O são-paulino voltou?

Créditos da imagem: torcedores.com

A melhor notícia tricolor de janeiro foi o comportamento da torcida que foi ao Estádio do Café, Por pouco mais de noventa minutos, o São Paulo foi São Paulo. Não em campo, mas na arquibancada. Não teve apoio incondicional. Não teve compreensão. Houve, pois sim, a impaciência de quem não foi manipulado por mães de hienas e noticiário chapa-branca. Não suporto a babaquice de raiz e Nutella (quem desdenha quer comprar – e muito), porém se existe um perfil de torcedor do SPFC era o que esteve em Londrina. Inclusive por estar longe de lotar o estádio. Há quem considere isso ruim. Coincidentemente, há quem não saiba mais o que é torcer por um time grande.

Como já escrevi, não faço parte dos que se encantaram com o fato de que, na hora do aperto, o São Paulo teve mais público que em dias vitoriosos. Isso simplesmente não é normal. É fruto de uma esdrúxula “modinha de não ser modinha”. Teve origem remota numa certa dor de cotovelo com os corintianos, por conta do cartaz no rebaixamento de 2007. Até coro legendado na Globo do bando de louco eles tinham. Não surpreende que o primeiro sintoma no Morumbi tenha sido o “como eu te amo, tricolor…”, provavelmente o coro mais horroroso já criado por uma torcida brasileira. A cereja no bolo, acreditem, teria sido se o São Paulo caísse em 2017. Incitados por blogueiros, os tais “verdadeiros tricolores” definiriam o grande objetivo da temporada. Subir? Não, esse seria o secundário. O mais importante seria bater os recordes de público de corintianos e palmeirenses na série B. “Vão morrer de inveja!”. Realmente…

Como o público que lê uma coluna de meses atrás nem sempre é o mesmo hoje, às vezes tenho que me repetir com o exemplo dos clubes de Madri e suas torcidas. De um lado, o multicampeão Real Madrid e seus torcedores, tidos como os mais chatos da Europa. De outro, o bem menos campeão Atlético e seus simpáticos apoiadores. Em primeiro lugar, nem em seus dias mais simpáticos os colchoneros se auto-impuseram apoio incondicional Em segundo lugar, a chatice madrilista não é coincidência, mas consequência. Quanto mais um clube ganha, mais seu torcedor se torna exigente. Há uns trinta anos o barcelonista podia ser definido como “alegre” e satisfeito com o bordão “mais que um clube”. Depois de emplacar um ritmo de títulos como o do Real, a torcida do Barça passou a sofrer o mesmo tipo de comentário dos “críticos de torcida” (haja jornalista sem assunto) aos rivais da capital. Parabéns a eles.

Como se vê, ter um torcedor chato é a venda casada que acompanha a grandeza. Não adianta ir ao PROCON reclamar. Mesmo porque a manutenção desta grandeza depende da simbiose com a chatice. Sem isso, acontece o que se vê no Morumbi. Dirigentes soberbos repetindo erros, enquanto torcedores se proclamam “soberanos” e buscam esperanças nas falácias de quem os adestra. É a “ótima referência” sobre o jogador obscuro. É a enganação do “se jogar metade do que jogava, será um baita reforço”, quando trazem um ex-jogador em atividade. E é a mentira maior: dizer aos torcedores que o time não vem sendo campeão por culpa de suas reclamações. Deveriam ter reclamado muito mais, pois sim. Não o fizeram porque, pasme-se, muitos simplesmente esqueceram como faz. Sério. Ano passado teve leitor me perguntando como devemos cobrar. Vão precisar de manual?

Neste contexto, torço para que a postura de ontem ajude a “lembrar” como se cobra. Podem fazer isso indo ao estádio. Podem fazer não indo ao estádio. Podem fazer postando na internet. Podem fazer fechando as portas para os endereços que os preferem agindo como bobos alegres. O importante é que façam. Mostrem que não estão satisfeitos. Mandem se danar aqueles que já estão censurando a excelente conduta dos londrinenses. Mesmo com tudo isso, será muito difícil o São Paulo voltar a ser campeão neste ano. Não quero enganar ninguém. Assim como não quero enganar quando digo que, sem esta mudança, não voltará a ganhar nem daqui a cinco anos. Jogue a moda antimodinha no lixo e volte, são-paulino! Seu time precisa de você.

11 comentários em: “O são-paulino voltou?

  1. Concordo, mas deixo uma provocação: no Brasileirão, enquanto a equipe lutava contra o rebaixamento, a torcida teve um papel importante para ajudar a reerguer o time, você não acha, Gustavo Fernandes?! Ou podemos colocar tudo na conta do Hernanes mesmo?

    1. A torcida já vinha lotando o Morumbi antes do retorno dele. Tava adiantando alguma coisa? Você consegue vislumbrar alguma hipótese de o time ter se salvado sem Hernanes? Eu não. Com ou sem Morumbi cheio, o final seria o rebaixamento.

    2. O símbolo do narcisismo do apoio incondicional pôde ser visto no minuto em que o Bahia empatou o jogo final e tirou qualquer chance de uma vaga na Libertadores. Em vez de tensos com uma falta perigosa do adversário, estavam celebrando o público informado. Como já disse em coluna anterior, este torcedor não foi vítima. Fui cúmplice. Espero ver de novo o são-paulino exigente. Pode até ser insuportável em certos momentos, mas a comparação com o apoiador incondicional é como a das músicas do antigo Globo de Ouro com as gororobas do funk. Chega um ponto em que “Como uma Deusa” parece bem menos ruim quando você escuta “Que tiro foi esse?”.

  2. Acho um grande erro vaiar jogadores durante o jogo, torcedor tem que apoiar o time durante o tempo todo. Não estou satisfeito com a situação do clube, mas o torcedor São Paulino tem que ser inteligente e cobrar os principais culpados por tudo isso. Leco e sua corja, os tão falados cardeais do Morumbi, os conselheiros que só servem para encher linguiça, esses sim devem ser cobrados. É incrível a falta de uma oposição forte no São Paulo. Só acho que vaiar o time não resolverá o problema do clube, mas é um bom debate.

    1. Se você aplaude alguém o tempo todo, como ele pode saber se está se saindo bem ou não? Como a coluna mostra, jogar num time que ganhou muita coisa é se sujeitar a um público exigente, às vezes até estúpido e recalcado. Seja no Morumbi, seja no Santiago Bernabeu, seja onde houver um clube grande envolvido. Você prefere que seu time ou sua torcida seja consagrado?

    2. Tenho um pensamento diferente de você Gustavo, meu amor pelo São Paulo não depende de títulos, fase boa ou jogadores bons. É por isso que eu sempre falo, a grande maioria dos torcedores brasileiros gostam de ganhar e não do seu clube coração.

    3. Então por que você fala em criticar a diretoria? Então pra que ver um jogo, se o resultado não importa? Só pra ver o uniforme? Pra isso uma passarela de moda também serve. Se está tudo bem desse jeito, tudo lindo sem disputar títulos e comemorando não-rebaixamento, você também não devia dar a mínima pro Leco. Se dá, talvez não compre tanto assim o discurso “não vivo de títulos, vivo de SPFC”. Aliás, já ouvi isso em algum outro lugar, não? Abs

  3. Durante os 90 minutos, torcedor tem, obviamente, que torcer. Depois, caso o resultado não venha, pode vaiar, xingar, reclamar a vontade. Se o time que está em campo é ruim, não é porque o idiota está xingando que, do nada, os caras vão virar craques… muito pelo contrário, vão ficar nervosos e fazer ainda mais merda.

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