Acima de qualquer dúvida razoável – o “VAR à brasileira”

Créditos da imagem: Levi Bianco/Brazil Photo Press/Folhapress

A polêmica da decisão do Campeonato Paulista está ardendo. Reclamações, suspeitas, chacotas, etc… Não é, contudo, uma novidade. A rigor, muito antes que a FIFA pensasse em usar o vídeo, já tivemos casos com fortes indícios de influência externa. Pessoalmente, consigo lembrar até uma ocorrência de mais de vinte anos, em que um chute para fora foi marcado como gol (furou a rede) e, para espanto do técnico, foi anulado minutos depois. O que têm em comum todos esses lances (em especial nos últimos meses)? Vejamos:

1 – em todos, o árbitro estava mais próximo e com melhor visão que o auxiliar que o teria comunicado;

2 – em todos, o árbitro preferiu acreditar em auxiliares com pior colocação que em sua própria convicção, colocando sua responsabilidade de autoridade máxima sobre ombro alheio;

3 – em todos, a alteração correspondeu à realidade do lance. Sim, incrivelmente em todos eles a pessoa com pior ângulo e distância teria acertado, contra as óbvias probabilidades;

4 – em todos, a alteração ocorreu depois de a transmissão televisiva mostrar a repetição, enquanto os atletas do outro time faziam o esperado -e outrora ineficaz- protesto.

Como juiz, estou preparado para seguir as normas e julgar com base em provas. Porém, há situações em que a própria Lei dispensa a produção de prova. Ou por presumir a verdade (com chance de prova contrário -presunção relativa- ou não -presunção absoluta), ou por considerar que o fato é notório. Com a crescente adoção da teoria da dúvida razoável, ouso dar como admissível afastar alegações escancaradamente improváveis. Como no caso em tela. Nas circunstâncias acima narradas, uma alteração correta pode ser aceita como algo incomum, mas plausível. Com duas alterações, cogitaria ao menos haver informação externa que pode ter influenciado. Com mais que duas, já não soa crível ter sido apenas influência. Os árbitros se sentiram, pois sim, obrigados a modificar a marcação. E tal obrigação só se explica de uma forma lógica: alguém de confiança contou sobre o replay.

É evidente que a chance de produzir prova a respeito é quase nula. O grupo de arbitragem deve usar frases-código. O dedo-duro externo -que não precisa ser repórter, bastando alguém com celular com 4 G- também deve ter sua fala combinada. Assim, nem a gravação das conversas do quarteto adiantaria. Exigir esta produção probatória é, portanto, esperar sentado. Mais: é decretar como impossível constatar erro de direito que, mesmo com acerto prático, tem potencial danoso por não ser aplicado em todos os lances, nem a favor de todos os times. Esta impossibilidade é inaceitável. Se uma norma não tem palavras inúteis, muito menos a totalidade de palavras pode ser inútil. Se for para manter uma regra aplicável apenas para transgressores muito idiotas (a ponto de passarem recibo), melhor revogá-la ou, então, considerar a sequência de fatos para afastar a incerteza.

Sei que é dedução nova, mas reitero que foi a repetição de eventos, tal como descrita acima, que superou minhas dúvidas e mostrou a necessidade de inverter o ônus da prova. Do contrário, estaremos consagrando a zombaria com a inteligência coletiva. Pode-se responder que é choradeira de rival. Mas no fim do dia, longe dos bares e telas de computador, será penoso juntar as peças e fingir não ver a imagem do quebra-cabeça. Eu sei que houve interferência. Você, leitor, também sabe. É notório. Se é notório, não precisa provar. O mau disfarce se desmascara sozinho e deve resultar na punição ao farsante, sem arquivamentos cínicos. Querem adotar o VAR? Que o façam oficialmente, sem jeitinhos e malandragens. Vamos virar a página deste país por completo.

9 comentários em: “Acima de qualquer dúvida razoável – o “VAR à brasileira”

  1. Eu realmente não tenho opinião formada. É claro que é absurdo que usam as imagens quando dá na telha, mas acho que ainda prefiro isso do que marcações erradas. Hoje, de todo modo, estaríamos discutindo aqui um possível título palmeirense, vindo de um pênalti mal marcado.

    Mas concordo inteiramente que é necessário resolver isso de uma vez por todas e pararmos com os jeitinhos! Está mais do que claro que o uso de imagens é um caminho sem volta!

    1. Sou inteiramente a favor do VAR, mas de forma oficial. Em termos de regra do jogo, o uso da imagem para mudar uma marcação só é aceito nos termos estabelecidos pela FIFA. Claro que existe a sensação de que, no fim, é melhor que a marcação correta prevaleça. Mas quem faz a regra considera que, sem organização, não se tem a garantia de que esta correção de erro acontecerá sempre e beneficiando a todos. É o que costumo dizer: o que conspira pro bem conspira pro mal.

  2. Em tempo: rogo aos leitores que tenham o mínimo de educação e respeito. Sou uma pessoa séria e não postaria algo envolvendo dedução jurídica por clubismo. É um posicionamento novo, evidentemente polêmico, mas resultante da série de incidentes similares. É preciso ser muito ingênuo ou fanático para não ver as incoerências gritantes nas explicações. É um insulto à inteligência alheia. Abraços. Gustavo.

  3. Hoje de manhã, chacotas de um rival à parte, discuti com dois colegas economistas exatamente esse ponto. Um deles falou, com propriedade por sinal, que por ilegal que fosse o quadro de acerto com interferência externa, ainda assim é mais eficiente que o quadro com erro sem a interferência externa. Acho um ponto de vista válido, porém não consigo admitir, moralmente falando, que a regra seja usada em prol de alguns apenas. As circunstâncias de ontem foram patéticas da mesma forma que aquele Fla x Flu de tempos atrás.

    O VAR não foi aplicado, ainda, por mesquinhez dos clubes, que não quiseram pagar a conta. Porém é também mesquinhez da federação, que se orgulha de pagar mais que a libertadores. O Corinthians teve todos os méritos na sua conquista, mas me irrita profundamente ter que assistir de novo a uma discussão dessa seara. Tão cristalina quanto a pipocada do Lucas Lima foi o desequilíbrio emocional dos palmeirenses com a situação. Perde o esporte.

    Belo texto!

  4. O VAR deve ser implantado com urgência. É impressionante que apenas um time tenha se beneficiado desse recurso no campeonato. Imagine, por exemplo se não tivesse voltado atrás naquele pênalti do Jailson ou então se tivesse marcado aquele pênalti para o Santos, que deram a falta fora da área. A tristeza que fica é saber que o recurso é usado de acordo com a vontade, não com justiça e regra.

    PS: Nada justifica o chilique do presidente e o vandalismo de torcedores.

  5. Sempre penso que se no final a decisão for correta quanto ao lance discutir como se chegou a esta decisão é pura covardia de mau perdedor neste caso ainda agrava-se pela coragem da arbitragem e da maldade dos dirigentes e do jogador Dudu sabedores da verdade e claramente querendo levar vantagem desonestamente.

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