Jogo dos sete erros no Camp Nou

Créditos da imagem: Montagem / No Ângulo

Por que não estou surpreso? Os quatro dias constrangedores da diretoria do Barcelona, culminando com a demissão de Ernesto Valverde, são mais um capítulo da máscara caída do “diferenciado” clube catalão. Não tem “mais que um clube”. O Barça é mais do mesmo. Ou menos do mesmo. Aqui vai uma lista dos adversários internos que, ao lado dos outros clubes, vêm enterrando os planos de se aproximar do rival madridista na coleção de “orelhudas”. Nem dá para dizer que se trata de apontamentos polêmicos, de tanto que saltam aos olhos.

1 – o incompetente com sorte – sabem aquela do presidente interino medíocre que faz dois ou três acertos (em meio a bobagens), ganha um título, reelege-se e depois a conta chega com juros? Sim, nem isso tem acontecido no meu tricolor, mas foi o infortúnio culé. José Bartomeu assumiu a presidência após a renúncia/prisão de Sandro Rosell. Já fez besteiras de cara (vide o lateral Douglas), mas se deu bem com Luis Enrique no banco e com a formação do ataque com Messi, Suárez e Neymar – com os riscos de trazer o uruguaio após a mordida. O time do trio MSN levou a tríplice coroa e Bartomeu foi reeleito. Foi a deixa para mostrar que a sorte detesta quem brinca com ela. Principalmente após ajudar quem não a merece.

2 – a “estrutura mágica” – essa a dupla SPFC/Milan conhece bem. Chega um momento em que determinados clubes acreditam ter encontrado o plano infalível contra a Mônica. No caso do Barcelona, a fórmula seria a junção de craques com os garotos de La Masia, comandados por um técnico com “DNA do clube”. Deu certo com Cruyff, deu certo com Guardiola e deu certo com Lucho. Então é só repetir, celto? No caso de Valverde, a despeito dos títulos nacionais, as coelhadas de Roma e Liverpool (coincidentemente, com uniforme da mesma cor do vestido da Mônica) deram o fim tradicional à historinha.

3 – falando na base… – no começo da década passada, houve uma partida em que o Barcelona teve todos os jogadores formados em suas canteras. Uma geração espetacular (Xavi, Iniesta, Piqué, Fàbregas e o próprio Messi, entre outros) fez torcedores, dirigentes e jornalistas acreditarem que sempre seria assim. Só que não. As safras seguintes entregaram pouco pé de obra. Na década de 2010, apenas Sergi Roberto chegou a ser titular absoluto – ainda assim, em posição diversa da que atuou no Barcelona B. Nomes como Ansu Fati e Puig prometem mudar isso, mas por ora são exatamente o que o verbo indica: boas promessas.

4 – o outro incompetente com sorte – Ernesto Valverde foi chamado após trabalho elogiado no Athetic Bilbao, porém jogando bem diferente do futebol de posse de bola e toques. O que prevaleceu, adivinhem, foi ter sido atacante – sem relevância – no Barcelona. O time disparou em La Liga e seguia invicto na Champions League até a partida de volta com a Roma. Mas pelo menos um dígito de partidas teve resultado muito diverso do sugerido pelas atuações. Em grande parte, graças à tríade Stegen-Messi-sorte. A Roma foi para o abafa e aproveitou os buracos. Valverde assistiu a tudo inerte. No ano seguinte, mesmo com desfalques seríssimos, o Liverpool fez o mesmo em Anfield. Não há sorte que resista ao azar engordado com tanta sopa.

5 – o dono do time – tem um jogador que faz o que bem entende e não é repreendido, nem quando perde o foco com seus compromissos comerciais. Messi? Não. Piqué. O zagueiro só não foi o melhor da posição em 2018/2019 por conta de Van Dijk. Mas, não bastasse a perda de foco com a questão política da Catalunha, resolveu ser um dos investidores da nova Copa Davis, com todo o desgaste negocial (e físico, com idas e vindas ao local da disputa) que isso acarretou. Não por coincidência, tem cometido erros de posicionamento e divididas em derrotas como a da Supercopa. Precisa haver alguém capaz de lhe dizer “menos” em espanhol e catalão.

6 – a alegria do shopping – dizem os maldosos: a mulher compra o que não precisa pela metade do preço; o homem compra o que precisa pelo dobro do preço. O Barcelona não se atém a questões de gênero. Vai logo com as duas alternativas. Na busca pelo substituto de Neymar, já deve ter gastado mais que o dobro do que recebeu do PSG. Dembelé só se machuca e não desce à Terra. Coutinho desapontou e foi emprestado. Griezmann vem se esforçando, mas numa faixa de campo em que fica pouco confortável. Não é à toa que ainda falam na volta do próprio Neymar. Enquanto isso, o elenco segue sem reservas para Piqué, Busquets e Suárez. “Pechinchas” como Mina e Prince Boateng mal entraram em campo e logo zarparam.

7 – pré-temporada nas nuvens – torneios preparatórios locais, como o Tereza Herrera, viraram coisa do passado. Os clubes europeus fazem tours atrás de dinheiro. Ou vão para os EUA. ou para a Ásia. O Barcelona quis tudo de uma vez. Viajou mais, treinou menos e estreou na Liga totalmente fora de forma. Os efeitos maléficos só foram disfarçados no fim de setembro, quando – também adivinhem – Messi estreou após lesão. Ainda assim, como consequência do despreparo, as contusões do elenco estão se dando acima da média. E mal chegamos ao semestre decisivo.

A incompetência crônica dificilmente é recompensada no final. Restou se ater à exceção. O Real Madrid vinha de grandes erros na temporada 2015/2016, especialmente com a escolha do ultrapassado Rafa Benitez. Chutou o pau da barraca, efetivou Zidane e, surpreendentemente, terminou a temporada campeão europeu, além de apenas um ponto atrás do Barcelona no Campeonato Espanhol. Contudo, exceções também são o que o substantivo indica: exceções. Setién, de trabalho elogiado e conquistas ignoradas, precisará entrar para a História. Tem elenco (embora com lacunas). Tem Messi. Tem a torcida a seu lado (desde a tragédia de Anfield o queriam). Mas não tem tempo. Vai ter que ser com ajustes básicos, reforçados por altas doses de superconcentração e doping emocional. Coisa que, até pela cara de hiena Hardy, Valverde não tinha como dar.

Em tempo: dependendo do que acontecer, provavelmente o Barcelona recorrerá a outra conversa com Xavi e seu DNA culé. Por ora ele recusou educadamente. Provavelmente, salvo amplos poderes, recusaria de novo em maio. É crítico público de Bartomeu, que nem mencionou seu nome na entrevista de ontem. Ponto para Xavi.

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