Lucas Moura, o jogador invisível

Créditos da imagem: Sky Sports

Lucas Moura deixa o PSG para atuar no Tottenham. Não para ter chance de ir à Copa. É tão somente uma tentativa de voltar a existir no futebol. Após chegar a Paris como uma das contratações mais caras de 2012 (logo depois de explodir de vez no São Paulo), Lucas entrou em gradativo processo de desaparecimento, até ser apagado da lista de futuros craques de sua geração. Veio dinheiro. Vieram alguns bons momentos. Mas vieram as oportunidades perdidas. A gota d’água foi o desastre do Camp Nou, em 2017. Deveria aproveitar os espaços deixados por um Barcelona em desespero. Nem voltou para o segundo tempo, tal a tremedeira. Como na música, sai sem alarde, com a sensação de que já vai tarde.

Mas como as coisas puderam dar tão errado? O que faltou para o xodó da torcida brasileira ir adiante? Acima de tudo, personalidade. A mesma que já o havia deixado de fora do time titular dos Jogos Olímpicos. Lucas decidiu contrariar outra canção e esperar acontecer. Quando chegou ao PSG, foi visto como um jogador que estaria pronto em um ou dois anos. Passaram-se cinco e continua parecendo uma revelação dando os primeiros toques e chutes. Pensava-se que jogar na Europa cedo lhe traria noções táticas que não tinha no SPFC (não só ele, pois basta ver outros ex-tricolores, como Ganso, cujas verdadeiras funções são discutidas até hoje). Não foi o que ocorreu. Ele continua com um repertório técnico dos mais raros, mas dando a impressão de que não sabe utilizá-lo. É, como disse um usuário do FOMQ (um fórum são-paulino) há três anos, um adolescente assustado jogando com adultos.

Muitos dirão que Lucas nunca foi tudo isso. Apenas outro jogador rápido e de cabeça baixa. Discordo. Quem o viu no São Paulo sabe que tinha (e imagino que ainda tenha) visão de jogo para dar passes inesperados. Conseguia dar uma arrancada e não perder o controle na hora do passe – ao contrário de muitos que disparam com a bola e depois soltam um tijolo pro companheiro. A resposta do fracasso futebolístico, a meu ver, está muito mais em outro ponto: ele só ganha confiança quando acerta os primeiros lances. Pode vir de uma partida espetacular e, se errar os primeiros toques e dribles no jogo seguinte, vai sumir. É, repito, postura de juvenil. Ninguém entra inspirado sempre. Nem Messi, Cristiano e Neymar (cujo nível Lucas não atingiria jamais). O jogador profissional deve encontrar meios de produzir também quando não está em grande dia. Lucas nem procura. Esconde-se.

Dá tempo para modificar o estancamento? Possivelmente. Lucas tem 25 anos. Com essa idade, até um jogador comum ainda pode evoluir. Mas está chegando ao limite. A ida ao futebol inglês, num clube do primeiro escalão, é uma mudança mais que necessária. Lucas fez o certo ao não aceitar clubes médios da Espanha, pois lá seria apenas um mero ponta de contragolpes, num campeonato em que dezoito times são preparados para não tomar a iniciativa dos jogos – óbvio efeito de conviver com Real Madrid e Barcelona. Os Spurs de hoje praticam um futebol leve e rápido, com um dos melhores técnicos do mundo. Lucas pode acrescentar qualidade atuando pelas pontas ou fechando com dribles e enfiadas para o artilheiro Kane ou o ótimo Dele Alli – um Luan bem melhorado. Mas nada disso vai se concretizar se esperar que tudo isso venha “naturalmente”. Só o banco.

Seria muito triste ver um talento como ele voltando, melancolicamente, ao futebol brasileiro. Ainda mais porque, quando não tiver a mesma velocidade e se continuar imaturo, nem mesmo no país será destaque. Terá lampejos até geniais, com direito a matérias sobre voltar por cima e tal. Casagrande e Caio talvez sugiram sua convocação num jogo do Campeonato Paulista. Mas, em seguida, sucumbirá às lacunas não preenchidas em anos. A chance de Lucas evitar este Natal futuro é agora. Tenho até uma sugestão para tratamento de choque: colocar, na tela do celular, uma foto de Maicossuel com os dizeres “eu sou você amanhã!”. Se nem isso resolver, já era para quem chegou a ser chamado, não sem motivo, de bólido humano. Fundiu o motor…

9 comentários em: “Lucas Moura, o jogador invisível

  1. Eu concordo que ele tem algumas qualidades bem raras. Destaco a arrancada lúcida e o chute forte de fora da área. Mas, fora isso, não gosto do seu futebol, e sempre o achei meio sem leitura de jogo, meio limitado a explorar os diferenciais técnicos que tem.

    E o pior é que achei a comparação com o Maicossuel interessante mesmo! Como você sempre diz (e eu concordo inteiramente), capacidade técnica não é tudo, e acho que o Maicossuel tecnicamente é mesmo muito interessante! Mas, de resto…

  2. Concordo. Lucas tem (tinha?) potencial e capacidade técnica para ir mais longe. Parecia até ter personalidade. Infelizmente não se firmou e viu uma grande onde de bons atletas brasileiros ocuparem seu espaço.

  3. Fosse eu dirigente do Tottenham e sequer teria cogitado essa contratação. O Lucas é “apagadinho” demais, embora com boa capacidade técnica. Tomara que eu erre (mesmo!), mas imagino que não vingue na Liga Inglesa, muito mais competitiva do que a que ele estava, inclusive. De qualquer forma, é uma tentativa e ele ainda tem idade para correr atrás de aprimorar o seu jogo (um tanto individualista e por vezes burro, no sentido de escolher as jogadas erradas).

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