Nem descalço, nem de salto

Créditos da imagem: UOL

A forma como muitos jornalistas estão tratando os resultados de ontem na Libertadores mostra bem a “humildade” brasileira. Como, perder para o Racing na Argentina? Empatar com um time uruguaio na estreia?

Nelson Rodrigues é um dos ícones da cultura brasileira, inclusive na crônica esportiva. Mal enxergava o jogo, por miopia. Mas tinha um talento raro para sentir as nuances e antever fatos. Foi ele, por exemplo, que em 1958 já decretou Pelé como Rei. Contudo, seu formidável legado deixou duas sementes do mal. A primeira foi que diversas nulidades resolveram escrever colunas esportivas de cunho literário. Um porre. A segunda foi a banalização do termo “complexo de vira-lata”. Posso apostar que, estivesse vivo, ele teria feito uma grande crônica anunciando que o brasileiro trocou de complexo: agora é o de pitbull. Avança ferozmente contra qualquer crítica, como se fosse traição à Pátria. E se proclamando humilde.

Nelson Rodrigues cunhou o complexo de vira-lata como reação contra a ignorância. Isso ia além dos esportes. Quando não havia internet e fartura de informações, umas poucas pessoas se declaravam arautos do conhecimento e, para tanto, não hesitavam em descascar o que era feito no Brasil – mesmo se tratando de uma época culturalmente fértil. Como poucos tinham acesso ao que realmente ocorria no exterior, vários caíam na conversa. Isso se agravou quando veio a Copa de 1966 e, incrivelmente desorganizado, o Brasil deu vexame. “Viu? Não falei? Fomos superados! Pelé não é nada! Viva Beckenbauer e Bobby Moore! Até os nomes dão banho na gente!”. Foi em resposta a esta tese, bem mais oportunista que oportuna, que Nélson teve a grande sacada. Tanto estava certo que, na Copa seguinte, a seleção se sobressaiu técnica, física e taticamente. Vira-lata o c…

Porém, já na década de 1970 sintomas preocupantes apareceram. Chegavam notícias de inovações aparentemente autênticas, como o futebol praticado pelo talentoso Ajax e seu astro Cruyff. Preferimos ignorá-las com desprezo. “Ih, lá vêm os caras elogiando gente de fora. Holanda? Tenha dó! É complexo de vira-lata mesmo. Não temos que aprender com ninguém!”. Enquanto o jogo ficava mais dinâmico, o futebol brasileiro praticava aquele futebol modorrento que os videotapes da TV Cultura (depois no Youtube) não deixam mentir. E sabem o pior? Nem o baile tomado adiantou. Em vez de admitir a estagnação, muitos comentaristas atribuíram a derrota a uma suposta perda de identidade. “Quiseram copiar os europeus e perderam a magia!”. Só para lembrar o primeiro parágrafo: estamos falando de um povo que se autodeclara humilde.

Nas décadas seguintes, o carrossel não foi repetido. Cada lado (em especial Europa e América do Sul) tomou caminhos diferentes, com eficiência similar (como as Copas e Mundiais de Clubes sugeriram). Porém, ainda no final da última década, um treinador novato resolveu implantar algumas coisinhas que, numa dessas, mexeram com todo o cenário ao redor. Seja para jogar parecido ou ser a antítese, o Barcelona de Pep Guardiola revolucionou o futebol. Zagueiros quase na linha do meio-campo. Um volante. Dois armadores. Falso nove. Posse de bola. Mesmo com os campeonatos europeus já sendo televisionados, nada disso era comentado no Brasil. Às vésperas do Mundial de Clubes, tinha jornalista achando que era só a bola chegar em Neymar e Ganso para a “empáfia” (sim, já os definiram como arrogantes sem sequer conhecê-los) europeia acabar. Pois é…

Enquanto isso, por aqui, quem procurava conceitos do futebol europeu (ainda que fossem os usados para enfrentar Guardiola) era alvo de chacota. Surgiu o “titês”, termo jocoso para o estilo de Tite. Sem pachequismos e verdadeiramente disposto a aprender, o “teórico” levou seu Corinthians à europeia a vencer o campeão europeu (tudo bem que o Chelsea teve uma sorte danada na Champions League, mas vá lá). Não foi bem essa, porém, a leitura. “Viu? O que o Barcelona fez foi atípico! Não devemos nada aos gringos! É Brasil!!!!”. O otimismo aumentou com a seleção vencendo a Copa das Confederações. Ai de quem lembrasse os maus resultados anteriores, bem como o fato de que a Espanha andou em campo (cansada de uma prorrogação na Bahia). “É complexo de vira-lata, mesmo! Felipão ajeitou tudo sem imitar gringo! É nóis (sic) na Copa!” Era mesmo, amigo?

Foi neste clima de agressividade contra críticas que chegamos ao fatídico 7 a 1 (quase 8 a 0, pois Özil perdeu oportunidade clara logo antes do gol de Oscar). Não, evidente que o placar não representava a real distância entre o futebol de Alemanha e Brasil. O que aconteceu foi um acesso de pânico, como o vestibulando que acreditava estar com a matéria na ponta da língua e, na hora, descobriu ter estudado pra prova errada. Depois da modesta Croácia na estreia (vencida com um pênalti cavado), a Alemanha foi o primeiro adversário europeu. Subitamente, os atletas viram o atraso tático do futebol que “não tinha que provar nada a ninguém”. Travaram. O normal teria sido perder por dois ou três gols. Com sorte, até um. O que, sem Neymar, geraria uma sensação de consolo. Neste contexto, foi melhor que tenha ocorrido uma surra daquelas. Sem ela, seria mais difícil entender a necessidade de mudar.

Mas quem disse que foi simples? Mesmo apanhando, alguns policarpos se recusavam a capitular. “O time começou bem o jogo” – disse Leandro Quesada, com incrível cara de pau. Ainda encontraram forças para acusar as críticas de, adivinhem, complexo de vira-lata. Tanto que, em vez da óbvia contratação de Tite, deram outra chance a Dunga. Foram precisos dois desastres na Copa América e ver a seleção fora da zona de classificação à Copa para, enfim, capitularem. Chamaram aquele que, no lugar de zombar do conhecimento externo, foi aprender com ele. E os resultados, pasmem, vieram. Mas treinadores como Tite ainda são exceções. O normal é um medalhão, como Levir Culpi, afirmar que o futebol inglês é jogado como há trinta anos. Ou um Luxemburgo decretando que não houve nenhuma novidade no futebol nas últimas décadas (exceto as que ele trouxe).

Como se vê, o caminho é longo e o recurso do “complexo de vira-lata” é uma arma nas mãos de quem não tolera questionamentos. Não estamos nos tempos de Nelson Rodrigues. Ninguém precisa confiar ou desconfiar da informação alheia. Basta ligar a TV (ou o computador, tablet, smartphone) e ver por si. Como enaltecer ou relativizar o que o outro faz sem ver seu trabalho? Pode-se teorizar que a superioridade dos times europeus se deve aos melhores e caros jogadores. Faz parte do debate. Mas por que não assistir aos jogos e conferir se há algo além disso? Também faz parte. O Brasil é o Brasil do futebol porque ganhou mais que qualquer outro. Se quiser continuar assim, tem que esquecer os complexos e focar na autocrítica. Isso sim, é ser humilde.

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