A dança das cadeiras dos treinadores: é a indústria

Créditos da imagem: Marc Aspland

“Os treinadores precisam de tempo”.

Esta frase é bastante comum no mundo do futebol, especialmente o brasileiro. Clubes que demitem e trocam seus treinadores duas ou três vezes num ano, sem tempo de adaptação e desenvolvimento da “filosofia”.

É verdade. Trocamos muito. Mas precisamos entender o que é a indústria do futebol, e porque age assim. Aliás, porque o futebol no Brasil age assim. Algumas considerações:

  • O objetivo do futebol é vencer, conquistar. Então todos querem chegar ao título e quem não chega precisa fazer alguma coisa para se recuperar. Isso acaba se transformando na troca do treinador.
  • Mas para alguns o objetivo é não ser rebaixado, então quando as coisas vão mal a solução é dar um chacoalhão no elenco, trocando o treinador.

No final, todo mundo está certo e errado ao mesmo tempo. O resultado passa sempre por certa aleatoriedade. Afinal, trocar de treinador sem alterar o elenco pode dar um agitada no grupo, a chamada “superconcentração”, mas que depois tende à normalidade anterior.

É tudo tão aleatório que a final da Champions League de amanhã colocará lado a lado um clube que mantém um trabalho de longo prazo – ok, é com Guardiola – e outro que trocou o treinador no meio da temporada e conseguiu chegar à final, fazendo a equipe evoluir em campo.

A realidade do trabalho de treinador de futebol está associada a diversos fatores, mas há dois principais:

  1. a capacidade de escolha, que deveria ser um trabalho do Diretor Esportivo,
  2. clareza em relação à expectativa de desempenho. Geralmente ambas falham no Brasil.

Note que as duas equipes campeãs no Brasil na temporada 2020 trocaram de treinadores, pois a expectativa que tinham era de desempenho muito superior aos demais clubes, mas isso não se traduzia em campo. Se no Palmeiras a mudança se mostrou efetiva e o clube venceu duas competições, no Flamengo ela foi menos óbvia, com o time recuperando algumas posições e chegando ao título na última rodada, com derrota.

Mais sorte que juízo, dirão alguns. E o Flamengo segue vencendo competições e Rogério Ceni criticado pela torcida, assim como no Palmeiras Abel Ferreira sofre pressões. A expectativa é grande, e a realidade minimamente abaixo do esperado é motivo de críticas.

Ano passado as equipes rebaixadas trocaram de treinador pelo menos uma vez, e nada adiantou. Não era mais uma questão de ignorar a realidade, mas de desafiá-la. E esta talvez seja a grande diferença entre o futebol brasileiro e o europeu. A maior parte das decisões é feita de maneira estruturada, ainda que seja um erro, e as correções não são feitas de forma açodada, ao menos geralmente.

Mas acontecem. O Chelsea demitiu Lampard no meio da temporada e o resultado foi ótimo, com Tuchel vindo de uma final de Champions League e mesmo assim não renovando contrato com o PSG. Chegou à segunda consecutiva. Mas o Tottenham demitiu Pochettino, contratou Mourinho, e cerca de um ano depois também demitiu o português. Escolha errada? Elenco desequilibrado?

O final da temporada das ligas traz uma série de movimentações que beiram o surrealismo. Ou, melhor, mostram como o futebol é uma indústria com suas idiossincrasias. Aliás, como qualquer outra. Produzir açúcar é diferente de produzir papel, que é diferente de vender pão, que não tem relação com emprestar dinheiro. Se o conceito geral de gestão deveria servir para 60%/70% das necessidades de uma indústria, esses 30%/40% que sobram são o suficiente para demandar visões e comportamentos específicos. Como é para o futebol.

Em 2019 a Juventus não renovou o contrato com Max Allegri, e dizia que precisava de um treinador “mais europeu”. Para seu lugar veio Maurizio Sarri, que manteve o título italiano e o desempenho frágil na UCL. Com problemas de relacionamento o treinador foi substituído por Pirlo, novato com boa formação mas sem experiência. Resultado ruim na UCL e pior na Serie A, onde terminou em 4º e chegou à vaga na UCL mais por sorte que juízo. Resultado: demissão e chegada de Max Allegri.

Fosse no Brasil e Pirlo teria sido demitido na 25ª rodada, com a chegada de um treinador para movimentar o vestiário, e o resultado possivelmente teria sido o mesmo.

Na Inter campeã o treinador Antonio Conte chegou num acordo com o clube e deixou o banco de reservas por não concordar com a política de contratações caras. O clube precisará vender atletas e formará um elenco mais modesto, e Conte não gostou. Dizem as línguas boas e más que ele pode aparecer no banco do Real Madrid, ou mesmo no do Tottenham, que por sinal voltou a procurar Pochettino, aquele que foi demitido há um ano e meio e agora está no PSG.

Ah! A Inter contratou Simone Inzaghi, que havia renovado verbalmente contrato com a Lazio um dia antes. Mas ele preferiu jogar a UCL e ganhar o dobro, mesmo dizendo a temporada toda que gostaria de permanecer. Pois é.

No mesmo Campeonato Italiano, dos 3 clubes que caíram para a Serie B, dois trocaram de treinador uma vez e outro manteve o treinador o campeonato todo. Como disseram os dirigentes, não havia motivo para a troca, especialmente no Benevento, que caiu menos pelo desempenho do treinador e mais porque sabiam que o desafio seria se manter na Serie A.

Ou seja, o mundo do futebol é particular, tem suas características, e precisamos aprender a entendê-las. Obviamente que fazer uma contratação correta, de profissional com o perfil técnico adequado à cultura da equipe e ao perfil do elenco é o melhor a fazer, dando-lhe tempo para trabalhar. Mas ao mesmo tempo a imprensa e os torcedores são os primeiros a cobrar por desempenhos muitas vezes incompatíveis com o que a equipe pode produzir.

Expectativa inadequada que é engolida pela realidade.

Na próxima demissão de treinador, cobrem quem contrata. Por que contratou? Por que demitiu? Por que escolheu o novo treinador? O que espera dele taticamente? Talvez seja a chave para encontrar parte do problema. Porque outra parte está na característica da indústria: se você não se chama Klopp ou Guardiola, seu cargo estará em risco toda quarta e domingo.

2 comentários em: “A dança das cadeiras dos treinadores: é a indústria

  1. Cesar Grafietti, espetacular! Esta parte aqui, especialmente me fez pensar numa questão: “Fosse no Brasil e Pirlo teria sido demitido na 25ª rodada, com a chegada de um treinador para movimentar o vestiário, e o resultado possivelmente teria sido o mesmo.”

    Ou seja, a troca de treinador no meio do caminho também acaba fazendo com que as metas sejam realinhadas. Vejamos: se o Pirlo tivesse sido demitido na 25ª rodada e chegasse outro, este poderia culpar “a herança do Pirlo” pelo time não deslanchar, e ficar no G4 seria a “meta possível”. Talvez continuasse para a temporada seguinte. Mal comparando, é como o Corinthians, que muito dificilmente seria rebaixado no Brasileiro passado, mas trocou de técnico. Como o Mancini chegou em mau momento, o que antes seria fracasso (classificação para a Sul-Americana), passou a ser visto como aceitável.

    O que acha?

  2. Tem uma frase do Brian Clough, técnico multicampeão inglês que diz o seguinte: “O dirigente que contrata o técnico para demiti-lo após 2 ou 3 meses, deveria ser mandado embora junto com ele!”

    Eu penso da mesma forma. Se o dirigente contrata e rapidamente demite o técnico que ele contratou, na minha opinião ele está atestando sua incompetência, já que ele é remunerado justamente para encontrar um técnico decente… e nem isso ele conseguiu fazer!

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