Hernanes e seu azar por não ter surgido num país que cultiva armadores

Créditos da imagem: R7

Hernanes e suas várias funções – menos as que o levariam ao topo

Já tem um tempo que o ex-jogador e comentarista Tostão tem uma tese interessante, que merece o título de Teoria Tony Kroos. Segundo este entendimento, campeões mundiais como o meio-campista alemão, ou o espanhol Iniesta, deram muita sorte no nascimento. Tivessem surgido no Brasil, não teriam oportunidade como armadores. Ou seriam adiantados como meias-atacantes, ou recuados como segundos volantes. No primeiro caso, receberiam bolas de costas para a defesa adversária, sem força e velocidade para escapar da marcação. No segundo, participariam muito da marcação e seriam meros coadjuvantes na criação. De um jeito ou de outro, chegariam menos longe do que poderiam.

Hernanes não teve esta boa fortuna. Pior: seu repertório técnico não o limitou às duas posições citadas, fazendo técnicos racharem a cuca para escolher onde atuar. Seus primeiros jogos como profissional aconteceram em 2005. A posição? Ala esquerdo – com direito até a um golaço contra o Flamengo. No mesmo ano, o ambidestro chegou a ser testado como ala pelo outro lado. Não se deu bem e foi emprestado ao Santo André em 2006, onde foi até atacante. De volta, estava prestes a ser dispensado do Morumbi, quando uma série de desfalques o tornou volante. Foi agradando e, no 3-5-2 único que Muricy montou em 2007 (com direito a zagueiro-lateral – Breno – e alas armadores – Souza e Jorge Wagner), fechou o ano como candidato a craque. Mas isso teve um preço nas temporadas que viriam. No lugar de escalarem Hernanes apenas como volante ou meia-atacante, Muricy e Ricardo Gomes o faziam se esfolar sendo as duas coisas. Acabou sofrendo em dobro os efeitos colaterais, até sua possível vaga na Copa de 2010 virar profecia furada.

Ainda assim, os momentos de alta o colocaram na Lazio, um clube médio italiano em boa fase. Não foi desta vez que pôde jogar como armador, porém só o fato de ter uma simples função bastou para conquistar a torcida – que adotou seu apelido no Brasil. Não agradou a Mano Menezes (até porque foi expulso na única chance como titular), mas se tornou banco com Luís Felipe Scolari. Tudo caminhava em evolução quando foi para a Internazionale, Entretanto, depois de 2014, esteve mais para profeta do auto-apocalipse. A Inter foi péssima na temporada seguinte e Hernanes foi para a Juventus. Com Pirlo deixando o clube, a posição vaga parecia lhe cair como uma luva – ou uma chuteira. Mas ficou só na esperança. Pogba foi o dono do meio-campo e Hernanes ora foi primeiro volante, ora atacante. Armação, nunca. Registre-se que, como o futebol brasileiro, o italiano tampouco cultua este papel – tanto que os armadores da Azzurra jogam na França. Uma mudança para Espanha, Alemanha ou Inglaterra poderia ter feito diferença. No lugar destes centros, restou a China. Ou nem isso.

Até no tricolor o drama da polivalência prosseguiu. Com Cueva em má fase, Hernanes foi escalado mais à frente. Superconcentrado, chegou a ter média de um gol por jogo. Mas o São Paulo continuava na zona do rebaixamento e Dorival resolveu mudar para um suposto 4-1-4-1. Na prática, o camisa 15 foi segundo volante (ou até primeiro, pois Petros não guarda posição). A defesa são-paulina melhorou com sua experiência, só que o ataque virou o bate-e-volta de antes. Coube ao próprio jogador fazer o que, talvez, tenha faltado em todas as passagens anteriores: definir ele mesmo onde atuar. Como armador? Não. Agora é tarde para isso. Não se corrige mais de uma década perdida em semanas. Tal como Luan no Grêmio, Hernanes aproveita o mesmo atraso tático nacional (que tanto o prejudicou no Muricybol) para se vingar. Joga entre as linhas da defesa adversária, dando passes ou entrando na área quando estão prestando atenção em Pratto. É como vai livrando o SPFC da série B. Mas é o suficiente para Tite? Repetindo coluna anterior: também não.

Além da questão do ritmo do nosso campeonato, o esquema da seleção brasileira não tem esse “entrelinhas” do meio-campo. Quem faz isso está no ataque. Neymar começa do lado esquerdo para depois flutuar. Hernanes carece de velocidade e intensidade para ser seu reserva. Neste ponto, o camisa 7 gremista leva vantagem em eventual adaptação – sem contar que Tite deixou claro que, com Neymar fora, Coutinho faz suas vezes e Willian entra pela direita. Restaria ao profeta a posição de Renato Augusto, mas aí remeto ao parágrafo acima. Não há mais tempo para ser o armador que, por diversas razões (todas distintas de talento), não foi e não é. Não descarto que entre numa espécie de “cota política” de Tite para não ser acusado, pelos policarpos, de só levar atletas de fora. Apenas isso, a meu ver, explica Diego entre os escolhidos. De todo modo, Hernanes seria uma presença figurativa ou para um momento de desespero – como se especula que Felipão teria cogitado naquele 7 a 1. Nessas circunstâncias, melhor seria levar um nome para o futuro.

Se permanecer no São Paulo em julho do ano que vem, Hernanes poderá levar o time a uma reconstrução para 2019 – se a diretoria não voltar a se superar em idiotices. Mas, entre gols, passes e glórias, ainda haverá a lacuna causada por seus próprios predicados. Ele tinha bola para ser um destaque de seu tempo. Pena ter nascido no país errado para otimizar suas qualidades. O Brasil pode chegar ao hexacampeonato, mas não corrigiu esta falha na formação de armadores. A seleção sub-17 trouxe esperanças. Contudo, quem garante que Alanzinho e Marcos Antônio não serão estragados como volantes ou meias-atacantes? Se até a Bola de Prata ainda elege a seleção do campeonato brasileiro só com estas posições no meio-campo, a chance de serem o próximo Hernanes – no triste sentido do termo – é uma profecia que dificilmente será descumprida.

11 comentários em: “Hernanes e seu azar por não ter surgido num país que cultiva armadores

  1. No fórum lembro que fiquei triste por Hernanes ter ido para um time italiano na época. Tivesse ido para a Inglaterra poderia ter virado pelo menos um box to box, tendo mais chances de virar um armador a medida que o futebol evoluísse. Mas ele não tinha como prever essas coisas, como a decadência tática do futebol italiano.

  2. Nada de extraordinário, apenas um jogador de boa qualidade técnica. Voltou para o futebol brasileiro na hora certa, pois o que temos por aqui é sofrível.

  3. Concordo com essas observações, mas para mim o Hernanes é também desses craques que precisam se sentir “em casa”. É claro que também existem razões tática como as citadas, e também técnicas (como o baixo nível do nosso futebol), mas a bola que o Hernanes sempre jogou no São Paulo foi realmente diferenciada. O caso dele me lembra o do Giovanni (ex-Santos) e do Riquelme, pretendo escrever um texto sobre isso 😉

    1. Todo jogador rende mais quando se sente em casa. Mas Hernanes também foi idolo na Lazio. Ademais, não teve vida mansa em sua primeira passagem pelo SPFC. Muito pelo contrário. Várias vezes foi questionado, pagando o preço por ser mais explorado que ajudado pelos técnicos. Tinha que ser volante e meia-atacante ao mesmo tempo. Quando estava inspirado arrebentava. Mas nem Messi e Cristiano estão sempre inspirados, quanto mais um jogador talentoso, porém terráqueo.

  4. Comparação infeliz. Hernanes foi bem na Lazio, e depois só ladeira a baixo. Veio pro Brasil pra mostrar o serviço que a uns 5 anos sempre esteve devendo.

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