(Re) apresentação e as diagonais de Fernando Diniz

Créditos da imagem: Mailson Santana/ FFC

Escrever este texto significa retornar à prática de um hobby prazeroso. O futebol sempre ditou o rumo de muitas escolhas pessoais e profissionais. O adolescente que em meados de 2013 iniciou os estudos efetivos sobre o maior esporte do país, foi pego pela velocidade da vida para ingressar cedo no mercado profissional.

Como escrever sobre futebol e tentar repassar algum conhecimento sempre foi visto com bons olhos por mim, quatro anos após deixar este espaço – já rumando para a ocupação de analista de desempenho e um ciclo de sucesso em um clube nordestino -, retorno ao No Ângulo consciente de que terei um espaço confortável para escrever algumas linhas sobre o jogo.

Tentarei, então, iniciar falando um pouco de Fernando Diniz.

Como trabalho mais autoral do futebol nacional, a forma que Diniz pensa o jogo desperta curiosidade e comparações. Por muito tempo foi tentado relacionar sua ideia com a de Pep Guardiola. Consciente das diferenças brutais, e que, talvez, o único objeto em comum para os dois idiomas seja o apreço pela bola – além do ser humano -, o atual técnico do Fluminense já descartou esse tipo de comparação em várias oportunidades. Mas além do caráter estético, e comportamentos gerais popularmente enaltecidos, as equipes de Fernando nunca foram compreendidas realmente.

Diniz acredita em tirar o máximo de cada atleta do elenco. Enxergar o ser humano como condutor para a execução da teoria na prática é o fato mais consolidado no campo subjetivo do futebol. Comunicar aspectos físicos, técnicos e mentais, e ainda mesclar todas essas nuances individuais com o coletivo é a maior tarefa de uma comissão técnica.

Para tanto, Fernando Diniz acredita em coragem. E ainda que agressividade não seja o ponto forte de suas equipes – abordaremos em seguida os porquês – é necessário esse sopro de autoconfiança para manter a bola e transpor pressões.

Não entrarei nos pormenores do seu modelo de jogo. Ainda que as fases de jogo se comuniquem, o momento ofensivo é o que prioriza o treinador. Sendo assim, o início de temporada guardou maiores conclusões para esta fase do jogo.

Jogo posicional x apoiado

Mencionei que havia diferenças brutais na forma em que Guardiola e Diniz organizam seus times. Vejamos. O técnico espanhol acredita em organização estruturada. Ou seja, o jogo de posição que suas equipes executam tem como base uma estrutura posicional. Levar a bola até o mais próximo do gol. Até zonas mais interessantes para o caráter técnico.

Ataque posicional do Manchester City de Pep Guardiola em 2-3-5. (Foto: Twitter/@Jozsef_Bozsik)

Buscando criar linhas de passes, em sua maioria, verticais, Pep tem o caráter posicional como maior fator desequilibrante. Buscar o homem livre às costas da defesa.

Já Diniz acredita em apoios. Na contramão da maioria que busca o controle do tempo e espaço, Fernando explora o máximo dos recursos técnicos de seus atletas; encurtando passes, aproximando jogadores no setor da bola e, consequentemente, dominando aquela área. E que se destaque isso: o controle do espaço como consequência do tempo das ações. O caráter interpretativo é quem desequilibra, somado ao técnico.

Fluminense aproximando até 6 jogadores no setor da bola. Time assimétrico.

A peculiaridade está na forma como organiza seus passes. Particularmente sempre acompanho o que está sendo debatido pelas pessoas que buscam estudar o futebol. E uma das críticas que rodeiam Fernando Diniz está justamente na ausência de opções verticais para progredir em campo adversário.

Mas assim como o caráter estratégico do jogo, as reais intenções estão sendo encobertas pelo livro abaixo do braço que parece ter a receita pronta para fazer futebol. Pois Fluminense, Audax, Oeste, Athletico Paranaense, Paraná e outras equipes comandadas pelo técnico passam a clara mensagem de controle do tempo. Fazer a coisa certa no momento certo é um traço histórico do brasileiro enxergar o futebol. Por isso a maior liberdade posicional, para despertar a criatividade imaginativa do atleta.

Seleção de 82 amontoando qualidade próximo a bola. Zico atacando-a com a qualidade de sempre, e abrindo espaço para a projeção nas costas de seu marcador.

Não é justo dizer que Diniz queira resgatar raízes. Mas seu jogo se baseia nesse tipo de ação. A imagem acima apresenta a Seleção que encantou todos. O time comandado por Telê Santana em 1982 apresentava movimentos semelhantes aos que assistimos atualmente no futebol. O apego às diagonais para progredir é um traço importante, por exemplo.

Essas diagonais atuam como guia do momento ofensivo para Diniz. Pois ainda que exista liberdade posicional para se aglomerar no setor da bola, o movimento cobrado é estar sempre em diagonal a ela.

Daniel como portador da bola encontra Ganso, Dodi e Luciano como apoios.

As escadinhas construídas em relação a bola possuem um objetivo. A ideia é ter sempre um jogador apto ao deslocamento – seja qual for ele: apoio, ruptura – nas costas do próximo marcador.

O volante do Vasco que protege o lado da bola sai para pressionar Bruno Silva. O espaço em suas costas é ocupado pela flutuação de Luciano.

Se for possível elencar as principais características, além da questão técnica, pode-se dizer que o momento ofensivo de Fernando Diniz se desmembra em: coragem, diagonais, assimetria e capacidade interpretativa. A amplitude gerada por Ezequiel no lado da bola, e Marlon no lado oposto, permitem mais campo por dentro. Ainda que com variações pré-determinadas, o Flu sempre busca a amplitude para permitir a movimentação interna e garantir desafogo.

Na sequência do lance da última imagem, note como Luciano se desloca da profundidade para o meio. Desgarra-se da marcação que recebia do zagueiro vascaíno, que é orientado a manter sua linha defensiva equilibrada pela eminente projeção do colombiano Yony González. O movimento do atacante permitiu superioridade numérica contra o volante vascaíno que sobrou no lado oposto à bola.

Mas a chave para a jogada se desenvolver passa pelo deslocamento de Daniel, que sai do lado esquerdo para o direito projetando em diagonal nas costas do volante que saiu para pressionar Bruno Silva.

Daniel atravessa o campo para apoiar a bola.

A ideia do técnico, cuspida para quem quiser compreender. Coragem de Matheus Ferraz para fazer o passe mesmo pressionado; as diagonais que formam escadinhas em relação a bola e o gol; além da assimetria e capacidade interpretativa de Luciano e Daniel no lance.

No entanto, o futebol é uma extensão da vida real que sempre coloca o ser humano em situações de escolhas. Essas escolhas podem manifestar aspectos positivos e negativos, obviamente. A forma como lidar com isso é o que realmente diferencia.

Estruturar a base da jogada, sair pelos lados ampliando o campo, também são conceitos gerais de Fernando Diniz. Por se organizar apoiando a bola, portanto, seus times possuem uma tendência clara a priorizar não só os passes em diagonais, como também os horizontais. A posse que parece inócua em muitos momentos talvez faça parte do jogo de paciência e controle que quer para si. Mas sem desprezar o fator técnico que lhe faltou em várias de suas equipes, pode-se dizer que este fenômeno também é uma consequência gerada pela dinâmica do futebol atual.

Porque com a tendência das defesas em zona, as diagonais defensivas em relação a bola são traçadas tão naturalmente que os espaços internos ideais para o seu tipo de jogo são fechados facilmente. O jogo posicional foi uma resposta para esse tipo de dinâmica, inclusive. Posicionar jogadores nas costas ou entre a marcação surgiu como uma boa alternativa no processo evolutivo do jogo.

Para exemplificar a debilidade – por que não?! – de sua equipe, voltaremos à pré-temporada do Athletico Paranaense em 2018. Em jogo-treino, os atletas de Diniz enfrentaram os reservas do Corinthians. À época ainda comandado por Fábio Carille, que sairia mais tarde, o campeão brasileiro talvez executasse a melhor defesa em zona no Brasil.

As linhas próximas, protegendo o funil defensivo e pressionando a bola e seu entorno, exemplificam bem por que o time de Fernando Diniz opte por ser agressivo, em sua maioria, a partir de conduções que arrastam a marcação.

Athletico construindo.

Os atletas em amarelo são os zagueiros do 3-4-3 do treinador. O jogador com a bola é o extremo que sai da profundidade e flutua para receber curto – não houve preocupação do time em ocupar o espaço deixado por ele, diga-se. Em ataque posicional, isto seria feito. Os volantes, em azul, projetam em diagonal a bola.

Agora note: o movimento natural do Corinthians, já que seu meia pressiona a bola, é apoiar essa ação com diagonais de cobertura. A escadinha feita pelo Athletico foi praticamente espelhada. Restou ao extremo oposto flutuar nas costas dos dois marcadores mais avançados do Corinthians. Houve apoio à bola!

No fim, não se trata de certo ou errado. Ou que um caminho seja menos complexo que o outro. São escolhas que precisam ser tomadas baseando-se no melhor rendimento coletivo e individual de sua equipe.

E ainda que o futebol seja quase que absolutamente subjetivo, me permito opinar: gestão de recursos humanos é o maior trunfo para quem quer vencer, independente do caminho escolhido.

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