Cultura futebolística e o trabalho do Diretor de Futebol

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Quais as semelhanças e diferenças entre Alexandre Mattos, Raí, Alessandro, Marcelo Dijan e outros tantos? Antes disso, ao colocar esses nomes lado-a-lado o torcedor mais próximo ao cotidiano dos clubes de futebol já entendeu que estamos falando dos “homens fortes” do futebol de Palmeiras, São Paulo, Corinthians e Cruzeiro.

Será mesmo?

Qual a função oficial e qual a atividade real de cada um deles? Onde eles entram e onde entram os diretores estatutários, aquelas figuras folclóricas e que aparecem sempre que está tudo bem?

Pergunte a cada um deles e a cada presidente desses e de outros clubes e provavelmente você terá inúmeras respostas diferentes. Alguns são responsáveis por contratações, outros pelo “elo” entre elenco e diretoria, e haverá os que nem sabem ao certo suas responsabilidades. E esta deveria ser a função mais importante de um clube de futebol.

Tecnicamente este cargo se assemelha ao COO, sigla bacana associada a Chief Operational Officer, ou Chefe de Operações. A principal operação de um clube de futebol é justamente praticar o jogo, disputar campeonatos. A figura do COO num clube de futebol deveria, portanto, ser a do responsável por toda a estrutura de futebol. E quando falamos em “toda estrutura” significa sair da Base e chegar ao Profissional, e garantir que a estrutura fale a mesma língua, ou seja, tenha uma Cultura Esportiva. Complicou, não é?

Então vamos começar do começo. Pense no Barcelona. Apenas de falar esta palavra e associá-la ao futebol qualquer pessoa que gosta e acompanha o esporte já tem em mente uma forma de jogar. Independente de quem seja o treinador ou quem esteja em campo, o Barcelona carrega consigo uma forma de jogo. Da mesma forma que quando falamos em futebol italiano, todo mundo tem em mente aquela coisa do jogo mais amarrado, brigado, independente de time. Isto se chama Cultura Esportiva. Guarde isso.

Daí vem a figura do COO e faz o que com isso? Bem, se o clube se chama Barcelona ele simplesmente trabalha para garantir que esta cultura se mantenha. Mas se o time tem outro nome e está estabelecido no Brasil, o COO começa com uma atribuição complicada: definir qual a cultura esportiva do clube.

No passado era comum ouvir que o Corinthians era o time que jogava com alma, que o Palmeiras era clássico, que o São Paulo era o time da velocidade, que o futebol gaúcho era de força e o carioca de arte. Mas faz algum tempo que nossa estrutura de clubes jogou tudo isso para o alto, seja pela falta de manutenção de equipes, que vem da falta de dinheiro e paciência, seja porque o futebol foi mudando e os clubes foram sendo geridos de forma cada vez mais personalista e isto significa que passaram a se tornar o reflexo de seus donos, digo, dirigentes.

Quando falo que profissionalização é a soma de uma boa gestão financeira com boa gestão esportiva, fica clara aqui que falta ao futebol justamente desenvolver esta qualidade esportiva. Falta ao futebol deixar de ser personalista e passar a entregar a um profissional de operações a gestão do campo. Guarde isso também.

Porque daí o COO vem, pensa em definir uma cultura e para garantir isto as primeiras ações deveriam ser definir um responsável pela Base, que a partir dele definiria treinadores e forma de atuar que seja cara do clube. Diferente do que se imagina, a cultura esportiva de um clube deve começar da Base, pois os atletas formados chegam ao Profissional carregando esta forma de atuar.

Na sequëncia, define-se um treinador Profissional que tenha como forma de montar seus times a mesma dinâmica definida pela cultura. Simples. Um time que se classifica como “de ocupação de espaço” não pode ter um treinador que seja adepto do domínio da bola. Não vai funcionar.

Definida a cultura e os responsáveis por sua implementação em campo, monta-se o elenco compatível com isto. Não dá para se acreditar de uma forma, trazer um treinador de outra e montar um elenco que não conversa com nada disso. Além de um erro estratégico básico, isto se transforma num erro financeiro absurdo. É o que estamos cansados de ver: elenco com 90 atletas, sendo que 50 estão emprestados com salários pagos pelo clube que emprestou. Por que ocorre isto? Justamente porque não houve critério que associasse cultura, treinador e elenco.

Mas é só fazer isto que dará tudo certo? Seria simples se fosse simples. É futebol, não uma indústria de transformação. Afinal, assim como o Real Madrid dos Galáticos ficou anos na fila da Champions League, o Barcelona errou com Tata Martino, o Bayern com Ancelotti, nem sempre as decisões se mostram acertadas e o resultado é diferente do que se propôs no planejamento. E no fim da temporada, apenas alguns poucos serão campeões.

Mas o mais importante é ter uma estrutura que siga esta cartilha, e que profissionalmente cobre o COO quando os resultados ficam muito aquém do esperado. Não conquistar é uma coisa, mas praticar algo fora da cultura, ou mal praticado, ou ter que demitir o treinador no meio da temporada – isto jamais é um problema, desde que o COO seja responsabilizado e penalizado financeiramente por isto – ou ter que correr para cobrir lacunas de elenco por má formação na origem, isto deveria ser inaceitável.

Pois bem, retomando o que guardamos lá atrás, o COO deveria ter autonomia para contratar a partir de definições claras e acordadas a direção do clube. Mas não só isso. Os clubes deveriam ouvir seus torcedores para saber o que eles esperam do clube, e qual a cultura que entendem ser a que melhor os representam. O processo deveria ser mais amplo que simplesmente deixar nas mãos de um político de clube ou um profissional que vem e vai a qualquer tempo. Quando falamos de futebol, falamos de nações de torcedores, que esperam de seus clubes algo que os representem. Mas os clubes não sabem qual é esta expectativa. Logo, falta aos clubes entenderem melhor seus torcedores para que possam definir ou redefinir suas culturas. Daí, é encontrar o profissional correto e implantá-la, com tempo e paciência.

E voltamos enfim ao início. Ninguém sabe quem são, quais as responsabilidades e o que fazem os “diretores remunerados” de futebol no Brasil. Exceto que alguns vivem de negociar atletas, aos montes, e são tratados como brilhantes, ainda que sejam meros elos entre empresários ávidos pelo dinheiro e clubes geridos por quem não tem responsabilidade pelo dinheiro, uma vez que não é deles. E dá-lhe contratar sem critério, aceitar treinadores que não são os que melhor se encaixam ao perfil do clube e do elenco, e vida que segue. Afinal, depois é só trocar o treinador, vender uma revelação, trazer um medalhão, que tudo dá certo. Ou não. Mas basta não cair que tudo bem.

4 comentários em: “Cultura futebolística e o trabalho do Diretor de Futebol

  1. Como sempre uma aula!!!!!! Por aqui o gerente de futebol costuma ser ou um ex-jogador querido pela diretoria ou um cara próximo de empresários!!!! E o cara sempre acaba atuando em qualquer clube do mesmo jeito, ninguém considera a identidade!!!!!!!!

  2. Muito Bom, esse cargo não pode ser um cabide de emprego, lugar de puxa saco ou de zeros a esquerda, porem voce cita palmeiras, Corinthinas e São Paulo, menciona a escola gaucha e tudo mais, e se esquece do Santos, que apesar de todo esquecimento e de também contratar mal para esse cargo, talvez seja o unico no futebol brasileiro, que mais se aproxima de uma cultura de jogo, time mais artilheiro do planeta, com caractrsiticas ofensivas não importando a fase, time ou adversario

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