Ações do Manchester United nas alturas! E isso não significa nada

Créditos da imagem: AP

Nas últimas semanas virou notícia no meio financeiro do futebol a impressionante valorização nas ações do Manchester United na Bolsa de Nova York. Bem, para quem ainda não sabia, o time de Pogba e José Mourinho tem capital aberto, assim como tantos outros clubes europeus.

O clube abriu o capital em 2012 na bolsa de Nova York através da família Glazer, na época detentora de praticamente 100% do clube. Atualmente, apesar de vários membros da família ainda serem acionistas, já há destaque para outros controladores, como a Bamco, Inc, que detém 35% das ações do clube inglês.

Mas vamos retornar às últimas semanas. As ações dos Red Devils tiveram incrível crescimento de 40% desde Abril/18 e 25% entre Julho e Agosto deste ano. A partir dessa movimentação algumas pessoas já chamaram atenção para o movimento como se fosse algo que mostra a enorme capacidade de desempenho do clube, ou indo mais longe, mostra como o futebol pode ser um ótimo investimento.

Nem tanto ao céu, nem tanto à terra.

O que acontece com o Manchester United é nada mais que um rally baseado em alguma informação privilegiada ou movimentação de mercado, que de alguma forma pressiona o valor da ação. Para entender um pouco mais este movimento, vamos falar um pouco sobre preço da ação e volume diário transacionado, bem como comparar com outros dois casos que ajudam a dar um contorno melhor para o tema.

No gráfico abaixo temos a evolução do preço da ação e do volume diário de transações nos últimos 5 anos.

Note que no período longo o valor da ação, representado pela linha azul, fica sempre no range entre US$ 15 e US$ 20. Ou seja, há uma sensação de que o valor justa tem essa limitação. Note também nas barras laranjas abaixo. Tem que prestar atenção mesmo, porque são poucas as que descolam do eixo. Representam o volume financeiro diário movimentado. Estes volumes significam que no dia houve forte movimento de compra e venda, e geralmente isto impacta em preço. Se a demanda é por compra, o preço sobe, e se for por venda, o preço cai.

O movimento de alta mais regular ocorre a partir de Novembro/17, quando as ações sobem e alcançam o patamar mais consistente de US$ 20, para subir novamente entre Julho/18 e Agosto/18, alcançando US$ 26.

Veja o gráfico a seguir com o comportamento de mais curto prazo, de Agosto/18:

Neste período a ação teve uma valorização de 25%. Mas note que apenas em 4 períodos houve o tal “rally” que falei acima, quando o volume negociado foi maior que a média. Ou seja, uma ação que tem movimentação constante para cima, mesmo com volumes médios baixos, pode significar duas coisas: i) a companhia vai bem e mostra potencial de boa rentabilidade futura ou; ii) tem alguém fazendo preço para garantir valor maior numa eventual transação futura.

Vamos lembrar que o Manchester United é controlado for fundos de investimentos.

Voltando algumas casas, alguém pode perguntar “Por que se compra uma ação?”. Justo. E os motivos são simples: I) você acredita que a empresa será lucrativa e poderá lhe pagar bons dividendos *distribuir lucros) e/ou; ii) você acredita que o valor da ação vai subir no curto e médio prazos e por isso pode ganhar dinheiro rápido comprando na baixa e vendendo na alta. É um risco, mas muita gente se dá bem, quando a maioria se dá mal.

Agora vamos pensar no Manchester United considerando essas duas possibilidades comentadas. O desempenho esportivo, que poderia indicar aumento de receitas, valorização da marca, aumento de torcedores no mundo, este não chega a empolgar. Pelo contrário, faz tempo que o clube inglês não dá as caras no Desfile dos Campeões, exceto por uma singela Europa League em 2016/2017.

Sob o ponto de vista financeiro é possível dizer que o clube vai bem, obrigado, mas já vem assim faz tempo. É uma das 3 maiores receitas da Europa há pelo menos 10 anos, e mesmo com os movimentos de compra pelos quais passou, ainda assim se manteve com boa gestão e certo equilíbrio. Mais recentemente se posiciona como clube rico e sólido. Isto, inclusive, o coloca numa condição de difícil crescimento acelerado, pois já está num patamar elevado e para crescer mais precisa ser mais vitorioso.

Para ilustrar isso trouxe alguns números.

Os valores estão em Libras, mas o importante é observar que são bastante estáveis, e mesmo nos resultados mais recentes, de 2018, há pouca variação que justifique um crescimento tão grande no valor da ação. Ou seja, o clube vai bem e na mesma toada de sempre.

Agora vamos mudar de indústria para ilustrar duas situações referentes ao que comentei anteriormente.

Na primeira veremos a movimentação das ações da Suzano Papel e Celulose. No gráfico a seguir verão um salto impressionante no valor da ação da companhia. Ele se dá quando surgem os rumores de que a companhia compraria a Fibria e se tornaria a maior produtora de celulose do mundo. Trata-se de um mercado onde a compra transforma a empresa numa potência e com resultados excelentes.

Este movimento estratégico estava associado a uma troca de ações, e o desempenho futuro da nova companhia justificava o novo patamar de preço, então é possível entender uma movimentação brusca. E note o volume de ações movimentadas quando da mudança de patamar de preço, bem acima da média.

Agora vamos para segundo exemplo, que é a Magazine Luiza.

Aqui nota-se um comportamento também de alta, mas muito mais atenuado, porém consistente. O mercado enxergou uma mudança importante na forma da companhia operar, e isto trouxe mais confiança em resultados positivos no futuro, que foram sendo entregues. Desta forma, mais pessoas se interessaram pela ação, que continua a subir, movimentando muito diariamente.

Ou seja, diferente de uma ruptura, aqui o conceito de crescimento no valor da ação se dá pelo desempenho potencial de longo prazo.

Voltemos ao Manchester United.

Ora, se o desempenho tem sido constante e nada indica que melhore consideravelmente no médio prazo, não parece ser esta a justificativa para o crescimento observado no valor da ação do clube recentemente. O que nos resta a primeira opção, que é a de mudança iminente no controle acionário do clube.

Para colocar um pouco mais de pimenta nessa conversa, o maior acionista, a Bamco, Inc, vendeu 4% de sua participação em 2018, por US$ 18 milhões, se apropriando de parte da valorização do papel. Veja abaixo as médias anuais de preço e volume transacionado nos últimos 5 anos.

O preço médio está bastante elevado, mesmo com movimentação média diária abaixo dos anos anteriores, mostrando que de fato há um movimento de pricemaker em andamento.

Portanto, depois dessa conversa toda, o que fica é que nem sempre movimentações nas ações, especialmente em clubes de futebol, significam que o desempenho é tão brilhante ou tão ruim. Usar o mercado de ações para justificar aspectos de gestão é bastante complicado e requer cautela. No caso do Manchester United temo que seja apenas especulação.

O futebol é um negócio interessante, mas cuidado para não cair no canto da sereia. Nem tudo que reluz é ouro.

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