Tempo perdido – da conversa fiada à irrelevância atual do Mundial de Clubes

Créditos da imagem: Gerard Julien / Getty Images

Não sou o saudoso repórter Esso, mas fui testemunha ocular da História. Aconteceu há vinte e cinco anos, numa Mesa Redonda na TV Gazeta-SP. Eduardo José Farah, então presidente da FPF, não queria o adiamento da final do Campeonato Paulista de 1992. Ameaçava o São Paulo, campeão da Libertadores, de tomar um WO se fosse ao Japão. Afirmou, pois sim, que a então Copa Toyota não era um torneio oficial. Foi massacrado pelos presentes e recuou com rabo entre as pernas. Mas, naquela noite, plantou a semente de uma discórdia que os rivais mantinham no armário e que, mais adiante, floresceria em argumentos superficialmente irresistíveis, como dizer que o mundo não era apenas Europa e América do Sul. Ou que, sabe-se lá por qual motivo, não poderia existir Mundial de um jogo só. Ou, melhor (?) ainda, que o confronto “só era Mundial pros sul-americanos”. Nada disso, contudo, sobrevive a uma observação um pouco mais informada e despida de clubismo.

Nos tempos da Copa Intercontinental, do início dos anos 60 até 2004, só uma pessoa extremamente desavisada negaria que os clubes europeus e sul-americanos eram muito melhores que os outros. Principalmente se levarmos em conta o período anterior à União Europeia e a expansão do mercado de atletas. Grandes jogadores atuavam por mais tempo no Brasil, na Argentina e no Uruguai. Além da qualidade individual, o longo tempo de clube ajudava na parte coletiva, permitindo a montagem de esquadrões como o Flamengo de 1981 e o SPFC de 1992-1993. Não apenas Europa e América do Sul tinham futebol fortemente superior, como o equilíbrio de forças gerava épicas disputas, sem um time dominando e outro atuando “por uma bola”. Inclusive, ao contrário de hoje, a vantagem era dos sul-americanos. Teria sido supérfluo e inútil, portanto, equipes de outros países disputando o topo. Países que, até hoje, não disputaram uma final de Copa do Mundo sequer.

Melhor sorte não merece a acusação ao jogo único – ou ida e volta, antes da compra do evento pela Toyota. Os participantes não eram sorteados numa embalagem de sucrilhos. O direito de estar nele vinha de uma série de partidas que compunham a Copa Libertadores da América e a Copa dos Campeões da UEFA (depois rebatizada para Liga dos Campeões). Competições que eram bem mais seletas quanto aos participantes. Para estar na Libertadores, só sendo campeão ou vice-campeão nacional. Já a Copa dos Campeões fazia jus ao nome – apenas os primeiros colocados entravam. Era raro um mesmo time estar nestes torneios por dois anos seguidos. Estes fatores só aumentavam o mérito de quem chegava a Tóquio. Seria desonestidade intelectual, das mais sinistras, que esta seletividade servisse como licença para afirmar que o encontro de tais vencedores não era, verdadeiramente, o duelo final dos dois melhores da temporada. Não era apenas um jogo. Era O jogo.

“Ah, mas só seria O jogo pros sul-americanos, porque pros europeus aquilo era apenas um amistoso de luxo!”. Se fosse isso mesmo, não atravessariam o planeta com os melhores plantéis disponíveis. Sabem por que Romário não enfrentou o São Paulo em 1992? Porque, Pedro Bó, Romário só foi para o Barcelona no ano seguinte. Mas, em 1988, ele estava representando o PSV contra o Nacional-URU. O Barcelona foi para Tóquio com a mesma formação que passava por cima dos adversários. Entre eles, o líbero Koeman e o atacante Stoichkov (artilheiro da Copa de 1994), além da revelação Guardiola no meio-campo. Antes desta fase japonesa, o Santos triturou o Benfica com Eusébio (goleador de 1966). A diferença não era achar que estavam num Mundial ou não. O foco da temporada é que sempre será o título europeu. Torcedores de Real Madrid, Barcelona, Milan & CIA não sonham que seu time seja “o melhor do mundo”. A não ser que estejam falando do Velho Mundo.

Questão – bem – mais interessante é debater se este cenário de tira-teima entre dois grandes centros do futebol persiste. A resposta é claramente negativa. Com o êxodo acelerado de atletas sul-americanos para clubes europeus, bem como o abismo econômico entre os centros, hoje só a fantasia fanática pode conceber um confronto em condições iguais. Mais que isso: as derrotas de Internacional, Atlético-MG e do festejado Atlético Nacional, ainda nas semifinais, mostram que o futebol sul-americano não tem classificação garantida para a decisão. Isto não significa que estes outros países chegaram ao nível da América do Sul. Porém, a vantagem técnica não é gritante a ponto de afastar a chance de zebra. Os leitores podem subir nas tamancas, mas fatalmente aceitarão ser menos improvável nosso representante continental não decidir o Mundial, que vencer a competição. Algo que os gaúchos sentirão na carne -não a do churrasco- neste ano.

Tal superioridade europeia, com nove vitórias nas dez últimas edições do Mundial (já sob a bandeira FIFA) faz pensar se, afinal, há sentido em manter a existência não apenas desta fórmula, como de qualquer outra inventada por algum gênio do marketing. Controlem as lágrimas de fúria, mas qualquer Mundial de clubes virou supérfluo e inútil. Assim como o campeão mundial de basquete é quem vence a NBA, o de futebol só pode ser o ganhador da Liga dos Campeões. É por isso que não existe apelo econômico num torneio com ganhador antecipado. Mesmo a ideia de chamar dois times por continente é redundante. A decisão teria tudo para ser entre os europeus, numa revanche deslocada da final de seu torneio continental. A não ser que inchem tanto o campeonato que a Europa realmente passe a dar de ombros, mandando equipes reservas enquanto as titulares descansam ou jogam seus campeonatos usuais. Por quanto tempo o torcedor dos outros continentes seria bobo de comemorar?

Conclusão: seja a Copa Toyota, seja o Mundial de 2000, seja o de 2005 em diante, as conquistas brasileiras ficarão cada vez mais relegadas às conversas sobre o passado. Um tempo em que a “arrogância europeia” era vencida pelo exuberante futebol canarinho, ou pela raça Made in Brazil, ou o que vier à cabeça de cronistas e papeadores. Um tempo que merece se tornar lendário. Mas, como toda lenda, um tempo que não voltará. A ponto de tornar a discussão cada vez mais uma perda de… tempo.

4 comentários em: “Tempo perdido – da conversa fiada à irrelevância atual do Mundial de Clubes

  1. Você definiu perfeitamente, Gustavo Fernandes! Eu costumo dizer que para os europeus o Mundial se tornou aquela coisa que tem muito mais importância quando é perdida, do que quando é ganha.

    O que eu fico curioso é se isso poderá mudar a longo prazo por causa dos investimentos chineses. Já pensaram, a gente sendo zebra até para chegar na final? 😀

  2. Um resumo fiel e perfeito que retrata a situação atual do referido torneio. O Grêmio até pode queimar minha língua, mas a chance de um time brasileiro vencer um top da Europa, em condições normais, é quase que zero. O time europeu tem que estar num dia muito ruim em que quase tudo dê errado nos noventa minutos. Será tão vantajoso, digo tecnicamente, brigar tanto para se ganhar uma Libertadores e correr o risco de dar um grande vexame nesse torneio da FIFA? O Santos que o diga, pois o Barcelona tirou o pé do acelerador depois do quatro gol.

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