Copa América no Brasil: O presidente e O eleitor

Créditos da imagem: Montagem / No Ângulo

Não deveria surpreender a rejeição à Copa América no Brasil. Mesmo apoiadores do presidente devem estar travando batalhas mentais violentas. Antes mesmo de se falar em pandemia, o eleitor rubro-negro tinha motivos para odiar a competição. Desde 2020 já sabia que, ao contrário do ano anterior, o calendário do futebol brasileiro não seria paralisado com o torneio sul-americano. Que torcedor não fica felicíssimo ao perder meio-time por quase um mês? E o que acha de quem resgata a competição justamente quando estava em vias de não acontecer? Se o torcedor bolsonarista não tinha razão pessoal para rever seu posicionamento (tipo mortes…), agora tem.

Embora alguns jornalistas tentem ver planejamento nas atitudes do presidente, não faltam exemplos em que faz primeiro e pensa depois – quando pensa. É possível que o papel de garantidor da Copa América seja um destes casos. Talvez, dentro de sua dificuldade com mudanças, ainda pense que o brasileiro não troca a seleção por nada. Antigamente era assim. Não deve ter havido grande clube imaculado por convocações fora de hora. A torcida relevava porque seleção brasileira era prioridade. Só que não mais. Se até Galvão criou o bordão de que o torcedor “quer se apaixonaaaaar pela seleção”, é porque não estava (e não está) tão afetuoso com a camisa amarela. Há quem passe longe dos 7 a 1 no Youtube, mas existe quem adore rever a surra alemã. E não só pelo desespero do locutor.

Não é exagero dizer que pelo menos 70 % dos torcedores de clubes anseiam pelo cancelamento da Copa América-2020 há muito tempo. Fosse no Brasil ou em Suriname. Afinal, não é apenas o Flamengo o afetado. Tampouco é apenas a seleção do país que tira jogadores do seu time. Com a circulação de estrangeiros sul-americanos pelo futebol nacional, é difícil que não sejam convocados. Não chega ao desnudamento total que a Data FIFA causa a clubes europeus. Só que, tirando o risco de lesões, os times da Europa não perdem atletas. Todas as competições param – de verdade, não com um jogo no dia seguinte. O brasileiro tem o pacote completo. Mesmo sem perder jogadores contundidos, sabe que não estarão em partidas importantes. Como se apaixonar por isso? E como não odiar quando as partidas perdidas quadruplicam?

É por conta deste desgosto que descarto o gesto presidencial como agrado aos eleitores em geral. Ou se trata de mais um desvio de atenções, ou o agraciado é um apoiador realmente único: Sílvio Santos. Na metáfora preferida do presidente, seu casamento com SS é de extrema conveniência. Adular o SBT é parte infantil do costume nacional de falar mal da Globo. Por sua vez, o homem do Baú sempre foi um ás na arte do “se hay gobierno soy a favor”. Sim, a Vênus Platinada seguia o mesmo rumo, inclusive com o golpe de 1964. Porém, ao mudar de postura (por convicção ou falta de opção), deixou um campo aberto ao concorrente histórico. Antes o adesismo rendia sobras ao SBT. Agora o prato é o principal. Incluindo a chance de pedir socorro quando um desastre financeiro se aproxima. É, pois sim, o que o cancelamento da Copa América significaria.

Depois de esforços passados, o SBT capitulou frente ao poder da Globo no futebol. Preferiu seguir com suas contribuições inestimáveis à cultura nacional, como programas de auditório e novelas mexicanas – fora o Chaves, esse sem ironias. Mas o cenário mudou. Por motivos financeiros, a Globo vem abrindo mão do controle esportivo de outrora. Até a F1 voltou à Bandeirantes, 41 anos depois. No futebol, hoje a emissora fluminense tem, além da Copa do Mundo, os jogos do Brasil como mandante nas eliminatórias, o Brasileirão, a Copa do Brasil e alguns estaduais. O SBT, sentindo-se empoderado, estreitou laços com a Conmebol. Já tinha a Libertadores e garantiu a Copa América. Com ela, engatilhou anunciantes por semanas. Se o torneio for cancelado, Sílvio erguerá a taça dos prejuízos. Hora de lembrar o bordão de evento da rival: “na vida é tão bom ter amigo”. E que amigo.

Talvez o presidente se arrependa de tal lealdade. A rigor, o suporte do SBT rende a mesma coisa que as redes sociais: manter o apoio de quem já o apoia. Futebol e política não deveriam se misturar, mas o governo fez a escolha contrária – como o anterior também fez. Só que, para o torcedor, nem mesmo um patrocínio de aliado, ou até um estádio facilitado, compensam a irritação por ver um governo salvar o que gostaria de ver enterrado. A Copa América nunca precisou de um vírus para ser um estorvo. Ela já é um vírus. Vai ver é isso: ao contrário do que dizem os críticos, o presidente é tão ecológico que protege as mais rudimentares formas de vida.

2 comentários em: “Copa América no Brasil: O presidente e O eleitor

  1. Deixe de ser hipócrita, porque não tinha esta rejeição toda quando ela estava prevista para acontecer na Argentina e Colombia? Estão esperneando porque quem transmitia ela perdeu a ela. Por este seu comentário a Libertadores, a SulAmericana, o Campeonato brasileiro, a Copa do Brasil também deveriam parar, ai ninguém esperneia né? A globolixo transmite todos estes torneio dai ficam quietinhos, quem esta falando contra a Copa América aqui não passa de um imbecil e hiócrita

    1. O texto mostra justamente que, ao contrário do que sua lacrada “do bem” quer instituir, a Copa América já seria um estorvo com ou sem Bolsonaro e que a revolta tem mais a ver com ele ter salvado a competição para ajudar um aliado. Sua falta de respeito não me interessa. É problema de quem é obrigado a conviver com ela.

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