Por falar em “Dia do Repórter” e o Jornalismo de hoje

Créditos da imagem: Blog Violão, Sardinha e Pão

Por conta dessa dica, não zika, do “Dia do Repórter”, andei lembrando de algumas das passagens que vivi ou presenciei nesses 50 anos de estrada que, espero, estão longe de chegar ao fim.

Numa manhã, pelas 9, eu, Hedyl e Michel, tomávamos nosso café no velho e tradicional Hotel Morales – hoje em ruínas -, frequentado, vejam só, entre outros, por Agustín Lara, María Félix e Pedro Vargas – quem nunca ouviu falar deles que vá procurar -, no centro velho de Guadalajara, quando surgiu e se apresentou, Mike Langley, editor de esportes do The People, importante jornal inglês.

Tinha uma proposta a nos fazer – depois de recusar a xícara de café e virar um bom trago do puro malte que trazia na garrafinha no bolso traseiro da calça: “Consigam para mim uma entrevista com Zagallo e abro as portas da concentração inglesa para o que quiserem”.

Marcamos encontro no portão de entrada da Suites Caribe, concentração do time brasileiro, às 13 horas, quando começava a janela para entrevistas. Demoramos, mas convencemos Zagallo a atender nosso novo amigo, ouvindo do velho Lobo, sem surpresa, que ia dar o maior nó no gringo. Papo rolando, Hedyl como intérprete, Zagallo caprichou nas mentiras. Só faltou dizer que Pelé seria o goleiro. Papo encerrado, olhei para o Hedyl e bastou o olhar para nos entendermos. Chamamos Mike num canto e contamos toda a verdade, que ele, especialista em futebol brasileiro, já de longe desconfiava. Passamos o que ele queria saber, até porque, já naquele tempo futebol não tinha segredos. Todo mundo sabe o que o outro vai fazer – com raríssimas exceções – embora nem sempre consiga evitar.

Encontrei-me com o gringo várias vezes por aí – na Tunísia, em 73, em Montreal-76, Argentina-78, Moscou-80, Espanha-82, Los Angeles-84, e sempre recordamos das mentiras do Zagallo, dando boas risadas e tomando bons tragos – ele da garrafinha e eu nas cervejinhas.

Na excursão da Seleção, em 73, vi Oldemário Touguinhó colocar-se à disposição de um colega do Jornal da Tarde, e ouvir dele um sonoro não. O colega disse a ele que queria fazer tudo sozinho, porque seu chefe, Alberto Helena Jr., o havia dito que poderia ganhar o Prêmio Esso com a cobertura que faria pela Europa. Bobão, não deve ter ganho nem um pequeno elogio da chefia.

Oldemário, excelente repórter, era editor do Jornal do Brasil, e trabalhava para o JT, como correspondente no Rio, usando o pseudônimo de Alphonsos Simone. Era muito bem informado e tinha sempre uma notícia quente para o vespertino paulista. Foi dele, por exemplo, a informação de que Pelé se casaria no Carnaval – primeira manchete do JT.

Nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, pedi a uma repórter para cobrir o dia seguinte de Joaquim Cruz, ganhador da medalha de ouro nos 800 metros. Não havia coletiva marcada. Joaquim Cruz apareceria naturalmente para relaxar os músculos na pista do campus da UCLA. A repórter voltou sem entrevista, informando que Joaquim Cruz não havia aparecido. Deu azar. O campeão apareceu, falou com todos que o esperavam e ela também apareceu, mas foi nas imagens gravadas pelas outras emissoras. Estava comprando lembrancinhas nas barracas não longe do local.

Fui enviado a Houston, Texas, para entrevistar Tostão, que se negava a falar. Não falava com ninguém. Cheguei à porta do quarto em que estava, no Hospital Metodista, e lá fiquei bem uns 10 minutos ouvindo “não pode entrar”. Quando consegui, graças à interferência da mulher dele, que lembrou da nossa amizade, Tostão permitiu que o presidente do Vasco, Agartino Gomes, também subisse. O diálogo entre eles foi curto, duro, cheio de acusações e ameaças. Conversamos depois que o presidente saiu. E não escrevi uma só palavra do que ouvi da discussão. Tostão, um ídolo, merecia.

21 comentários em: “Por falar em “Dia do Repórter” e o Jornalismo de hoje

    1. Esse é op exato detalhe, Alexandre. Não tem as estrels de antigamente e as poucas que poderiam tentr ser, fogem, agridem por medo, insegurança e má assessoria, penso. abss

  1. Zé, os minutos foram poucos, mas valeu a pena bater um papo gostoso – não digo isso só pelas antigas histórias e pelo cordeiro a ‘lá Cassol’, mas também pela inteligência e altivez que possui. Abraços

    1. Obrigado, Boldo. Tenho perfeita noção de que é muito menos, mas a gente se esforça. Foi assim, será assim. Grande abraço

  2. Grande José Aquino! Lendo esses causos eu fico pensando em, caso houvesse uma máquina do tempo, como seria decepcionante para um repórter esportivo de antigamente desembarcar nos dias de hoje. Sempre limitado à distância, tratando com assessores, usando as janelas concedidas em coletivas, etc… fora questão como a reprodução das informações, que passou a ser muito mais rápida com a mídia digital, então é só alguém dar um furo que, logo, todos os veículos reproduzem quase que instantaneamente.

    Enfim, muitas diferenças… mas como na história do repórter que dispensou ajuda porque queria o prêmio Esso, e a sua postura em relação à discussão do Tostão com o presidente do Vasco, grandeza e retidão são requisitos atemporais! 😉

  3. Aprendi logo, Gabriel, que dez furos não apagam uma barrigada. Parece que essa verdade não vale mais, tal a quantidade de chutes e mentiras que se lê e ouve atualmente. Culpa de quem comanda e permite. Convivi muito com isso – comandando de dia e sendo comandado à noite. Tem histórias. Mas acho que ainda dá para trabalhar como antigamente. No caso do esporte, não se contentando e ver os treinos e só falar com o “craque” que o assessor apresenta, escolhe. Nos tempos do JT e da revista, trbalhava-se 8 hors direto e as outras apurando. Colhendo…abss

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