Eleição do Corinthians: judicialização, impugnações, acusações e muitas dúvidas

Créditos da imagem: Montagem / No Ângulo

Quem teme que a sucessão presidencial do Brasil pode ser prejudicada por excesso de judicialização ou se horrorizou com o show de impugnações e traições na recente votação do Vasco da Gama, certamente, vai cair de costas se acompanhar de perto o processo eleitoral que definirá o próximo presidente do Corinthians. Nem escritores de melodramas mexicanos seriam capazes de construir um cenário tão rico em cassações de candidaturas, acusações de fraudes, contestações de eleitores anistiados, indefinições de regras, e por aí vai.

Os sócios do Corinthians elegerão no dia 3 de fevereiro a administração que cuidará do clube pelos próximos três anos. Não será, certamente, a eleição mais importante do ano para 200 milhões de brasileiros. Mas para um grupo calculado em 30 milhões de corintianos será um passo definidor do futuro próximo de sua paixão e, sem exagero, de parte importante de suas vidas.

Foram registradas cinco chapas: Renovação e Transparência – Andrés Sanchez; Corinthians Mais Forte – Antonio Roque Citadini; Corinthians Grande – Felipe Ezabella; Pró Corinthians – Paulo Garcia; Democracia Corinthiana Participativa – Romeu Tuma Jr.

A confusão toda começou com a denúncia de que cerca de 850 sócios inadimplentes tiveram suas situações regularizadas, o que lhes daria condições de voto, por causa de uma generosa redução de dívida decidida pela atual diretoria. Para complicar, recursos para essa regularização teriam sido fornecidos por um dos candidatos, Paulo Garcia. Há ainda a acusação de que o empresário Carlos Leite, que tem vários negócios com o time, teria emprestado R$ 200 mil para o mesmo fim -o empresário confirmou à imprensa que fez o empréstimo, mas negou que seu objetivo fosse ajudar na anistia a sócios.

A Comissão Eleitoral do clube foi dura em suas decisões: 1) suspensão do direito de votos dos sócios anistiados; 2) cassação da candidatura ao Conselho Deliberativo do diretor administrativo do clube e um dos coordenadores da chapa de Andrés Sanchez, Eduardo Caggiano, acusado de autorizar as anistias; 3) impugnação, no dia 29 de janeiro, da candidatura de Paulo Garcia à Presidência. Caggiano e Garcia negam irregularidades e recorreram das decisões. Já no dia seguinte, terça-feira, Paulo Garcia obteve uma liminar que o mantém na disputa . E há movimentação de setores do clube para restabelecer o direito a voto dos anistiados.

O candidato Roque Citadini também teve sua candidatura impugnada, em 15 de janeiro. O motivo foi o fato de ele ser Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, o que o impediria de acumular a função de presidente do clube. Dias depois, Citadini obteve na Justiça liminar que o mantém na disputa presidencial. Mas ainda pesam dúvidas sobre se ele, caso eleito, possa assumir o cargo.

Andrés Sanchez foi absolvido nas investigações sobre a anistia aos eleitores, mas ainda há quem defenda no clube que o fato de ele ser deputado federal o impediria de exercer a presidência -mesmo isso não sendo um fato incomum no mundo do futebol.

O Corinthians tem um colégio eleitoral calculado em torno de 13 a 14 mil sócios habilitados. Nas últimas duas eleições, votaram cerca de 3.200 pessoas em cada. Notem que este número é menor do que os votantes na última eleição do Santos (5.679 votos). Desses 3.200 votantes das duas últimas eleições, dois mil participaram dos dois pleitos. Os outros 1.200 variaram. Podemos dizer que nas duas últimas votações participaram cerca de 4,4 mil associados.

Ou seja, dividindo o número de torcedores presumíveis do Corinthians pelo número de eleitores dos dois últimos pleitos, temos a constatação que cada sócio vota por quase mil corintianos. E aí começam as peculiaridades desta eleição. Não é necessário torcer pelo time para ser sócio. Certamente, há no quadro de associados famílias que usam toda a estrutura das piscinas, quadras etc, mas que torcem por Palmeiras, São Paulo ou Santos. É do jogo. Faz parte e não cabe críticas. Mas é fato que enquanto o torcedor pensa no time, o sócio, que tem poder de voto, está preocupado em saber qual dos candidatos cuidará melhor das piscinas, dos vestiários, das festas juninas etc.

A eleição do Corinthians envolve números que superam muitas cidades médias do país. O orçamento para 2018 é calculado em R$ 313,1 milhões. Dinheiro vindo de direitos de TV (R$ 163,5 milhões), patrocínio Nike (R$ 23,7 milhões), patrocínio no uniforme (R$ 63,5 milhões), venda de atletas (R$ 50 milhões), Fiel torcedor (R$ 9 milhões) e royalties/licenciamentos da marca (R$ 3,4 milhões). As rendas do estádio são direcionadas ao fundo responsável por pagar a Arena de Itaquera, cuja dívida vai de R$ 1,5 a R$ 2 bi. De fato, escolher o candidato é decidir se a sociedade civil Sport Club Corinthians tem ou não chance de sobreviver em um prazo de futuro não muito longo.

A boa novidade do ano é a nova fórmula de escolha dos 200 membros do Conselho Deliberativo. Nas eleições anteriores, a chapa do candidato a presidente e vices incluía a lista de conselheiros. Não era proporcional. Ou seja, se a chapa vencedora tivesse um voto a mais que a segunda colocada, indicaria todos os 200 conselheiros.

Nesta eleição, poderão ser apresentadas chapas de até 25 membros para o Conselho. As oito mais votadas ocupam as vagas. A nona e a décima colocada figuram como suplentes. Estão registradas no pleito 24 chapas. Com isso, o poder dos candidatos favoritos à Presidência teve relevante redução.

Atual campeão brasileiro e paulista, o Corinthians planeja decidir torneios importantes neste ano. Seus torcedores devem estar esperançosos de que o time seja menos atrapalhado e mais claro nas decisões dos campeonatos do que tem sido em suas definições internas.

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