Made in England

Créditos da imagem: Reprodução / Bleacher Report

Durante décadas, falar dos ingleses era uma sucessão de clichês. Toda menção em livros de História era seguida da palavra “interesse”. Até a Guerra do Paraguai se tornou uma pérfida armação da Inglaterra contra a imaginária prosperidade paraguaia. O povo tampouco era retratado com ternura – “São frios!”. Mas isso tem mudado. Descobriram que Londres é incrível. Que os ingleses são muito mais reservados que antipáticos. Fora o óbvio: trocentas manifestações artísticas, de Monty Python a Queen, são adivinhem de onde. Por fim, filmes como Dunkirk e o Destino de Uma Nação lembraram que, não fossem os “frios e interesseiros”, o nazismo poderia ter ido além da atual apelação em debates na internet.

Por que esta defesa apaixonada pela Inglaterra? Primeiro, porque eu tinha a mesma visão equivocada e passei a cair de amores não só pela Inglaterra, como por todo o Reino Unido. Segundo, como colunista esportivo, porque Liverpool e Tottenham encarnaram a crença na vitória impossível, para que a ilha invadisse a parte continental da Europa em tempos de Brexit. Numa ironia tipicamente britânica do destino, sob o comando de um técnico da Alemanha e outro da Argentina. Justamente países derrotados em duas das últimas guerras – no caso dos argentinos, a infame Guerra das Malvinas (ou melhor, Falklands). E se os ingleses repetem a dose de 11 anos atrás, com dois times na decisão, Klopp e Poquetino vão em busca do inédito. Quem vencer levará sua primeira conquista pelo clube. No “caloroso” Brasil, já teriam ido pra rua há muito tempo.

As semelhanças entre os finalistas acabam por aí. O Liverpool, em termos de competições europeias, é o que há de mais vencedor no país. Só de Champions League (desde os tempos de Copa dos Campeões), foram cinco. O Tottenham é bem mais modesto, com duas Copas da UEFA. Os reds são maioria na cidade dos Beatles – que torciam pelo Everton. Os spurs são parte da torcida diluída entre os clubes da capital, dividindo o Norte com o Arsenal. A diferença entre as equipes é igualmente notória. O Liverpool chegou à decisão de 2018 contra o então fortíssimo Real Madrid. Não fossem a lesão de Salah e o goleiro, poderia ter melado o tricampeonato merengue. Já o Tottenham vem num estágio inferior ao de Manchester City e do próprio Liverpool, o que se reflete na tabela da Premier League. Inclusive porque, muito pelo estádio caríssimo que construiu*, não contratou ninguém para a temporada.

Embora o Liverpool tenha superado o Barcelona em remontada sensacional (além de ter passado pelo grupo da morte na fase de grupos), o Tottenham esteve com a corda no pescoço desde a abertura. Só se classificou graças a um gol de Lucas contra time misto do Barcelona. Tranquilidade, só nas oitavas. Depois, mais sufoco para eliminar o esquadrão de Guardiola (Saint VAR) e um milagre do redentor Lucas para, com o perdão do humor britânico, fazer uma limpeza com o Ajax. Isso sem contar com seu artilheiro Harry Kane. Para suprir sua falta, todos se desdobraram. Não teve treinador chorando as pitangas. O coreano Son, depois de escapar do exército com o ouro nos jogos asiáticos, desandou a marcar. É este instinto de sobrevivência que mais deve preocupar o intenso escrete de Salah, Mané e Firmino. Mais: Kane pode voltar, nem que seja por meia hora.

Hoje conheceremos o desfecho desta superprodução de bandeira inglesa e elenco multinacional. Uma linda história terá final feliz e outra será lembrada como coadjuvante. Ambos são merecedores. Representam o futebol naquilo que traz de mais fascinante: técnica, tática, competitividade e paixão. Confesso que queria estar lá. Não em Madri, mas em qualquer das cidades dos clubes envolvidos. Testemunhar como os “frios ingleses” comemorarão e lamentarão. E o melhor: sem aturar a transmissão do Esporte Interativo. Isso sim, nenhum dos possíveis campeões merece (mais humor, esse bem brasileiro)…

*sem ajuda governamental, porque os britânicos não são lá muito fãs dessa história de torrar dinheiro público.

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