Sobre a superioridade europeia e a ideia do novo Mundial de Clubes

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Um Sub-Mundial para chamar de seu?

20 jogos, 17 vitórias, 2 empates (com vitória na prorrogação) e 1 derrota. 50 gols marcados e 8 gols tomados. Estes são os números dos clubes europeus no Mundial de Clubes dos últimos 10 anos (em que venceram 9 edições). Confiram:

2011 – 8-0 (4-0; 4-0)
2012 – 3-2 (3-1; 0-1)
2013 – 5-0 (3-0; 2-0)
2014 – 6-0 (4-0; 2-0)
2015 – 6-0 ((3-0; 3-0)
2016 – 6-2 (2-0; 4-2)
2017 – 3-1 (2-1; 1-0)
2018 – 7-2 (3-1; 4-1)
2019 – 3-1 (2-1; 1-0)
2020 – 3-0 (2-0; 1-0)

Detalhe: dos 8 gols sofridos, 5 foram marcados por clubes asiáticos, 2 por clubes da América do Norte e apenas 1 por sul-americanos. Sim, foi o gol da única derrota europeia, imposta pelo Corinthians – repetindo o mesmo placar que SPFC e Internacional anotaram na década anterior. Lembrando que o Chelsea, corresponsável pela façanha, chegara ao Mundial em crise absoluta, logo após ser eliminado na Champions League. Ainda assim, desperdiçou mais oportunidades que os brasileiros – assim como Liverpool e Barcelona tiveram mais chances que seus algozes.

O ponto desta coluna é mostrar justamente este aspecto: a dificuldade monstruosa de se criar chances contra equipes europeias. Os adversários são obrigados a fazer uma espécie de “circunavegação” ofensiva, evitando trocas de passes pelo centro e concentrando jogadores nas pontas – o que retarda as jogadas. Bolas em profundidade também são difíceis, por conta da linha alta forçando impedimentos. Mesmo o Flamengo, elogiado por até irritar o Liverpool, pouco conseguiu agredir. Muita coisa tem que dar errado para a bola entrar. Isso inclui o gol de Guerrero, que contou com uma bola maluca após finalização de Danilo. Por outro lado, mesmo em péssima fase, os ingleses transformaram Cássio em herói.

Na final da última edição, o 1 a 0 (em gol irregular) pode passar a impressão de que jogo equilibrado. Engano total. Em momento algum o Tigres insinuou colocar Neuer em apuros – coisa que times pequenos da Bundesliga têm feito. Metaforicamente falando, foi como colocar um boxeador peso-pesado e outro peso-pena no mesmo ringue. Mesmo que este último se esmere e acerte a ponta do queixo do pesado, pouco o abalará e beijará a lona com a primeira bordoada. O que me leva à pergunta que os leitores devem estar imaginando desde o começo: por que manter este torneio? Mais: por que ampliá-lo?

Os números acima são terríveis. Mais ainda para nós, sul-americanos. E ficam piores quando se constata que, no último quinquênio, os únicos times que estiveram em vantagem contra europeus foram… asiáticos. A esta altura, aquela assertiva “cara de conteúdo” sobre a volta do jogo único, entre Europa e América do Sul, denota-se candidata a idiotice do século. Não dá mais para inventar desculpas. Quando o máximo que se pode almejar é uma derrota digna, sem sequer um sinal de utilidade de intercâmbio (pelo contrário, pois a distância só aumenta), talvez seja melhor acabar com a brincadeira. Perdeu a graça – a não ser para os rivais dos derrotados.

Porém, a FIFA não pensa em encerrar o Mundial. Por motivos políticos e, principalmente, financeiros. Francamente falando, o melhor do futebol não está na Copa do Mundo, que vale pela tradição. Mas, em termos de qualidade do espetáculo, os jogos entre times atraem muito mais. Os maiores craques do futebol mundial jogam seu melhor pelos clubes. Aliás, os grandes clubes são seleções maiores que as próprias seleções nacionais. Ver a UEFA ficar com quase todo o proveito financeiro é um desespero para a dona do futebol. Daí a ideia do supermundial de 24 clubes, de 4 em 4 anos. Mas seria tão simples se fosse tão simples.

Não há interesse natural, por parte dos clubes europeus, em prorrogar a temporada para disputar o que, na prática, terminaria como uma mini-Champions League recheada de figurantes (fãs?) do resto do mundo. Mesmo a parte financeira teria que ser extremamente compensadora, a ponto de arriscar seus craques a se estourarem para a temporada seguinte – lembrando que, ainda por cima, este Mundial seria disputado nos anos anteriores à Copa do Mundo. O mais provável é que, caso a primeira edição ocorra mesmo (o que, a esta altura, só dará para fazer em 2025), utilizem times B e deem férias a seus titulares.

Acredito que seja justamente esta a esperança de parte dos apoiadores sul-americanos, de forma bastante sonsa. Querem saber é de ganhar. Dirão “ninguém mandou não terem disputado pra valer”, quando forem lembrados que enfrentaram equipes europeias sub-23. Mas tem um pequeno problema: caso isso baste para passar pelo Velho Mundo, quem disse que vencerão os demais concorrentes terrestres? Palmeiras, River Plate e Atlético Nacional (para ficar nos cinco últimos anos) que o digam.

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