Neymar tenta driblar suas próprias escolhas

Créditos da imagem: Mehdi Taamallah/NurPhoto/Getty Images

Nessa terça, o PSG enfrentou o Real Madrid e foi eliminado nas oitavas de final da Liga dos Campeões. Era de longe o jogo mais importante da temporada para o PSG, e, portanto, de longe o mais crucial do seu projeto de ser o maior time do mundo.

E Neymar, o líder do time, estava… longe. Longe de Paris, longe dos companheiros, longe do projeto. Estava no Brasil, na sua mansão à beira-mar, aonde chega e sai apenas pelo ar. Ali está com os amigos, com a namorada e a família. Seus colegas de PSG, na hora do jogo não receberam um abraço de incentivo, um ombro, uma mão do principal jogador para ajudar a atravessar esse momento tão estressante. Mas, nos dias de hoje, no mundo conectado, a presença física não é tão importante. Ele poderia estar próximo virtualmente, para inspirar a equipe e os torcedores pelas redes sociais. Porém não estava. A não ser por aquilo que possa ter enviado privadamente, Neymar, um craque das redes sociais, estava desconectado. Exceto por um “Allez Paris” junto com um vídeo promocional do clube, não houve nem uma mensagem dele, no Instagram, no site oficial, no Twitter. Durante o jogo, isso não mudou.

Em comparação, dois dias antes, quando a namorada Bruna Marquezine foi visitá-lo em sua mansão de praia no litoral do Rio, Neymar fez questão de postar o momento de amor.

E não foi apenas isso. Neymar escolheu um diagnóstico brasileiro, um médico brasileiro e um hospital brasileiro para tratar de uma lesão acontecida em Paris. E depois escolheu se recuperar no Brasil. O jornal espanhol El País diz que os companheiros de PSG se sentiram incomodados com a decisão do seu líder de cuidar apenas de si.

Neymar tem o direito de fazer isso? Totalmente. A vida é dele e ele faz o que quiser. O ponto é outro. A questão é o que ele quer e o que ele quer ser.

Neymar trocou o Barcelona pelo Paris Saint-Germain com dois objetivos: tornar-se o maior jogador do mundo e tornar-se o jogador mais bem pago do mundo. O segundo ele conseguiu de cara. Neymar foi escolhido pela cúpula catari para liderar seu projeto de futebol, que inclui o PSG e a Copa de 2022. Além dos salários recordes pagos pelo clube, Neymar recebe para promover a Copa.

Quando chegou ao PSG, Neymar tratou logo de mostrar poder. Pediu e conseguiu Mbappé. Exigiu e conseguiu tirar de Cavani o posto de cobrador oficial de pênaltis –mesmo não sendo ele mesmo um grande cobrador. Em campo montou-se um time para que ele pudesse brilhar e carregar a bola à vontade –mesmo contra a cultura do futebol moderno. Não se importou em gerar conflitos com ídolos do PSG para mostrar que o time –e o vestiário- tinha um novo dono. Quis deixar claro que ele era um jogador não só diferenciado pela qualidade, como também pelo status, que tinha mais acesso ao presidente do que o próprio técnico. Que, enfim, mandava até no chefe imediato.

Abusou das demonstrações de poder. Conseguiu um feriado de fim de ano bem mais longo que os colegas e não ficou só nisso. O auge aconteceu na festa do seu 26º aniversário, há uns 20 dias. Foi uma festa de gala, black tie, trazendo dezenas de convidados do Brasil, escalando a equipe do PSG e até o técnico Emery.

Aí quando ele se machuca, todos esses aspectos perdem a importância. Some o Neymar “melhor do mundo”, desaparece o dono do time,  evanesce o pilar do projeto de futebol mais caro da história. Enfim, evapora a pessoa jurídica, o homem público, e ressurge o homem privado, preocupado apenas consigo mesmo, com sua recuperação, seu amor, sua felicidade.

Talvez as pessoas se lembrem de Romário, que agia exatamente assim. Talvez se lembrem de Ronaldo pós-2002, a partir do Real Madrid. Mas Romário não só viveu em outra época, em que a indústria do futebol e a conectividade –e portanto a força da opinião pública- eram muito menores, como era muito menos ambicioso. Romário queria apenas jogar, vencer, conquistar títulos, fazer gols e desfrutar da vida. Ninguém cogitou ou cogitaria em fazê-lo um ícone da indústria do esporte, como foi, por exemplo, Michael Jordan.

De pequenas cirurgias no rosto, a uma intensa fonoaudiologia e media trainings para lhe dar aquela voz grave de galã e aquelas declarações, Jordan foi executor disciplinado dos projetos de marketing, que levariam a torna-lo sócio da Nike na empresa Air Jordan. Além disso, Jordan foi o homem perfeito no projeto da NBA de se tornar uma liga mundial. O homem privado deu espaço ao homem público. Com Cristiano Ronaldo, do Real Madrid, aconteceu o mesmo numa medida menor.

Neymar não tem os hábitos polêmicos dos dois brasileiros, mas está ainda mais distante de Jordan ou Cristiano Ronaldo. E vive em outra época.

O maior jogador do Brasil precisa decidir se quer manter sua liberdade ou se quer ser um ícone da indústria do futebol e um líder dentro de campo –essencial para sua ambição de ser o melhor do mundo.

Se insistir em manter ambas, pode ficar sem nenhuma.

3 comentários em: “Neymar tenta driblar suas próprias escolhas

  1. Pegam muito pesado com o Neymar!!!! Ele se machucou, perdeu o jogo, então era olhar pra frente e tentar ficar tinindo pra Copa!!!!!!!! Quero ver a reação dos haters quando ele for o craque da Copa kkkkkkk

  2. Eu sinceramente tenho simpatia pelo Neymar e acho que muita gente cobra o Neymar por ele não ser exatamente como elas querem que ele seja. No final das contas, não tem inimigos no futebol, é comum que seus colegas e ex-colegas fazem bem dele etc.

    Mas concordo inteiramente com a sua excelente análise, Marcelo Damato, que é bem diferente de uma mera crítica comportamental. Se o objetivo do Neymar é ser um ídolo mundial, um representante do futebol, realmente não está sendo condizente e está faltando comprometimento. Fica em um meio termo…

Deixe sua opinião e colabore na discussão