SPFC e o efeito Jerry Lewis

Créditos da imagem: Montagem / No Ângulo

Nas comédias pastelão, um clichê clássico é o protagonista desastrado levar uma pancada na cabeça e, subitamente, transformar-se em superatleta, gênio da física, etc… Mais adiante, quando está prestes a ficar milionário e se casar com a mocinha, toma outra pancada e volta ao normal. Desde os minutos iniciais contra o Bragantino, o São Paulo parece encarnar esse tipo. Tinha virado o melhor time do Brasil de todos os tempos da última semana. Diniz se tornou o revolucionário bem sucedido. Eis que tudo vira torta na cara em duas atuações dignas de Sessão da Tarde – dos bons tempos. Essa galera do barulho estava abafando, mas se meteu numa tremenda confusão. E agora, trapalhões?

Evidentemente, na vida real a boa fase não derivou de um acidente benéfico. Nem houve uma pancadaria no vestiário. Houve azares, mas há fatores bastante lógicos. Incluindo a conta por uma forma de jogar que, fisicamente, exige demais de alguns atletas. Este colunista sempre fala que, para serem campeões, os times precisam se readaptar quando os adversários aprendem a enfrentá-los. É normal que, após finalmente levarem o SPFC a sério (quem levaria antes?), as outras equipes encontrem meios de dificultar o trabalho tricolor. Porém, não apenas como são-paulino, mas comentarista amador neste espaço, receio que as complicações ainda tenham pouco a ver com as soluções adversárias. O cientista louco Fernando Diniz conseguiu dar vida a sua criatura e assustou o povoado. Só que, possivelmente, esta criatura se sustenta em elementos de curta resistência.

Saída com toques curtos faz parte do futebol de hoje. Mas nenhum outro clube a realiza com jogadores do ataque voltando até sua área. Nem Lionel Messi, em seu auge atlético, acumulou as funções dadas a Luciano. Espantoso, pois sim, foi que este tenha demorado para se contundir seriamente. Por sua vez, o jovem Gabriel Sara ainda não se lesionou, mas as pernas pesam o bastante para sofrer do pesadelo dos boleiros: a má fase. O esquema de Diniz produziu tudo o que ele queria, com um repertório que se expandiu em dezembro. Só que a temporada tem muito mais de dois meses. Fosse para um torneio de tiro curto, incluindo uma Copa do Mundo, haveria físico para executá-lo. Não é o caso. Corre-se o alto risco de encarnar um maratonista que se destaca do pelotão de frente, mas se esgota faltando dez quilômetros para a linha de chegada.

Para esta perda de gás, também contribuiu muito outra conta: a falta de elenco. O São Paulo fez gastos astronômicos e alguns deles são jogados pelo ralo a cada rodada – vide as entradas ineptas de Pablo e Hernanes (em triste fim de carreira). Contudo, mesmo o que funciona pesa no orçamento. A despeito dos três gols entregues em dois jogos, Daniel Alves é o principal jogador da estrutura. O que não apaga o fato de que sobrecarrega a folha – isso porque nem foi pago totalmente. Mesmo caso, embora menos salgado, de Juanfran. O espanhol tem colocado os atacantes de lado no bolso, mas ganhando quantias que a nova diretoria não pretende repetir na renovação. Consciência financeira? Não necessariamente. Casares quer o crepuscular Miranda na zaga e, para gestor de futebol, pensa em gastões como Rodrigo Caetano e Alexandre Mattos.

Não serão semanas nada fáceis no Morumbi. Incluindo, já que mencionei a nova gestão, os prováveis salvadores da Pátria. Está mais que desenhada a manchete “Muricy usa sua experiência para reverter crise!”. Muricy Ramalho é o homem errado num cargo (coordenador) que sempre foi muito mais lindo no papel. Na prática, o novo presidente promove outro rodízio de nomes do passado achando que alterará o futuro. Um ótimo primeiro passo para o que Danilo Mironga chamou de Missão Impossível (ou não): ser pior que Leco. Não subestimem a mediocridade humana. Ainda mais no meio de um filme pastelão.

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