Marta é grande. Mas não é – nem deve ser – suprema

Créditos da imagem: Reuters

Duas coisas que você deve saber antes de ler esta coluna:

1 – seu autor acompanha a seleção brasileira de futebol feminino desde 1995, quando a principal jogadora brasileira era Roseli e Formiga estava começando.

2 – desta vez opto por não passar o tema para minha persona Danilo Mironga. Tornou-se preciso assumir diretamente a crítica, para dar exemplo aos demais. Não deixe que nenhuma patrulha cerceie sua liberdade de expressão.

O Brasil foi eliminado do torneio olímpico de futebol feminino e, antes mesmo das penalidades, o telespectador se viu assolado por desinformações do locutor Galvão Bueno e da comentarista Ana Thaís Mattos. Ambos (ambes?) acusaram a treinadora Pia Sundhage de “podar a melhor jogadora do mundo” ao deixar Marta numa função relativamente longe do gol. Também, desde a primeira partida, protestaram contra a não-convocação de Cristiane, que atuava como comentarista convidada. Esta coluna chama para si a tarefa de esclarecer o desavisado a respeito destas e de outras inconsistências. Sem gritaria ou choradeira.

1 – a primeira inverdade é sobre Marta ser a melhor jogadora do mundo. Isto não corresponde à realidade há muitos anos. Inclusive, sua última eleição como The Best foi fruto de uma temporada na qual, sem torneios internacionais relevantes, grande parte dos votantes a escolheu de memória. Ela não fez absolutamente nada, naquele ano, que a credenciasse ao prêmio. Hoje em dia, nem mesmo pode ser considerada a melhor brasileira em atividade. Tal posto cabe à atacante Debinha, que desde 2011 vem sendo preparada como sucessora da camisa 10 – que está com 35 anos.

2 – o desempenho de Marta no Japão foi bem mais produtivo que nas últimas edições olímpicas e Copas do Mundo. Especialmente a partir de 2015, quando claramente suas condições físicas caíram. A jogadora, a despeito de seus recursos técnicos, perdeu grande parte da potência que lhe permitia arrancadas fulminantes. Seus deslocamentos ficaram mais lentos e os reflexos tampouco foram poupados pelo tempo. Ainda assim, Pia encontrou uma função específica que, reduzindo seu território de jogo, permitiu que desse sequências às jogadas em seu setor, mandando passes amaciados para as atacantes jovens e velozes.

3 – além do natural efeito dos anos, Marta não está mais no cenário em que levava enorme vantagem. Na última única década, o futebol feminino teve notória evolução técnica e tática. Antes, mesmo na forte liga americana, Marta era capaz de trocar o campeão pelo último colocado da edição anterior e ser campeã do mesmo jeito. Agora isso não ocorreria, nem se ela caísse na fonte da juventude e voltasse ao apogeu futebolístico. A brasileira foi a rainha de um jogo incipiente e superado. Luciano do Valle, entusiasta de primeiríssima hora, já alertava que muita coisa tinha que ser corrigida e só Marta não resolveria nada. Morreu sem ser ouvido.

4 – apenas depois de 2019, quando mais uma Copa escancarou a distância para outras seleções, a CBF largou apostas e ex-treinadores de homens. Investiu em Pia e a melhora já pode ser considerada gritante. O Brasil fez uma partida equilibrada contra a vice-campeã mundial Holanda, num 3 a 3 em que teve mais oportunidades que as adversárias. Mesmo contra o Canadá criou chances melhores. Jogando como jogou, tinha perspectivas reais de medalha e isso já foi incrível, pois o padrão deste torneio foi tremendamente maior que o de 2016. Por isso esta eliminação invicta é mais animadora que o medíocre futebol do quarto lugar no RJ.

5 – se até Guardiola comete erros, não seria diferente com qualquer outro. Mas, entre possíveis equívocos de Pia, não estão nem o posicionamento de Marta, muito menos a ausência de Cristiane. Embora ainda tenha presença de área, a falta de mobilidade desta era aproveitada por outras seleções para encaixotar o Brasil. É mais pertinente questionar por que Formiga foi titular, ante sua dificuldade de distribuir o jogo. Ou, então, se não haveria goleira melhor que Bárbara – mas sem decretar que havia, como deu a entender a taxatividade de Ana Thaís . No fim, acertos foram mais detonados que eventuais falhas. Neste ponto o futebol feminino já pode se considerar igual ao dos homens.

6 – outro aspecto a tratar está na questão das atletas brasileiras em geral, na História dos esportes femininos. Coloca-se Marta como intocável, ao contrário de mulheres vencedoras e talentosíssimas do passado. Hortência foi genial num esporte cujo patamar estava muito acima do futebol nos dias gloriosos de Marta. Tanto que, desde sua estreia, o Brasil penou por décadas até vencer um mundial e ganhar duas medalhas olímpicas. Nem por isso ela e sua amiga/rival Paula foram imunes a contestações – dentro ou e fora das quadras. Até por este motivo, superaram-se diversas vezes. Mais: até por isso inspiraram e inspiram inúmeras pessoas – independentemente de gênero ou falta deste.

7 – voltando à tese de Galvão e Ana Thaís, alguém pode dizer “mas o Messi e o Cristiano Ronaldo não atuam soltos?”. Aí que está: relativamente falando, Marta não é a pulga, nem o gajo. Longe disso. Os dois veteranos ainda entregam muito, mesmo em times abaixo dos esquadrões de suas maiores conquistas. Em 13 jogos do Orlando Pride na temporada, Marta atuou por mais de 1000 minutos e marcou 1 gol. Em 2019, antes da Pandemia, foram 6 gols em 14 jogos, com 1255 minutos. Razoável, e só. Faz tempo que o nome de Marta supera, de goleada, o futebol de Marta. Pia não acompanha futebol por vídeos do Youtube. Sabe, sem os males do ufanismo, o que tem em mãos.

Em 20 anos, se a evolução do futebol feminino continuar se acentuando, Marta será lembrada mundialmente como os craques dos primórdios do futebol masculino – 1950 para trás. Com uma desvantagem: no caso dos homens, a fantasia substitui a memória visual. Como os jogos de Marta estão documentados na íntegra, o espectador de 2041 perceberá que foram lances fantásticos para a época, mas apenas para a época. É o efeito desagradável de ser pioneiro ou pioneira. Se as coisas derem certo nas mãos de quem vier depois, certamente serão superados. Por outro lado, se não forem, é porque o esforço nem mesmo valeu a pena. Principalmente se a desinformação trouxer atrasos maiores que os avanços.

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