Luar sob a Colina – o iminente (e custoso) fim de um imperador do futebol nacional

Créditos da imagem: Estádio Vip

Um dos maiores defeitos do povo brasileiro, provavelmente ao lado da falsa humildade (há algo mais arrogante que se proclamar humilde?), é a condescendência com a desonestidade de quem, supostamente, faz algo por ele. Só isso explica por que foi criada uma lei da ficha limpa, desnecessária em países de democracia sólida. Um eleitor minimamente sensato não votaria em alguém condenado, mesmo que em primeira instância. Aqui se reelege candidato condenado na quinta instância. No futebol, claro que não seria diferente.

Assim, não surpreende que Eurico Miranda siga dando as cartas no Vasco da Gama, contando com quem adora colocar tartaruga na árvore. A desculpa era sempre a mesma: “ele é safado, mas faz de tudo pelo Vasco”. Percebe-se… Nos últimos meses, arrastou-se a indefinição sobre a validade de uma das urnas na eleição vascaína. Enfim anulada, dadas as escandalosas evidências de fraude, o candidato oposicionista está virtualmente eleito, faltando apenas a ratificação pelo conselho. O que fez o senhor “tudo pelo Vasco”? Está facilitando a saída de jogadores. Tanto pelos salários atrasados (por culpa da diretoria) quanto por pura sacanagem com quem chega. O Vasco sofrerá um desfalque patrimonial e de recursos humanos que o coloca, desde logo, como candidatíssimo a mais uma temporada na série B. Um fecho típico para o maior dos caudilhos do futebol brasileiro.

Caudilhismo é algo que sempre teve – e tem – admiradores na América Latina. É o “macho”, que faz e acontece custe o que custar. Seus altos são seguidos de baixos e muito baixos. O esporte brasileiro pegou o modelo e o instituiu como padrão. Raras foram as Confederações, Federações e clubes que não conviveram com um caudilho. Até o “diferenciado” São Paulo acentuou sua decadência pós-2008 ao consagrar, sob omissão ou conivência de notórias cabeças jurídicas, o golpe estatutário que perpetuou Juvenal Juvêncio no poder (até depois de sua morte). Os rivais Corinthians e Palmeiras também não resistiram a Mustaphás e Dualibis. Destes, apenas o tricolor – por enquanto – não viu as glórias serem sucedidas por um passeio na série B. Nem por isso deixou de ficar moralmente rebaixado, comemorando que “equipo grande no se cae” – em espanhol, pra ficar mais bolivariano.

Além da omissão interna, existe a colaboração de quem deveria informar e denunciar. Os caudilhos são normalmente combatidos por um ou outro jornalista, mas quase nunca pela linha editorial de um veículo. No jornalismo esportivo brasileiro, a ditadura de interesses econômicos é bem mais tolerada que a militar. Eurico Miranda conhece os macetes para sedar o ânimo crítico. Em 1997, por exemplo, o locutor Januário de Oliveira não pôde responder ofensas proferidas pelo dirigente em matéria da Placar. Motivo: segundo o próprio Januário, a Bandeirantes contava com o apoio do Vasco para conseguir transmitir o Campeonato Brasileiro. Isso também explica por que Luciano do Valle tampouco abria a boca sobre o assunto. “Sinistro”, como diria o colega. As coisas não mudaram. Na entrevista em que negou o fim de feira, Eurico arrancou gargalhadas dos repórteres. Te cuida, Porchat.

É provável que, desta vez, o déspota de São Januário esteja contando as últimas piadas para a claque. Porém, é questão de tempo para que venham outros. Não vejo indícios de que o brasileiro tenha compreendido que tais figuras deveriam se restringir a comédias, como o Bananas de Woody Allen. As estruturas burocráticas e conversas fiadas são o terreno perfeito para que ignorantes e desavisados clamem por um “prendo e arrebento”. No lugar de discutir o que fazer para tirar a burocracia e o papo furado, preferem um novo papaizão que “faz tudo pelo clube”. E se engana quem pensa que isso não afeta os que evitam o caudilhismo. Cada loucura do “macho”, como torrar dinheiro num jogador ou sabotar negociações coletivas com TVs, gera inflação e perda de divisas para todos. Por isso um Eurico não é apenas problema do Vasco. É do rubro-negro, do santista, etc…

Por fim, além da mudança de mentalidade, a Justiça tem que ser acionada e mostrar-se eficaz. Caudilhos devem ser processados, inclusive criminalmente, para compensar os prejuízos e cumprir pena pelas apropriações. Não é algo simples, muito menos rápido – ainda mais num país em que juiz de primeira instância é visto, pelos poderosos, como um reles estagiário dos Tribunais. Mas tem que ser feito. Se tentando já é difícil, de braços cruzados é que não vai rolar mudança, mesmo. Lembre-se: com ou sem Euricos, o seu time também está na reta.

13 comentários em: “Luar sob a Colina – o iminente (e custoso) fim de um imperador do futebol nacional

  1. O espertíssimo Eurico Miranda era um simples Gerente de Vendas de uma concessionária VW que pertencia a um Presidente Português (residente no Brasil) no C.R. Vasco da Gama. O Eurico teve
    apoio e suporte para entrar com tudo na Política Vascaína e ele, hoje multimilionário, conseguiu
    acabar com o Clube, que com certeza, NUNCA AMOU.

  2. Perfeito! Esse caudilhismo presente por aqui é uma triste, mas o mais assustador é que até em casos tão evidentes como o do Eurico ele ainda não tenha sido totalmente desmascarado! A pessoa tem que ser muito cega e dependente de um “líder” para continuar caindo nessas…

    1. Moacir, o Eurico faz mal ao Vasco e ao futebol carioca, sou vascaíno mas enquanto esse mala estiver por lá não vejo futuro para o Vasco, o futebol do Rio sempre foi marcado por maus dirigentes, o Flamengo deu um grande passo com o Eduardo Bandeira. Espero que o novo presidente faça um bom trabalho, senão ferrou.

  3. Rsrsrsrs Somos uma nação sem princípios meu amigo agreditamos na lei de Gerson , levar vantagem em tudo. Esse país não tem solução, se for me favorecer está bom , o resto.que se dane. Nossos lideres são demagogos nossa população interesseira rs. Se não temos uma.direção qualquer lugar serve . Boa.tarde

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