A Janela cada vez mais Europeia de transferências

Créditos da imagem: Montagem / No Ângulo

Que o centro do futebol internacional é a Europa, isso não é novidade pra ninguém faz tempo. Mais dinheiro, melhores atletas, melhores equipes, jogos de qualidade. Até o VAR funciona bem por lá, e ainda apresenta sinais de melhora.

Se os torcedores e a imprensa no Brasil olham para a Europa com certo desejo pela qualidade do que se apresenta dentro de campo, os clubes brasileiros olham a Europa à espera dos euros que os ajudarão a fechar suas contas fora de campo. No lugar de absorver as melhores práticas esportivas e de gestão, trilham a velha máxima americana do “Show me the Money”.

Para a tristeza de muitos, a janela de transferência de atletas de início de temporada está em fase de encerramento e o dinheiro quase não chegou. E quando chegou foi em doses bastante modestas. O que indica, sem nenhuma alegria na frase, que alguns muitos clubes sofrerão para fechar suas contas ao final de 2019.

Então, por que se fala tanto em valores milionários de transferência de atletas se o dinheiro não chegou ao Brasil? Onde está o dinheiro?

Pois bem, é isso que tentaremos mostrar a seguir, numa prévia sobre o tema, já que ainda faltam alguns dias para o encerramento do período de contratações.

Primeiro ponto a ser tratado é sobre o total de movimentações financeiras. Segundo o site especializado Transfermarket, as 18 principais ligas europeias em movimentação de dinheiro para transferência de atletas (e onde estão a Championship inglesa, as Séries B e C italiana e a Bundesliga 2) movimentaram € 5,5 bi nesta janela. Número realmente bastante impressionante. Se considerarmos por liga, as 5 que mais contrataram foram:

  1. Premier League – € 1,6 bi
  2. La Liga – € 1,2 bi
  3. Serie A – € 1,1 bi
  4. Bundesliga – € 0,7 bi
  5. Ligue 1 – € 0,4 bi

Ah, importante: quando falamos de Futebol Europeu temos que usar a moeda € (euro) e não ficar convertendo para Reais. Como o câmbio flutua muito, falar em reais distorce a realidade de clubes que faturam e vivem em euros. Afinal, não faz muito sentido compararmos o valor gasto pelo Real Madrid no Hazard em Reais, porque os € 100 MM da operação se comparam aos € 700 MM de receita do clube merengue, e não às receitas em reais dos clubes brasileiros.

Voltando…

Fiz uma análise observando os 25 principais clubes da Europa (lista ao final da coluna) para ver quanto eles movimentaram entre si e com os demais clubes europeus e de fora da região. Esses clubes movimentaram € 3,15 bi (ou 57% do total de movimentações) e com os seguintes clubes:

Note que 47% do dinheiro foi movimentado entre os 25 clubes, que são os maiores de seus países foi troca de bolso entre eles. A partir daí, outros 48% foram entre esses clubes e outros clubes europeus. Ou seja, 95% do total da janela não deixou a Europa.

Mas o que isso tem de relevante? Tem muito.

Para os clubes da periferia do futebol, que dependem muito do dinheiro da venda de atletas para a Europa, quanto menos eles investem em atletas de fora, mais fortalecem suas estruturas. Sem irrigar a América Latina com tanto dinheiro, os clubes ficam cada vez mais reféns dos poucos recursos que surgirão por aqui.

Note que nessa janela praticamente não houve movimentações relevantes no Brasil, se considerarmos que Rodrygo já estava vendido desde o ano passado. Mesmo as sondagens vieram bem abaixo das expectativas, seja por Everton, seja por Pedro. Inclusive Antony e Pedrinho não tiveram propostas noticiadas.

Observamos ainda uma tendência por adquirir direitos de atletas cada vez mais jovens. As diferenças na formação, que foram relatadas por Vinícius Jr recentemente, fazem com que os clubes europeus optem por atletas abaixo de 20 anos, ainda em fase de moldá-los ao padrão europeu, sem contudo deixar de ter a diferença técnica que tanto procuram em nossos atletas. Acima dessa idade os valores já começam a cair. Não é à toa que o Arsenal achou os € 80 MM pedidos pelo Grêmio por Everton (o clube pediu € 40 MM pelos 50% que detém) caros, e comprou o francês Pepé do Lille por € 70 MM. Everton tem 23 anos e despontou para o mundo na Copa América enquanto Pepé tem 24 anos e faz boas campanhas pelo Lille na Ligue 1 há algum tempo.

Vamos então aos dados do FIFA/TMS, relatório oficial sobre transferência de atletas. Os dados são da janela de inverno, que ocorre no início do ano e representa a metade da temporada europeia. É quando os clubes fazem contratações pontuais para ajustar os elencos.

Veja que a maior parte das contratações das 5 maiores ligas do mundo está concentrada em atletas até 24 anos. A Premier League contrata mais entre 21 e 24 anos porque já foram testados e podem render ao menos duas rodadas de contratos, entre 8 e 10 anos aos clubes. E tem potencial de revenda.

A Ligue 1 é quem contrata mais atletas acima de 29 anos, justamente porque tem como base a formação de atletas para serem colocados nas 4 demais ligas. Contar com atletas experientes faz parte do processo de formação. Este parece ser o caminho iniciado por clubes brasileiros na atual janela, ao contratar experientes e qualificados atletas vindos da Europa, e que tem mercado menos nobre com o passar dos anos.

Sobre isso, note que os atletas recém contratados por Flamengo e São Paulo estão quase todos acima de 30 anos, já em fase de encerramento de carreira. Alguns saíram ao término de seus vínculos e possivelmente não tiveram propostas financeiras e esportivas semelhantes às que tinham até então. A alternativa seria jogar em equipes menores, com pouca ou nenhuma chance de títulos, e provavelmente recebendo menos em contratos mais curtos. Ou então rumar para o Oriente Médio e a China.

Nesse sentido parece natural o retorno ao Brasil, jogando em clubes localmente relevantes, recebendo salários compatíveis com a realidade europeia – afinal, recebem acima de € 180 mil mensais, o que é um excelente salário mesmo para as grandes ligas – e não precisam jogar em competições insossas como no Qatar e na China. O Brasil pode passar a ser um destino interessante para brasileiros em fim de carreira e europeus de segunda ou terceira linha. Convenhamos, Juanfran jogaria no máximo no Alavés nesta temporada, e Pablo Marí jogou em times inexpressivos e na Série B espanhola antes de vir ao Flamengo.

Voltando ao tema inicial e para finalizar, veja a balança comercial dos 25 clubes da amostra em relação aos demais clubes europeus e ao resto do mundo.

Em relação à Europa, eles contrataram € 944 milhões, mas também venderam € 560 milhões. Com o resto do mundo contrataram apenas € 112 milhões e venderam € 38 milhões,

Parte importante desses movimentos vai além de simplesmente reciclar o elenco. Há demandas financeiras para atender às regras do Fair Play Financeiro. Os clubes são obrigados a atender regras rígidas de custos em relação às receitas, e vender atletas ajuda a baixar os gastos, além de proporcionar entrada de caixa.

Dois exemplos vêm da Itália. A Juventus anunciou que precisa vender 6 atletas para fechar suas lista para a Champions League e para atender ao Fair Play Financeiro. Na lista estão Mandzukic, Dybala e Matuidi. Enquanto isso, o Milan corre para vender Donnarunna e Suso, e assim poder ajustar sua folha de pagamento e fazer as últimas contratações necessárias para fechar o elenco.

No final, é preciso que os clubes brasileiros tenham atenção com esse movimento. Pode ser pontual, mas pode ser uma mudança de olhar dos europeus. Nota-se que os grandes clubes preferem pagar um pedágio e garantir que contratarão atletas melhor formados a apostar caro em atletas que demandarão muito tempo de ajuste. Importante os clubes brasileiros estarem atentos e garantirem vendas mantendo percentual sobre negociação futura. Melhor será quando pudermos manter mais atletas e por mais tempo em nossos campos. Quem sabe um dia?

Clubes da amostra:
Real Madrid, Barcelona, Atletico, Sevilla, Valência, Porto, Benfica, Inter, Milan, Juventus, Napoli, Roma, City, United, Chelsea, Liverpool, Arsenal, Tottenham, Bayern, Borussia, PSG, Lille, Monaco, Ajax e Lyon.

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