O tamanho das verdades e a final do Mundial de Clubes

Créditos da imagem: Reprodução / Aposta10

Se o Flamengo vencer o Liverpool, é certo que será de uma forma bem diferente do que fantasiam as mesas redondas. A falta de assunto aguça a imaginação, tal como a pessoa que pensa encarnar um médium na hora de preencher o bilhete da loteria. Vale até analisar o Liverpool com base na escalação de apenas quatro titulares – três, se considerarmos que Henderson jogou na zaga. E se engana quem pensa que esta prática é recente. O Flamengo nem tinha vencido o River Plate e já havia videntes assistindo aos jogos do Liverpool para ver sinais de crise, buracos defensivos, etc… A ponto de se criarem suposta má fase de quem lidera disparado a liga mais difícil do planeta. Doce crise.

Faz parte da crônica esportiva de qualquer país buscar elementos favoráveis ao seu time. Mas isso não torna legítimo desinformar. Seja com mentiras, seja aumentando verdades. Sim, Alisson tem feito defesas importantes para ajudar o Liverpool. Mas que disputa o time inglês venceu sem contar com isso? Foi justamente para tal finalidade que foi contratado, após o desastre de seu antecessor. Falando em aumento de verdades, o segundo tempo rubro-negro contra o Al Hilal não foi a passada de carro propagada. Até a entrada de Diego e o gol de Bruno Henrique, a disputa estava em aberto. A equipe árabe rondou a área brasileira tanto quanto o contrário. Acabou perdendo por conta de uma verdade em tamanho real: o Flamengo tem melhores jogadores de frente. Mas adivinhem outra verdade real: o Liverpool tem melhores jogadores de frente que o Flamengo.

Vamos encarar: o Flamengo encantou com um padrão europeu e individualidades sobrando em campo, contra times brasileiros. Fora deste território (além do Santos do estrangeiro Sampaoli), as dificuldades aumentaram. OK, podemos dar um grande desconto contra o Emelec, pois a equipe ainda estava verde em sua mudança. O mesmo não se pode dizer a respeito da final da Libertadores. Também é verdade em tela normal que o River Plate não suportou o ritmo por mais de sessenta minutos. Mas um gol a mais, durante este período, bastaria para que a virada heroica precisasse de contornos hercúleos. Faltaram tempo e sparrings para a mesma desenvoltura contra equipes de fora. Para pegar a melhor equipe do planeta em pé de igualdade, não há como compensar o tempo perdido – nem socando carne como Rocky, antes de enfrentar Apollo.

Neste contexto das verdades sem zoom, é bastante razoável prever que o Liverpool não terá dificuldades para assumir a iniciativa do jogo, como fez o ano todo contra times de qualquer país. O Flamengo precisará se adaptar. Isso inclui envolver mais jogadores na marcação em seu campo. Dos quatro de frente, pelo menos dois terão que acompanhar os laterais do Liverpool. Outro terá que se unir ao meio-campo, para que não fique em inferioridade numérica. Fora que Gerson e Arão fatalmente terão que ajudar os próprios laterais quando Mané ou Salah abrirem pela ponta. Sabem o cansaço que marcar o Flamengo provocou em rivais? É o que o rubro-negro sentirá na pele. Ficará mais difícil aproveitar os espaços que o Liverpool tem dado. Por outro lado, sem este esforço, os ingleses terão ainda mais terreno. Não é questão de escolha. É falta dela.

Então já acabou? O Liverpool já é campeão mundial? Sim, o Liverpool já é campeão mundial. Na prática, o torneio que tem os melhores jogadores de todos os continentes, a Champions League, já foi vencido pelos reds. Mas o Liverpool ainda não é campeão do Mundial. Para tanto, terá que jogar concentrado e impondo seu futebol. Do contrário, vai se arriscar contra um rival talentoso e confiante. Afinal, desde a invenção do esporte, deve haver uns mil casos de campeões improváveis. Onde houver ataque capaz e defesa atenta, há chances. Porém, vale lembrar que há pelo menos cinco mil casos de campeões prováveis. Quem morre de véspera é peru! Só que estamos à beira do Natal…

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