Profissionalismo Amador dos Políticos do Futebol

Créditos da imagem: ESPN

No último dia 30 participei de um debate sobre governança e transparência no futebol, organizado pela BDO. Evento interessante, contou num dos painéis com a presença de alguns presidentes de clubes e candidatos a presidentes. Podemos chama-los de “políticos do futebol”.

Naturalmente que o painel formado por esses políticos foi um festival de atrocidades, permeados esporadicamente de alguma lucidez. Ao longo desse festival, duas falas me chamaram atenção.

A primeira foi uma pérola, mais ou menos assim: “Os pessoal (sic) ficam falando que o futebol precisa se profissionalizar. Nós ‘temo’ (sic) um gerente de futebol remunerado faz tempo. Já somos profissionalizados”.

Existe uma confusão óbvia criada propositalmente pelos políticos do futebol que é a de que “profissionalizar” é pagar salário para alguém. Isto não é profissionalizar, isto é remunerar.

Profissionalizar é substituir a gestão política por uma gestão técnica.

O futebol precisa alterar o padrão onde o que vale é atender um conselheiro, privilegiar um eleitor, dar força a um abnegado, por uma estrutura baseada em análises, métodos, e executada por especialistas, profissionais, orientados por drivers claros de controle de custo e maximização de resultados, dentro e fora de campo.

Os clubes brasileiros são entidades políticas administradas para dentro de si, e não para fora, para o torcedor. As decisões são tomadas pensando em agradar conselheiros, formar grupos de apoio, pensando na próxima eleição, quando deveria ser feitas fora, buscando decisões baseadas em aspectos técnicos, controle de gastos, baseada em ferramentas como orçamento, controles, pesquisas, análises. Pensando em longevidade, sustentabilidade.

O que difere um clube amador como são os nossos de clubes profissionais como na Europa não é o modelo de controle. Não importa se há um dono, se é uma associação, uma S/A de capital aberto com ações em bolsa. Assim como empresas familiares podem ser melhores que corporações de capital aberto, o que importante é ter governança, disciplina e atitudes que visem o crescimento do negócio. E o futebol é um negócio, gostem ou não dessa afirmação os defensores do modelo “raiz” de ser.

Para chegar nesse estágio o futebol brasileiro precisa querer mudar, precisa querer deixar de ser arcaico e amador e buscar um patamar de gestão que o possibilite de competir acima dos pares sul-americanos, e que seja capaz de reduzir a distância para a Europa, de forma que só perca atletas para os clubes multimilionários, e não para a segunda linha.

Mas enquanto os políticos do futebol não forem confrontados e questionados em suas atitudes, ouviremos comentários como o do início do texto, e outras pérolas. No mesmo evento da BDO os políticos zombaram de empresas que eram grandes nas décadas de 80 e 90 e que hoje não existem mais. E ainda reforçaram: “Cheias de governança e profissionalismo!”. Quanta rebeldia! Ignoraram o fato de que tais empresas deixaram de existir porque foram suplantadas por outras com governança, profissionalismo e inovadoras, e deixaram de existir apesar de terem alguma governança e profissionalismo, e não por tê-los.

Inovação, profissionalismo, gestão. Se ainda somos um celeiro de craques em campo, fora dele não passamos de uma lavoura arcaica e rudimentar.

8 comentários em: “Profissionalismo Amador dos Políticos do Futebol

  1. Uma vergonha! O dirigente deveria responder com o próprio patrimônio aos descalabros cometidos durante a vigência de sua “administração”.

  2. Nossa, Cesar Grafietti, que tristeza o que você mostra no texto! Ver dirigentes zombando de empresas que faliram é patético! Fora que algumas grandes empresas (não sei de quais eles falavam) faliram justamente por perderem o bonde da história e ficarem presas ao que faziam, sendo atropeladas por empresas que passaram oferecer isso e muito mais (como a Kodac, que ficou totalmente para trás com os smartphones).

    Parecem não perceber que nossos clubes, tão gloriosos, estão virando dezenas de Nokias (que já teve 40% do mercado) frente às Apples e Samsungs de outros continentes…

    Aqui esses dirigentes só querem mesmo é saber de superar o rival. Afinal, é o suficiente para poderem dar declarações engraçadinhas à imprensa e fazerem o nome no quadro de associados para as próximas eleições…

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