O campeão voltou… ao (preocupante) normal

Créditos da imagem: Rubens Chiri

Dois pontos em cinco jogos. Um gol marcado. Após priorizar um campeonato estadual, o São Paulo tem dificuldades para tirar a fantasia de Botafogo. Superficialmente, o fato de o sorteio colocar o Racing como adversário das oitavas de final na Libertadores causou a impressão de ter dado na mesma ser primeiro ou segundo do grupo. Mas seria tão simples se fosse tão simples. O mal de tratar o Paulistão como “Copa do Mundo” começou na primeira rodada e mandou a conta tão logo crianças e adultos choraram com a taça. Conta salgada e crédito a perigo.

O São Paulo resolveu ser como os chineses da tirinha clássica da Mafalda. Enquanto os outros descansavam, seguiu trabalhando. Só que, na América do Sul, o sol nasce quase ao mesmo tempo para todos. Quis ficar acordado? Agora vai passar o dia (ou melhor, o ano) acumulando lesões e se arrastando. Nada que não fosse previsível. Do retorno da pandemia em julho de 2020 até o apito final contra o Flamengo pela última rodada do Brasileirão passado (já em 2021), o SPFC fizera 53 partidas por Paulistão, Brasileirão, Libertadores, Sul-americana e Copa do Brasil. Quando terminou a final do Campeonato Paulista, foram mais 21 (16 do Paulistão e 5 pela Libertadores). Como ainda fechou a primeira fase da Libertadores contra o Sporting, estreou no Brasileirão com 75 jogos sem folga. Já não está sendo fácil para os outros, pois duas semanas não bastam para recuperar o físico. Para o SPFC, é simplesmente impossível não se arrebentar*.

Mas o São Paulo tem problemas que vão além de sua relação com Morfeu. Crespo fez cursos da Itália, mas a menina de seus olhos é o futebol dos anos 2000. Mais precisamente, com 3-5-2 espalhado em campo – não confundir com a versão compacta de times como o campeão europeu Chelsea. Pena que, quando se busca soluções no museu, os adversários podem recorrer ao manual para lidar com elas. Nos confrontos contra equipes mais consistentes (começando pelo Racing), o São Paulo foi encaixotado e só conseguiu atacar com cinco jogadores. As notícias se espalham e logo todos começam a fazer o mesmo. Percebendo o entrave, o treinador passou a fazer experiências para aumentar o sistema ofensivo. Combinando esta dificuldade com as lesões, inventou até Reinaldo na zaga. As dificuldades na frente continuaram e o desequilíbrio defensivo aumentou.

Como se não houvesse com o que se preocupar, Daniel Alves resolveu mostrar por que as torcidas de seus outros times ora o adoravam, ora o repudiavam. No seu egocentrismo tradicional, colocou o até então desconhecido sonho olímpico acima do clube. O que, de imediato, gerou o argumento “que moral o São Paulo tem para não pagar o jogador e impedir que jogue as Olimpíadas?”. Não tem moral, porém há um contrato. O jogador profissional tem duas alternativas: cumpri-lo ou buscar a via judicial em caso de calote. O clube, por sua vez, pode pagar o que deve ou, na impossibilidade, buscar um fim amigável para a relação. Ficar submisso a um atleta é ruim para todos, incluindo o restante do elenco. Daniel irá ao Japão enquanto o resto (incluindo o medíocre Liziero, preterido por Jardine) ficará aqui, ralando nas competições com o time no Z4. Que líder maravilhoso ele é…

Com seus atletas cansados e perdendo o doping emocional da confiança, bem como sabendo que terá que negociar cento e oitenta milhões de reais em atletas (ou terminará o ano sem as calças), a diretoria descobre que a marmota pode até ter resolvido dar um passeio por aí, mas já está a caminho de voltar à toca. Os sorrisos amarelam e as lágrimas se tornam de raiva ou tristeza. A bola pune e a inconsequência pune mais.

*Esta coluna, conscientemente, desconsidera os 12 dias entre a paralisação determinada pelo governo paulista (11 de março) e a volta aos treinos (23 de março). Primeiro, porque não foi uma parada planejada. Segundo, porque o retorno dos jogos se deu com intervalos de 48 h, o que por si anulou qualquer refresco físico oriundo da breve pausa.

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