O efeito Carille

Créditos da imagem: Rodrigo Gazzanel / Ag. Corinthians

Fabio Carille não é um gênio. É um trabalhador que aprendeu durante cerca de uma década como funciona o Corinthians. Trabalhou com Mano, que com todos seus defeitos revolucionou a forma de pensar do Corinthians. Carille viveu a transformação de um clube rebaixado e sem perspectivas em uma equipe campeã do mundo, e que criou, com a ajuda de Ronaldo Fenômeno, uma estrutura que faz inveja a muitos clubes europeus.

Depois do ataque dos gafanhotos chineses e de alguns europeus que levaram seus craques no início de 2016, aliado à crise financeira de um clube que não consegue equacionar as dívidas do estádio e a queda da economia do país, o Corinthians estava condenado ao fracasso. E foi mais ou menos assim em 2016. Fora da Libertadores e sem títulos.

Depois de tentar, sem sucesso, Cristóvão e Oswaldo Oliveira, o time apostou em Carille por falta total de opções e de recursos. Acertou quando achava que estava perdido. Se tivesse uma diretoria competente, o Corinthians perceberia que a última opção deveria ser a primeira.

Nos últimos tempos de Tite, eu dizia a amigos (não sei se falei isso aqui) que o melhor técnico da história do time deveria ser substituído caseiramente, por alguém que tivesse vivido o esquema que mais deu certo, por oito anos na história, e que conhecesse o clube e seus potenciais. Mas a diretoria achou que um nome conhecido teria o condão de fazer um milagre e seguir na trajetória vencedora dos últimos anos.

Soberba e fracasso são irmãos. Sempre andam juntos. Futebol não tem mágica. É trabalho e conhecimento.

Lembremos os exemplos de Guardiola, Zidane e Luis Enrique. Guardiola, depois de fazer excelente carreira como jogador no Barcelona, foi para as categorias inferiores e subiu dentro do clube até criar a mais fabulosa escola do futebol dos últimos anos. Zidane, super-craque do Real, foi auxiliar do time principal e técnico do time B antes de assumir o time e colecionar títulos. Luís Henrique, antes de algumas andanças por clubes da Europa, como a Roma, treinou o time B do Barcelona e virou um técnico vencedor da equipe principal.

Claro que treinadores competentes conseguem fazer trabalhos de resultado rápido. Mas isso tem acontecido cada vez menos com o passar do tempo. Quando eu era garoto, ter Rubens Minelli, Enio Andrade, Oswaldo Brandão, Zagallo era certeza de que o time iria bem. Mas o futebol mudou. Tirando os que atuam em times pequenos, que vivem brigando contra o rebaixamento, talvez Abel seja ainda uma possibilidade de resultado rápido. A maioria precisa de tempo.

Carille pode fracassar no Brasileiro – o que é ainda a maior aposta de todas. Mas faz um trabalho competente, de aproveitamento dos valores que tem. Sabe tirar o melhor de juniores até os rejeitados do time, como Marquinhos Gabriel e Giovanni Augusto. Conhece o porteiro do clube, a cozinheira, o diretor, o gerente e os jogadores. E sabe como o time deve jogar. O quanto a torcida aguenta.

Desde 2008, o Corinthians teve três caras: Mano, Tite e agora Carille. Adilson Batista, Cristóvão e Oswaldo foram pontos fora da curva. Acidentes de percurso. Não sei até onde Carille vai, mas já sabemos até onde ele chegou.

Achei um erro o Santos demitir Dorival. Ele conhece o clube e os jogadores. Se foi certo demiti-lo, o melhor seria não chamar Levir antes de ver até onde Elano, conhecedor de dentro do clube, poderia chegar? Jair Ventura foi apenas sorte do Botafogo? Rogério Ceni poderia subir ao time principal sem antes aprender o São Paulo com o técnico nas categorias menores?

A experiência mostra que o conhecedor do ambiente tem se dado melhor que os mágicos. Até quando apostaremos nos milagreiros e abandonaremos os trabalhadores do dia a dia?

6 comentários em: “O efeito Carille

  1. O trabalho que o Carille vem fazendo é de uma qualidade incrível! Independentemente dos resultados que virão, o fato é que ele realmente MONTOU uma equipe que vai mostrando evolução constante, como uma construção em andamento. Isso é muito raro aqui no Brasil…

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