Arbitragem de vídeo e arbitragem no vídeo – perigo na estrada

Créditos da imagem: Montagem / No Ângulo

Há duas semanas o jornalista Arnaldo Ribeiro acusou a “central do apito” da Globo de manipular o uso do VAR. Como “prova”, mencionou lances em que o árbitro fez o quadradinho do caos logo após comentário televisivo. Esqueceu, por antipatia ao vídeo ou limitação de memória, que os mesmos comentaristas já fizeram malabarismos para justificar intervenções do VAR contrárias ao que haviam dito. Esqueceu também que há câmera na sala do VAR, que mostraria até o uso – vedado – de celular. Porém, o disparo irresponsável de Arnaldo tem precisão acidental: a central do apito influi no VAR. Indiretamente e não deliberada, mas o bastante para torná-lo ainda mais confuso.

Utilizada desde que seus membros eram apenas “comentaristas de arbitragem”, a central do apito foi copiada pelos concorrentes globais. Em todos, busca-se pelo em ovo. Durante as partidas ou após o apito final, os lances são analisados de forma exaustiva para confirmar ou afastar infrações e cartões. Nem que, para isso, a multidão de analistas (que hoje inclui pessoas que nem nos lembramos de ver atuando) tenham que se valer da câmera mais lenta que tiverem, transformando um toque com força de mosca em ippon olímpico. Fora o drama psicológico de desvendar a intenção do atleta, ignorando que os critérios foram ficando mais objetivos. Como na expulsão de Rodinei em jogo decisivo do Brasileirão passado. Entrada imprudente, ponto de contato perigoso, cartão vermelho. É a norma atual, menos para quem acreditou na TV.

Ao introduzirem o auxílio de vídeo, a IFAB (Internacional Football Association Board) optou pela mínima interferência. A escolha sobre o erro corrigível recaiu sobre duas palavras: “claro” e “óbvio”. Partindo do princípio de que regra não tem palavras inúteis, vamos considerar que “claro” se refere ao fato em si e “óbvio” alude à interpretação. Se o fato não for inequívoco, ou se a consequência perante as regras for controversa, prevalece a marcação de campo. Exemplo: num lance de possível mão na bola na área, o VAR só deve sugerir revisão se: 1 – o toque existiu e o árbitro não viu (clareza); 2 – pela regra, não haver mais de uma interpretação na prática da arbitragem. Podemos resumir tudo isso numa explicação sucinta: só pode haver revisão do lance quando o erro for escancarado. Do contrário, no máximo o VAR deve dizer “siga o jogo”.

Portanto, é visível que a forma de atuar das centrais do apito, para fins de informação e entretenimento (há quem se divirta) vai em sentido oposto ao do auxílio nas quatro linhas. Na TV, a dúvida sobre o fato e/ou sua interpretação não impede o ex-árbitro de ser taxativo sobre a marcação de campo. Na aplicação do VAR, por outro lado, a dúvida deve consagrar a decisão inicial. Assim, quando dois corpos em sentido oposto vêm pela mesma faixa, a tendência clara e óbvia é a do desastre – jornalístico e esportivo. É o que vem ocorrendo na América do Sul (onde suspeito haver versões das nossas centrais). Ao aplicarem as “regras” da central do apito, o VAR ingerente e o árbitro de campo submisso trocam o protocolo oficial pelo padrão narrativo das antigas e saudosas chamadas da Sessão da Tarde – uma tremenda confusão.

A cizânia exige reversão imediata no futebol brasileiro – notoriamente o pior nesta modalidade de trombada. Primeiro, com emissoras e CBF reforçando que uma coisa é jogada irregular (ou não), outra é sua regularidade ser passível de revisão – ou seja: “lance pro VAR”. Segundo, com a CBF exigindo respeito ao protocolo da IFAB, que é o único cabível – e que, entre outras coisas, estabelece o uso da câmera lenta apenas para definir ponto de contato e local da infração. Terceiro, caso ocorra a provável inércia nos dois outros passos, com clubes levando o caso ao conhecimento da IFAB para que esta tome providências. Seja enviando orientações complementares para impor a aplicação do protocolo, seja com eventual (e indesejável) endosso à interpretação muito livre das normas do VAR.

Com o perdão do devaneio, na oitava série passei por grande constrangimento quando vieram à sala explicar as vantagens da volta do Grêmio Estudantil. Motivo: o cidadão não parava de dizer que o Grêmio veio resolver todos os “pobrema” e eu, consequentemente, não conseguia parar de rir (problema, sem erro claro e óbvio, que costuma me acompanhar em certas solenidades). O VAR não veio resolver todos os “pobrema” do futebol. Só os que saltam aos olhos e não requerem complexidade. Do contrário, vira um constrangimento como aquele do ginásio. Com uma diferença: já perdeu a graça.

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