A autocrítica do Futebol Italiano

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Uma das cinco maiores ligas de futebol do mundo, e que vem apresentando evoluções significativas na qualidade do espetáculo apresentado, a Seria A italiana está em crise de identidade. E debate isso de maneira aberta.

Se por um lado a competição local apresenta hoje pelo menos seis equipes disputando as quatro vagas para a Champions League – Inter, Milan, Juventus, Atalanta, Roma, Napoli e Lazio – e outras tantas com qualidade de jogo bastante interessante, como Sassuolo e Hellas Verona, por outro as últimas participações em competições continentais, especialmente a Champions League, tem deixado a desejar. A Juventus tem sido eliminada por equipes de muito menor capacidade financeira, a Inter chegou ao ponto de não passar da fase de grupos por duas vezes seguidas. Chegar à final da Europa League da temporada passada foi uma exceção e não uma regra nos últimos anos.

A discussão mais profunda que se tem no país é sobre a diferença de estilo de jogo e porque os clubes italianos têm enorme dificuldade quando saem de suas fronteiras. É a diferença entre o “futebol italiano” e o “futebol europeu” que está em debate.

O “calcio” sempre foi tratado como sendo um estilo tático, de forte preocupação defensiva e estrutura construída à base dos contra-ataques. E é verdade. A posse de bola, quebrar a velocidade dos adversários, usar a qualidade técnica dos atacantes – a dita “fantasia” – era a base e funcionou bem até meados dos anos 2000.

Mas a Europa passou por uma revolução. Entrou em campo a velocidade, a movimentação, e enquanto as demais ligas buscavam referências fora de suas terras, com treinadores de outros países e filosofias de jogo, a Itália manteve intacta sua tradição, aliás, como é para quase tudo no país. O “fatto in Italia” está acima de tudo.

Desde o final da temporada 2018/19, com a queda da Juventus para o Ajax na Champions League, uma parte da imprensa italiana vem questionando os treinadores e diretores esportivos sobre o tema. Nesta semana o jornal La Gazzetta dello Sport publicou uma série de matérias e análises a respeito do tema, conversando com treinadores e profissionais que atuam ou atuaram em outros países, e comparando métodos e ideias.

Farei um resumo do que foi publicado:

  • O futebol italiano ainda é muito tático, muito preso à rigidez do desenho tático em campo. E isso começa nas categorias de base, pois os treinadores precisam de resultados para conseguirem evoluir na carreira. Ou seja, um erro na origem, pois no lugar de desenvolverem aspectos técnicos eles se preocupam com a visão puramente tática na formação.
  • Outro aspecto interessante é como essa rigidez interfere nos treinamentos. Segundo treinadores e preparadores, enquanto na Itália os treinamentos são interrompidos constantemente para correções táticas, no resto da Europa são mais soltos, e isso dá uma maior dinâmica ao treinamento. O objetivo é reproduzir no treinamento a realidade de uma partida, enquanto na Itália se reproduz a explanação de uma lousa.
  • Aliás, uma das conclusões das matérias: os atletas na Itália ouvem muito e correm pouco.
  • Correr. Esta é a grande diferença vista pelos profissionais. Enquanto na Europa os treinamentos levam ao desenvolvimento da velocidade e da movimentação, na Itália há enorme presença de academia nos treinamentos. Isso dá mais rigidez física. Mais tempo de academia que de campo é um erro. E se o treinamento de campo for intenso, na partida será essa mesma intensidade aplicada.
  • Inclusive porque os treinamentos na Itália permanecem fortemente concentrados em meio-campo, quando na Europa se usa o conceito do jogo-treino, de 11 contra 11 em campo, replicando a ideia das partidas.
  • Outro aspecto levantado é de que enquanto na Europa os treinamentos se dão em todas as partes do campo – defesa, meio e ataque – na Itália o objetivo continua sendo reforçar o posicionamento defensivo, depois a transição e o ataque continua na base da “fantasia”. Não é à toa que CR7 na Juventus precisa se virar mais sozinho que no Real Madrid, onde já recebia bolas bem mais trabalhadas e pensadas para ele.
  • Por fim, há uma questão de idade. Na Itália a idade média é mais alta que no resto da Europa. Mais jovens, mais rápidos, maior movimentação.

No final, a conclusão é de que os modelos de treinamento e ideias no futebol italiano estão ultrapassados em relação ao que a Europa faz. E quando um clube italiano enfrenta essas escolas, de alta intensidade, velocidade, de muito “um-contra-um”, sofre. Que é justamente o que a grande maioria sente quando enfrenta a Atalanta no campeonato local. Mesmo sendo um time mais barato, a visão de jogo proposta por Gasperini transforma a Dea no “mais europeu dos clubes italianos”, e tem dado resultados, colocando outros clubes em enormes dificuldades.

Um efeito colateral disso é o fato de que no passado os treinadores italianos estavam espalhados pelas principais ligas e clubes do mundo, e hoje apenas Carlo Ancelotti atua numa liga grande. Mas ele também tem passagens em outras ligas e isso certamente ajudou na construção de modelos mais flexíveis de jogo. O futebol tem optado atualmente por treinadores alemães e portugueses.

Mas o que fica de mais interessante é a capacidade de trazer o tema ao debate. Porque fica latente que há uma defasagem em relação aos demais países. E por incrível que pareça, a defasagem está muito mais nos clubes que na seleção, pois a equipe de Mancini é jovem, atua em sistema mais “europeu” e vem conseguindo uma série de bons resultados, jogando um futebol agradável.

Autocrítica é fundamental. Em qualquer atividade da vida. E quando observada num ambiente tão tradicional e fechado nos mostra quão importante é.

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