Carta aberta a Raí

Créditos da imagem: Rubens Chiri / saopaulofc.net

Caríssimo Raí,

Como são-paulino, devo dizer que estou surpreso e apreensivo, mas com leve esperança em relação a sua escolha como diretor profissional de futebol do SPFC. Explico:

1 – fico surpreso porque, desde 2002, você não tem função gestora no São Paulo. Naquele ano, aceitou ser diretor (ou algo parecido) das categorias de base. Logo se desligou cordialmente, porém discordando de condutas que constatou. Em especial, o trabalho de Cilinho na coordenação. Os fatos posteriores sugerem que esta incompatibilidade se referia a suspeitas de que o ex-treinador, outrora tão festejado, realizasse conchavos com empresários de atletas. Reforça tal impressão o fato de que Cilinho nunca mais foi cotado para nada no clube. Detalhe: Leco fazia parte da diretoria que, ante a discórdia, preferiu manter seu antagonista.

2 – também me surpreende você aceitar o cargo de Vinícius Pinotti, que desbancou seu sobrinho Gustavo Vieira. Não que eu tenha admirado o trabalho deste último. Pelo contrário. Na primeira passagem, agia mais como um subgerente. Com Leco, recomeçou mal ao ajustar cláusula de bônus em vendas lucrativas de atletas, parecendo mais um corretor de bens humanos que um gestor. O salário vultoso também era desproporcional aos serviços demonstrados. Neste contexto, não foi de admirar a demissão. Porém, vê-lo ser preterido por uma pessoa sem qualquer conhecimento de futebol, simplesmente por colocar dinheiro no clube, seria razão mais que suficiente para que você recusasse o convite – ainda que por solidariedade familiar.

3 – estou apreensivo porque sua nomeação não foi planejada. Em nenhum momento o presidente dava sinais de que poderia trocar o diretor de futebol. Foi este que se demitiu, por motivos ainda não esclarecidos. Não é possível que você não perceba que, tal como Rogério Ceni há um ano, está sendo chamado para trazer paz política e agradar à torcida. Não tem nada a ver com seu currículo, mesmo porque você não possui retrospecto neste tipo de função. Além disso, os episódios posteriores à polêmica demissão de Rogério deixaram claro que, mais adiante, Leco não terá constrangimento de culpá-lo, exclusivamente, por eventual insucesso. Quem já queimou um grande ídolo vai queimar outro, numa “boa” – e com ressonância da tropa chapa-branca.

4 – outra causa de apreensão é que, embora esteja se preparando há tempos, sua inexperiência não é recomendável num departamento com tantos problemas. Praticamente tudo está desajustado. Nem se sabe o quanto pode ser gasto, a ponto de uma contratação de impacto ser usualmente seguida de saídas ainda mais impactantes. Os critérios de escolha de atletas podem ser considerados inexistentes – mesmo com a existência oficial de um departamento de análise. Predomina o “filho feio não tem pai”, com um jogando a responsabilidade no outro quando algo dá errado. Aliás, o “algo dá errado” é força de expressão, porque hoje chega a ser lógico presumir que, até prova em contrário, toda decisão da diretoria é falha. Incluindo a sua vinda.

5 – a leve esperança está no fato de que você, embora sem retrospecto, aparenta ter parte dos requisitos pertinentes. Em campo, sua liderança era conciliadora e sem traços personalistas. Talvez seja a atual necessidade do futebol tricolor: alguém que una inteligências. Sua carreira como jogador revela, além do talento, uma sequência de decisões corretas. Acertou ao não ir para o Albacete (com o conselho de Telê) e ser campeão mundial pelo São Paulo. Acertou ao ir para o PSG. Acertou ao ter paciência na difícil adaptação, até se tornar capitão e ídolo (repetindo sua trajetória tricolor). Acertou ao voltar para o SPFC e quanto à hora de parar. Nunca trocou os pés pelas mãos. Se passar isso para o novo trabalho, todos têm a ganhar.

Combinando-se as sensações acima, saltam aos olhos as dificuldades do desafio. O São Paulo desaprendeu a ser grande. É um triste processo que se acentuou com este grupo político, por incompetência e questionável idoneidade. Tivemos o desgosto de ver um ídolo como Rogério Ceni comprometer a biografia endossando um golpe. Espero que você siga leal a princípios, como quando se desculpou pelo infame amistoso dos campeões de 1994, na Chechênia. Tenho dúvidas da sua capacidade gestora, mas nenhuma de sua vergonha na cara. Que você rebata a incerteza e confirme minha convicção. Boa sorte!

Saudações tricolores.

PS aos leitores: algumas matérias estão divulgando informações de bastidores, segundo as quais a demissão de Pinotti estaria prevista e ele se demitiu ao ficar sabendo. Não comprem esta. É uma variação da mesma história dita após Leão sair em 2005, no meio da Libertadores e logo depois do título paulista. Não precisa ser nenhum gênio pra saber que o clube deixa “vazar” certas histórias pra não ficar mal na fita.

4 comentários em: “Carta aberta a Raí

  1. Concordo totalmente, Gustavo Fernandes. Contratado como “escudo” ou não, ele parece ter um temperamento que talvez seja muito útil para o atual momento do São Paulo. Só não sei – e isso é uma dúvida genuína – se ele tem competência suficiente para tanto. De qualquer forma, penso ser uma boa aposta.

  2. So palmeirense mais olha e uma boa viu penso assim pois o meio do futebol brasileiro ta tao podres que precisamos renova tudo Rai e um grande homem uma pessoa de caracter e um idolo parabens sao paulo e tomara que de certo inteligencia ele tem de sobra

    1. Eu também tô nessa, sempre quero renovação!!!!!!!! Ruim a coisa já tá, aposto que um Raí vai melhorar, ele parece competente!!!! Fora que é quase impossível piorar, kkkkkk

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