Lacrofone – haja ouvido, amigo(a)!

Créditos da imagem: Divulgação

Hebe Camargo foi um dos mitos (mites?) da televisão brasileira. Mesmo sem cursar o ginásio, não agredia a língua portuguesa. Não gritava pra dominar as plateias. Certa ou errada, nunca foi escrava de patrulhas. Agora esqueçam as lembranças. Imaginem Hebe tentando fazer a carreira imitando Sílvio Santos, Chacrinha e Faustão. “OOOOOOIIIIIII!!!!”, “Teresinha!!!!!!!!!!!”; “Ô loco, meu!!!!”. Acham que teria dado certo? Sem chances. Seria, como ela mesma disse a Bento Ribeiro sobre sua dancinha de robô, uma b…!

Por que estou falando de Hebe num site de esportes? Porque, se ela não teve que imitar homens, por que as locutoras de futebol precisam? Por mim, tudo bem terem chances. Os marmanjos andam explodindo tímpanos e paciências. A Globo resolveu incentivar os berros sem dicção de Luís Roberto (“xabidiquem?????”). Como desgraça pouca não é Brasil, ainda investiu na histeria sensacionalista de Gustavo Villani. Você não sabe se é um jogo ou um programa policial. Falando nisso, Datena voltou a narrar na Band. André Henning é a gralha da TNT. Na ESPN, cismaram que Rogério Vaughan tem que ser a voz dos gols espanhóis. Vai ver foi por isso que eles entraram numa draga. Então o problema não é que os homens devem narrar por decreto. É querer revogar o decreto do barulho com mais barulho. Na sopa de nomenclaturas de hoje, já me pergunto: querem ser locutoras ou locutores trans?

A primeira tentativa veio com Luciano do Valle, no século passado. A selecionada foi Luciana Mariano. O telespectador do campeonato feminino torcia pra seu time ganhar de um a zero. Ouvir um “goooooooolllll do SÃO PAAAAAAAAAULOOOOO” era martírio suficiente. Luciana não desistiu e agora está na ESPN. Ganhou companhia. As parceiras de locução não desafinam como a ex do saudoso Bolacha. Só que, pra isso, desenvolveram técnicas de modulação que deixam todas as vogais afetadas. “O” vira “U”, “A” vira “O” e assim sucessivamente. Parece um concurso bizarro de imitações de José Silvério. Este, ao menos, sempre teve (ou tiveram por ele) noção de que, na TV, sua técnica viraria meme. Já elas estão protegidas. Qualquer crítica (incluindo esta coluna) vira “machismo tóxico”. Danilo Mironga não tem lugar de fala. Nem de berro.

A chegada de mulheres ao microfone poderia trazer questionamentos úteis. Primeiro: onde está escrito que locutor precisa gritar “Gol”? Silvio Luiz não se submetia e não foi o único. Fernando Solera nem levantava a voz. Não precisa. O ouvinte está vendo que foi gol. Ou que não foi gol. Pois é, agora tem berraria até com gol anulado. Depois culpam o bandeira por não serem capazes de urrar e olhar a imagem ao mesmo tempo. A narração televisiva tem que ser uma companhia agradável, informando e compartilhando a emoção. Nem menos, nem mais emocionante do que está na tela. O telespectador não é idiota. Sabe que o jogo do Brasileirão é um porre. Não é por causa de um turbilhão de decibéis que vai mudar de opinião. Muito menos um berro afetado. E, convenhamos, ainda um tanto desafinado. Que tal fugir dessa ditadura?

Há quem tente chamar de sociais as distinções da biologia. Mas homens e mulheres são diferentes, dona Fátima. Na voz, isso é quase sempre indisfarçável. Acredito mesmo que uma mulher pode narrar uma partida no mesmo nível – ou melhor – que o de um homem. Mas não desse jeito. Ao tentarem copiar em vez de criar, fica parecendo o que realmente é: lacração no lugar de evolução. A ponto de eu duvidar que telespectadoras suportem. Que tal uma pesquisa? Topo até Datafolha. Afinal, vou ser cancelado de qualquer jeito…

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