Sobre a iminente saída de Messi do Barcelona

Créditos da imagem: Reuters

“Feio” é se meter na vida alheia – Messi merece seguir seu rumo

Dizem que o Brasil tem duzentos milhões de técnicos. Também temos duzentos milhões de médicos. E duzentos milhões de magistrados. Há ignorantes que, com sabedoria, deixam a análise do desconhecido a não-ignorantes. E há ignorantes que, por arrogância peculiar, atribuem-se uma espécie de sabedoria para opinar sobre tudo. O Brasil consagra este segundo. Inclusive, ao fazer pesquisas de opinião sobre assuntos científicos e jurídicos. Fora a exaltação ao tipo que “fala tudo o que pensa” – normalmente, aquele que nunca pensa no que fala.

Neste contexto, não poderiam faltar opiniões a respeito de um tema que sequer diz respeito ao país. No caso, a iminente saída de Lionel Messi do Barcelona. Aí surge outra característica do julgador leigo nacional: quando não tem algo substancial a dizer contra, mas quer ser contra mesmo assim, vale-se do “é feio” – seja lá o que isso signifique. Foi o que o UOL perguntou a seus trocentos blogueiros. Esta coluna tentará oferecer algo menos achista aos leitores. Inclusive porque o colunista já previa este desfecho em textos anteriores. Não com base em ser feio ou bonito, mas em fatos e aspectos subjetivos. Porém, aspectos subjetivos que possam ser entendidos de maneira próxima de uniforme. Isso procurando evitar que a situação de fã do jogador influa em algum argumento. Não é fácil, mas possível.

Profissional e juridicamente, a questão se resume a interpretar a cláusula que lhe permite a rescisão unilateral, em curto período. Vale destacar que a diretoria mentira sobre sua abrangência. Ano passado, disseram que valeria apenas em caso transferência para clubes de outros continentes. A rigor, esta cláusula gera um equilíbrio contratual, uma vez que o valor da multa é impagável – ainda mais sob as exigências do fair play financeiro. Para compensar, em consideração a seus préstimos e confiando nas ínfimas chances de se valer da cláusula, previu-se seu exercício num prazo de dez dias, após cada temporada. Haja confiança. Principalmente quando o clube faz de tudo para deixar o atleta desconfiado. Nesta temporada, nem João Kleber pensaria em tamanho teste de fidelidade. Não com um participante real.

A data prevista para se valer de tal cláusula já passou. Contudo, existe um instituto jurídico chamado “teoria da imprevisão”. Permite reinterpretar cláusulas quando fato totalmente inesperado as torna impraticáveis, caso levadas ao pé da letra. O lapso era estabelecido com base no último dia da temporada europeia. Ocorre que, com a pandemia, a temporada apenas se encerrou no último domingo. Em 10 de junho, as janelas de transferências estavam excepcionalmente fechadas e os campeonatos paralisados. Não haveria como se transferir. Logo, deve prevalecer a interpretação teleológica (com base na finalidade) sobre a literal, sendo esta a semana propícia à opção contratual. As chances de sucesso na Justiça espanhola são consideráveis. A questão é quando tal decisão sairia – e se realmente sairia.

Para evitar os riscos de uma sentença, é mais interessante a negociação. Especialistas comentam que, ao comunicar o clube do exercício da cláusula, a intenção de Messi é obter este acordo. A reação popular (contrária ao presidente) reforça esta probabilidade pacífica. Bartomeu sequer tem como usar a imprensa amiga contra o empregado de luxo. Primeiro, porque hoje nem o maior chapa-branca está a seu favor – algo similar a Leco no SPFC. Segundo, porque o escândalo Barçagate, com suspeitas de um esquema passador de pano em redes sociais, intimida a prática. Falou-se até em forçar a renúncia de Bartomeu, caso isso fizesse o jogador mudar de ideia. Como parece tarde demais, uma proposta pouco acima de cem milhões de euros deve encerrar a celeuma. Melancolicamente.

Outro aspecto diz respeito a um fator moral: a gratidão. Como tantas vezes ressaltado, o Barcelona abrigou o garoto Messi e custeou seu tratamento para crescer – algo que teria sido recusado na Argentina. Dificilmente a pulga (que ficou mais alto que o ídolo Maradona) teria sido metade do que foi – e ainda é – sem tal suporte. Por outro lado, como negar que a retribuição foi mais que plena? Dando sequência ao efeito Ronaldinho, Messi ajudou a solidificar o Barcelona como um clube gigante. Internacionalmente, os catalães enfim se equipararam ao Real Madrid. Em termos de simpatizantes mundiais, o Barça se tornou o mais procurado. Léo deve ser eternamente grato ao Barcelona? Sim. E eternamente grato NO Barcelona? Não necessariamente. Gratidão, ao contrário do que disse o técnico e frasista Émerson Leão, não é dívida. Não pode ser cobrada.

Não foi por falta de aviso. Usualmente calado, o atleta já vinha questionando a montagem dos times. A saída de Neymar foi apenas um dos pontos vulneráveis. Sem criação, o ataque nunca foi tão dependente das jogadas geniais do argentino. A defesa, uma avenida pelos lados e lenta no miolo, promoveu bombardeios ao ótimo Ter Stegen. Os substitutos de quem saiu foram, no máximo, razoáveis. Os reservas de quem segue não fazem sombra a uma formiga. No meio-campo, até jogadores de qualidade pouco conseguem combinar entre si – o que também requer um treinador de maior nível. Isso num futebol em que, como visto nesta UCL, diminuiu a chance de individualidades prevalecerem sobre a excelência coletiva. O supercraque amplia a força de uma equipe, mas não suplanta a necessidade de ter uma equipe forte.

Concluindo, não vejo como os fãs de Messi – inclusos os torcedores do Barcelona que o apoiam em massa – devam se penitenciar por defendê-lo. Em todos os aspectos, não há como censurá-lo. Se Messi mudar de ideia, será mais um gesto benevolente de quem já teve paciência demais. Com diretoria e também com fofocas de bastidores, que invariavelmente tentam colocá-lo como um líder negativo no vestiário. Covardia típica de incompetentes. Léo não deve nada a eles, nem a qualquer um. Na verdade, deve a si mesmo a chance de mais uma orelhuda. Sem ter que levar o resto nas costas.

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