Dando um nó em si mesmo – o técnico que decidiu… para o adversário.

Créditos da imagem: Cesar Greco/Ag. Palmeiras

Dizem que errar é humano e persistir no erro é burrice. Persistir 20 anos depois vai além de metáforas com animais. Até porque beira a expectativa de vida do burro, que é de 25 a 30 anos. Considerando que Vanderlei Luxemburgo já treinava – e era campeão – no Bragantino em 1989, a comparação realmente não se sustenta. Por que estou mencionando isso? Porque o mesmo erro tático na escalação de ontem, que facilitou enormemente a vida do São Paulo de Diniz, foi cometido em 15 de agosto de 2000, em Santiago. O castigo foi ainda mais cruel: 3 a 0 para a seleção chilena.

Semanas antes daquela partida, a seleção vencera a Argentina no Morumbi. 3 a 1. Venceu e convenceu, mas os louros da vitória não foram para o treinador. A despeito dos dois gols de Vampeta e da noite inspirada de Ronaldinho Gaúcho, quem saiu aclamado foi Alex. Só não deu para ouvir mais a aclamação porque, quando o craque veio a ser substituído, o estádio foi dominado por gritos de “burro” contra o técnico. Eu lembro bem porque estava lá. Como 99,99 % dos presentes, participei da “homenagem”. Não satisfeito com os aplausos dos jornalistas na entrevista coletiva, Luxemburgo resolveu mostrar sua capacidade tática no confronto seguinte das eliminatórias. Colocou Djalminha como falso atacante, ficando só com Amoroso na frente. Assim, controlaria a partida congestionando o meio-campo. Faltou, adivinhem, combinar com os russos. Ou melhor, os chilenos.

No Estádio Nacional, Amoroso ficou isolado. No campo palmeirense, foi a vez de William. Com uma diferença óbvia: a seleção atuou como visitante. O Palmeiras era o mandante. Com mais elenco e contra um rival que nunca vencera no Allianz. Ainda assim, a “síndrome do nó tático” falou mais alto. A mesma que assolou Pep Guardiola na Champions League. Quando um técnico resolve aparecer mais que seu time, mesmo que o trabalho seja de qualidade inequivocamente melhor, gera o risco de pagar pela soberba. No caso de Luxemburgo, nem dá para dizer que seu trabalho é inequivocamente melhor que o de Fernando Diniz – o que, como meus leitores sabem, está longe de ser um elogio a este último. Diniz ainda é um aprendiz conhecendo suas lacunas. Luxemburgo é um veterano que se recusa a admitir suas lacunas bem conhecidas.

Como defesa padrão de sua teimosia, Luxemburgo diz que já fazia, décadas atrás, o que é feito no futebol de hoje. No século das narrativas, sobram propagadores. Se Diniz tem uma patrulha em seu favor, Luxemburgo pode se gabar de possuir um exército. Cada veículo tem uma leva de ex-atletas ou jornalistas antigos que o adoram. Não só na mídia. Rivaldo postou o mantra do visionário em rede social, só que não contava com a reação. Figo fez questão de responder que foi o pior treinador com quem trabalhou. Sim, lembranças da passagem de Luxemburgo pelo Real Madrid, em que seu 4-4-2 com três volantes naufragou. No caso do português, nem dá para dizer que o problema foi a língua – embota talvez Figo tenha sofrido para entender palavras como “projeto”. Luxemburgo chegou à maior seleção do mundo e ao maior clube do mundo. Justamente seus maiores fracassos.

Falando em narrativas, não faltaram e não faltam esforços para recontar a trajetória de Luxemburgo como técnico do Brasil. Recordam que ganhou a Copa América de 1999. Copa América em que muitas seleções não foram completas. O Brasil teve até a participação de Ronaldo. Foi, aliás, a grave lesão deste que expôs as dificuldades para encontrar uma formação estável sem ele. Nem Luxemburgo, nem Leão e nem Felipão resolveram. Mas nenhum irritou tanto como “Luxa”. Primeiro, pelas crises de vaidade – chegou a reclamar que Ronaldo não lhe telefonou do hospital. Segundo, pelas constantes mudanças e picuinhas. Só em terceiro veio a questão que tornaria a partida no Chile sua última na seleção. Sim, a falsificação documental que permitiu ao obscuro lateral Vanderlei se profissionalizar. Foi, com o fiasco olímpico, a gota d’água que transbordou a paciência geral.

Se há algo distinto na síndrome do nó tático atual para a de vinte anos atrás, é que naquela época Luxemburgo tinha domínio do trabalho, mas se perdia em confusões causadas por seus defeitos pessoais. Agora usa estas confusões como forma de disfarçar que não tem domínio do trabalho. Ao menos não como fazia. O Vanderlei (Wanderley?) até 2005 conseguia tomar a iniciativa dos jogos. Progressivamente, ao se recusar a ver o futebol além do umbigo, não conseguiu mais. Seu ressurgimento, exagerado pela trupe vanderlete, deu-se como um treinador de espera. Antes era a antítese de Felipão. Hoje são iguais, em atraso e meio de conviver com ele. O Palmeiras que o diga. Até quando dirá?

Um comentário em: “Dando um nó em si mesmo – o técnico que decidiu… para o adversário.

  1. Bom texto. E embora tenha colecionado sucessos como no Palmeiras de 1993, 94 e 96, e os fracassos como o do flamengo de 1995, e a fraca passagem na seleção brasileira, o Luxemburgo foi de fato, bom e ‘atual’ até 2003, quando ganhou a triplice coroa no Cruzeiro e 2004, no titiulo brasileiro com o Santos. Depois disso, foi ficando cada vez mais pra trás. É desnecessário lembrar da falta de titulo de Copa Libertadores, porque até técnicos piores, ou de nivel semelhante como o argentino Bauza, Celso Roth, Murici Ramalho, e Abelão Braga já ganharam titulos de Libertadores. O Murici inclusive, antes da conquista de 2011, também tinha a ‘fama’ de pé de iceberg nessa competição.

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