Guia do técnico de arquibancada (ou poltrona)

Créditos da imagem: Manual do Professor Pardal

Em meio à expectativa pelo início da temporada, o torcedor adora mostrar seu lado estrategista. Seja no bar ou na tela, não resiste a tramar escalações e esquemas com o elenco de seu time. Não vou estragar o prazer de veraneio. Mas vale dar umas dicas para o técnico oculto levar em conta. O leitor pode ignorá-las, mas depois não venha se fazer de gênio incompreendido. Vamos a elas:

1 – o que não pode faltar no seu time? – além do goleiro e o mínimo de dois zagueiros, você deve escalar ao menos um volante e um centroavante, bem como definir quem atuará pelos lados. Jogar sem um camisa 9 é muito difícil e traz requisitos individuais que, honestamente, nenhum elenco brasileiro preenche. Então desista logo de cara. Não usar nenhum volante é suicídio, mesmo que você invente quatro zagueiros atrás. Quanto a quem joga pelos lados, você tem três opções: 1 – alas – no caso de usar três zagueiros; 2 – meias-atacantes – muito jogador que começou a carreira centralizado acabou indo para os lados, para não ficar encaixotado na marcação; 3 – atacantes – não raro de “pés trocados”, com um destro na esquerda e vice-versa. Também dá para mesclar um meia-atacante de um lado e um atacante do outro.

2 – QUEM VAI MARCAR O LATERAL? – em caixa alta, mesmo. Vale, inclusive, se o jogo for contra um time cujo lateral não ataque, porque outro jogador será deslocado para aproveitar o buraco no seu esquema. Normalmente quem acompanha o lateral (formando a primeira linha de quatro) é o atacante ou meia-atacante aberto pelo respectivo setor. Quando um deles for o protagonista do seu time, é possível dispensá-lo da função e confiá-la a um integrante do meio-campo – como no PSG e seleção com Neymar. Tenha em mente, contudo, que este meio-campista ou segundo volante pode ter dificuldades físicas para marcar pela lateral e produzir seu normal na parte ofensiva. Outra coisa: se quiser dispensar os dois jogadores abertos de acompanhar o lateral, só resta obrigar o coitado do centroavante a voltar e depois ir correndo pra frente. Ter apenas sete na marcação é que não dá.

3 – como trabalha o técnico do seu time? – embora certos comentaristas achem que esquema é como escolher roupa pra sair, a grande maioria dos técnicos costuma trabalhar com uma tática padrão. Não há problema em ser “técnico de um esquema só”, desde que seja bem executado e ainda se mostre competitivo. Neste contexto, não adianta você ficar imaginando escalações com apenas um volante, se o treinador só costuma trabalhar com dois. É o caso dos são-paulinos com Dorival Jr., que há anos utiliza o 4-2-3-1. Também é difícil imaginar o Corinthians de Carille usando dois atacantes abertos, pois tanto ele quanto o mestre Tite costumam usar um atacante por um lado e um meia-atacante pelo outro. Se o técnico for Cuca, aí nem se preocupe. Seja qual for o esquema (do WM ao 3-4-3), vai ser o sanduíche do Subway de sempre.

4 – quem vai ser o jogador rápido do time? – tem muita escalação que é um sucesso no papel, mas quando entra em campo só vinga contra times fracos, porque nenhum dos jogadores tem velocidade. Não precisa ser um Usain Bolt, mas é fundamental ter um escalado veloz para ser lançado, ganhando a atenção da defesa adversária para que os outros tenham espaço. Um SPFC com Scarpa (supondo que venha), Cueva e Shaylon atrás de Diego Souza teria tudo pra ser uma dessas frustrações. Se entrar um jogador de lado ou um centroavante rápido (e com boa técnica, senão a natureza marca), aí pode dar certo. O mesmo vale para quem pensar num Palmeiras com Lucas Lima, Guerra e Moisés, mais Borja na frente. Um dos três do meio tem que dar lugar a Dudu, ou o time dos sonhos virará tortura em meia hora.

5 – e a defesa? – escalar lateral porque ataca muito, zagueiro por marcar gols ou goleiro por jogar bem com os pés pode ser um desastre anunciado, se o lateral não voltar, o zagueiro falhar e o goleiro não for tão bom com as mãos. O erro mais comum está nos laterais. 99,99 % dos torcedores brasileiros querem saber, antes de mais nada, se o lateral sabe cruzar. Só depois se preocupam com uma eventual avenida ou rodovia para o ataque rival. Neste caso, logo começam as ideias de jogar com três zagueiros para aproveitar o “potencial ofensivo” do lateral, agora chamado de ‘ala”. Só vale a pena quando, além de ir ao fundo, ele tiver capacidade de ir para o meio, confundindo o marcador – porque isso sim, é um ala. Do contrário, será dominado e seu time terá um jogador ofensivo a menos para compensar. Não resolve nem na frente, muito menos defendendo a casinha.

6 – vai ter que combinar com o adversário? – conta-se que, depois das preleções caprichadas dos treinadores, Garrincha perguntava: “o senhor combinou com eles?”. Folclore à parte, ele tinha alguma razão. Em coluna anterior, lembrei o Brasil enfrentando o Uruguai sem centroavante, abrindo dois a zero e depois quase tomando a virada, depois que os zagueiros uruguaios resolveram não seguir o “combinado” e pararam de sair da área atrás de Neymar. Outro risco é bolar num esquema pensando no adversário e ser surpreendido por uma mudança deste que inutilize sua ideia. Claro que estudar e se adaptar ao jogo do outro time é importante, especialmente quando ele é mais forte que o seu. Mas com moderação. Quanto mais “combinações” você imaginar, maior a chance de que ao menos uma delas saia do script.

Pronto. Agora você pode fazer bonito com seus amigos. Última dica: se nada disso o convencer, deixe as escalações mais criativas pra depois do quinto chope.

Um comentário em: “Guia do técnico de arquibancada (ou poltrona)

  1. As colunas do Gustavo são sempre esclarecedoras. Ouvir torcedor falando atrocidades é aceitável, mas tem muitos jornalistas que deveriam ler esta coluna para falar com alguma propriedade.

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