpool é forte. Mesmo o improvisado Joe Gomez não se rende à velocidade alheia como nossos beques em geral. As duas boas chances do Flamengo no tempo normal (menos agudas que as do rival) vieram quando o Liverpool já estava ajustado. O rubro-negro, pela temporada e pela partida em si, começou a cansar. Por isso Jesus substituiu. Mas Vitinho não tem o repertório de Arrascaeta e Diego não pegou um time exausto para deitar e rolar. Não funcionou. Só que algo precisava ser feito e nem tudo que dá errado é erro. Tinha um time do outro lado. Um tremendo time.

O que veio depois foi o seguimento natural da tendência da partida. Um Liverpool mais confortável e paciente, contra um Flamengo perdendo forças – embora não a coragem. Para o público da América do Sul, o desempenho rubro-negro foi de um nível animador e muito acima da média local. Para o público europeu, foi uma boa equipe que deu trabalho a seu campeão. E “só”. Entre aspas, porque esta visão já é elogiosa. Não há como esperar, muito menos exigir mais. Afinal, causar dificuldades ao Liverpool não tem sido raridade no Velho Continente. Raridade é estas dificuldades não serem superadas pelos Reds. Por isso, na relatividade do futebol, o assombro daqui é quase cotidiano lá. Porém, um quase cotidiano que fez o Liverpool correr, no Catar, tudo o que não precisou correr na Espanha, em decepcionante final da Champions League. Esta lembrança será o melhor consolo.

De volta ao seu mundo, em que é o time a ser batido, o Flamengo tem que dar continuidade ao que começou atrasado. O que Jesus e o elenco conseguiram em tão pouco tempo é o mais impressionante. Especialmente porque, a partir de setembro, a quantidade de treinamentos diminuiu em razão dos jogos de quarta e domingo. Seguir memorizando a maior parte das instruções é sinal de qualidade na execução do que é treinado – justamente o que mais diferencia o português e Sampaoli do resto. A atuação contra o Liverpool dá a dica do que deve ser acrescido em 2020. O Flamengo quer alternar estilos, algo indispensável no melhor nível de futebol. Tem dinheiro, tem time, tem técnico e, a partir deste sábado, uma nova motivação para buscar o que não conseguiu em 2019. Caso siga trabalhando e evoluindo, pode reduzir mais a distância e, num jogo só, aumentar as chances de triunfo.

Deixo o último parágrafo para falar do vencedor. Em momento algum o Liverpool desprezou o torneio. Tanto que foi com todos os melhores disponíveis. O fato de não ver o Mundial como prioridade não significa que não o dispute com toda a energia, como já fizeram em 2005 – vide, como já escrevi antes, a cara de Gerrard após o apito final. Clubes grandes são assim. Valendo taça que não seja como as Copas Bozo do SBT, vão jogar para ganhar. Por fim, trouxe uma lição que os brasileiros precisam reaprender: lidar com o favoritismo, fazendo dele uma vantagem. Essa história de gostar de ser zebra já deu. Quer ser o número 1? Tem que aceitar todos os desafios do número 1. Sem terceiro-mundismo.

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