Os professores “injustiçados” do Morumbi. Será mesmo?

Créditos da imagem: Érico Leonan/saopaulofc.net

Números podem mentir. PVC aponta a quantidade de ex-técnicos recentes do SPFC como indício de que o problema não é o treinador. Errado em parte. Duas incompetências não se excluem. Tirando poucas exceções, estes treinadores sequer deveriam ter sido cogitados. Seja pelo momento, seja pelo currículo completo. Por isso, lamentando não haver verba de insalubridade no site, faço apanhado com um resumo de cada técnico desde a demissão de Muricy Ramalho em 2009. Tirem as crianças de perto da tela e sentem, porque essa coluna vai ser longa.

Ricardo Gomes (primeira passagem) – a despeito de ter trabalhado na Europa, seus resultados eram de medíocres para baixo. Incluíam, pasme-se, não classificar uma seleção pré-olímpica recheada de estrelas (incluindo Diego e Robinho) para os Jogos. Seus momentos de sucesso no tricolor se deram na base da conversa e de requentar o já surrado 3-5-2 de Muricy, esticando Hernanes pra todos os lados. Não foi de espantar que tenham perdido o gás nas retas finais do Brasileirão-2009 e da Libertadores-2010. Conclusão: não teria contratado e não lamentei sua saída.

Paulo César Carpegiani – o estilo “professor Pardal” não deixara saudades quando ele veio em grande fase, após a Copa de 1998. Doze anos depois, já perambulando em vários clubes (incluindo o Corinthians em péssima fase), o prognóstico não poderia animar. E não animou mesmo. Conclusão: não teria contratado e tive, sinceramente, uma crise de pânico quando abortaram o anúncio da primeira demissão.

Adílson Baptista – depois de demissões relâmpago no CAP e no Corinthians, como achar que seu momento poderia recomendar uma contratação? Não tinha como dar certo, como não deu em qualquer time desde então. Conclusão: não deveria nem ter vindo e só um cínico pra repreender quem criticou sua contratação, como certos chapas-brancas.

Leão – após interromper um trabalho no meio do glorioso 2005, por conta de uma estranha “dívida de gratidão”, o técnico voltou ao Morumbi quando já dava (há um bom tempo) sinais de desatualização. De similares à primeira trajetória, só as frases esdrúxulas nas entrevistas. Os anos seguintes a 2012 só vieram a confirmar seu ocaso. Até comentando na TV é constrangedor, tal o descompasso com a atualidade. Conclusão: não deveria nem ter vindo, com ou sem débitos de agradecimento.

Ney Franco – um dos que posam de grandes incompreendidos. Só que, antes e depois do SPFC, as passagens em quase todos os clubes têm o mesmo roteiro: 1 – resultados iniciais bons; 2 – canta Elvis no Bem Amigos; 3- vai pro olho rua um mês depois. Isso nos “bons” trabalhos. Por que a história seria outra no SPFC? Apoiou-se na grande fase de Lucas na Sul-Americana e, com o camisa 7 rumando a Paris, restou usar a famosa “perseguição” de Rogério Ceni (que não gostava mesmo dele) como desculpa. Nunca mais conseguiu algo que preste. Nem ao Bem Amigos voltou. Conclusão: não contrataria e demitiria também quem o bancou – o diretor que corria de Porsche.

Paulo Autuori – antes mesmo de sua volta, havia quem atribuísse a Leão – ou mesmo Cuca – os méritos principais por 2005. Uma grande injustiça. Autuori deu estabilidade aos cascudos leoninos e merece os créditos. Por outro lado, estava ganhando dinheiro no mundo árabe enquanto o futebol sofria alterações profundas. O distanciamento pesou no retorno breve e frustrado. Conclusão: teria contratado e lamento a demissão, mas faria o mesmo.

Muricy Ramalho – os leitores conhecem minhas ressalvas – não apenas por causa do SPFC, mas pelo mal que legou ao futebol doméstico. Porém, a situação era de desespero e é difícil imaginar o time se salvando da Série B sem ele. Por tudo o que fez, foi justo ser mantido para 2014. Seguiu apanhando em mata-matas, mas os esquemas híbridos até que conseguiram um vice-campeonato – pouco glamoroso – no Brasileirão. Em 2015, ficou claro que se adaptaria mesmo ao futebol com atacantes abertos, em vez de dois enfiados – mal que também aflige o rival Luxemburgo. Conclusão: teria contratado e demitido da forma como aconteceu.

Juan Carlos Osório – convencidos (com razão) de que Muricy era superado, os dirigentes partiram direto para os “revolucionários”. Tentaram Bielsa e Sampaoli – com este último fechando as portas, irritado com o amadorismo da diretoria. De acessível, restou o popular colombiano. Há quem o eleja o melhor desde 2009, bem como quem o coloque entre os piores. Eu vejo como inconclusivo. Não gosto de técnicos que trocam times e formações com tal frequência. Porém, impressionava como quase todas as instruções eram compreendidas. Não fosse a ida ao México (muito por causa de Aidar), mereceria uma pré-temporada completa para se tirar a dúvida: oito, oitenta ou meio termo. Conclusão: não o traria naquele momento, mas o manteria para 2016, se possível.

Doriva – quase digno de um “sem comentários”. Tanto no Vasco como no CAP, ganhou títulos estaduais e despencou em seguida. Para piorar, chegou como pau mandado de Aidar, com a missão declarada de desfazer tudo o que o antecessor fez – tivesse dado certo ou não. O que veio depois só confirmou ser outra nulidade com um bom começo. Conclusão: não o teria contratado e o demitiria no primeiro treino.

Edgardo Bauza – a primeira escolha da gestão Leco parecia ter duas premissas: 1 – treinadores argentinos estariam mais avançados; 2 – um técnico heterodoxo, porém atualizado, seria ponte para ousadias futuras. Talvez os motivos tenham sido apenas o que o colunista imaginava. De todo modo, Patón mostrou como aparências enganam. Muito da compactação dos titulares vinha de longos períodos sem jogar, antes das partidas de Libertadores. A correria disfarçava os buracos. A despeito da semifinal de Libertadores (aos trancos e barrancos), o legado à torcida foi vergonhoso: o jogo do contente com “derrotas dignas” – que não agradaram nas seleções argentina e saudita. Conclusão: teria contratado, mas o demitiria mesmo sem convite argentino. E usaria como lição.

Ricardo Gomes (segunda passagem) – depois de sua demissão em 2010, Ricardo Gomes conquistou uma Copa do Brasil pelo Vasco e sua carreira finalmente apresentava resultados. Mas um AVC o tirou dos bancos por anos. Ao voltar, embora com plena capacidade cognitiva, apresentou sequelas na comunicação. Trazê-lo poderia gerar riscos de uma situação desagradável, especialmente se os resultados não viessem – num momento em que o clube, pela segunda vez em 4 anos, flertava com o rebaixamento. Não deu outra. Conclusão: não o teria contratado, justamente para não ter que demitir mais – ou menos – adiante.

Rogério Ceni – o ídolo maior do clube não foi contratado como técnico, e sim como fato novo eleitoral. Ainda estava começando seus cursos e não fora sequer treinador de base, quanto mais auxiliar. Chegou com staff e altas pretensões táticas, mas a execução foi desastrosa. Tivesse feito o que realizou depois, chegaria ao São Paulo mais preparado do que estava Jardine ao assumir, pois teria ao menos uma passagem em time profissional. Conclusão: não o teria contratado e, de certa forma, “bem feito” que Leco puxou seu tapete, pra aprender a não ser joguete político de incompetente.

Dorival Jr – o SPFC precisava de um técnico estabelecido, mesmo que não fosse do top 5 nacional, para se refazer dos danos que já vinham do período de Bauza, passando por dois sucessores infelizes. Dorival parecia ao menos suprir a necessidade, mas na prática foi estarrecedor. Nada do que tentou surtiu efeito e ainda chamou a atenção por chances dadas a atletas de interesse próximo, como o péssimo Denílson. Foi salvo por Hernanes. Conclusão: teria contratado, mas o demitiria já no final de 2017 – inclusive porque estava claro que Raí, recém-empossado como gerente, não confiava em seu trabalho.

Diego Aguirre – como disse Danilo Mironga, a busca pela tal “identidade” clubística fez Raí apostar nos laços celestes – inclusive por provável, embora depois negada, influência de Lugano. A despeito da empolgada liderança no Brasileirão, a trajetória em clubes recentes antevia o final. Em todos, era questão de poucos meses para eventuais bons momentos darem lugar a empates e derrotas. Por que seria diferente no tricolor? Conclusão: não o contrataria e não o teria demitido naquele momento. Mandaria embora pelo menos duas semanas antes, quando estava clara a falência da equipe – cenário que não foi revertido em qualquer dos clubes anteriores.

André Jardine – chega um ponto em que, com tanta coisa dando errado, é preciso antecipar insucessos. Comecei 2018 defendendo uma chance ao técnico do sub-20. Porém, já nos últimos dias de Aguirre, fiz um questionamento: e se os treinos dele não servirem a jogos de profissionais? O ritmo muda. Os espaços diminuem. Mesmo o fato de ter sido auxiliar de Aguirre não inspirava confiança. Não bastasse esta dúvida, Jardine se integrou demais com o elenco (e seus medalhões) quando auxiliava. Algo que, como estamos vendo, também não ajudou muito. Conclusão: só teria contratado se houvesse sinal promissor nos jogos finais, sendo que a demissão parece inevitável.

Interinos – só serão analisados os contratados em definitivo.

A “Lei Régis” – como disse no começo, uma incompetência não exclui a outra. A gestão de Marcelo Portugal Gouvêa merece muitos festejos, mas deixou esta mácula. Com o mau futebol do zagueiro Régis, indicado por Osvaldo Oliveira, MPG decidiu que todos os contratados seriam indicações exclusivas do clube. Funcionou no começo, graças ao filão de jogadores sem contrato ou sem receber. Entretanto, mais tarde os outros clubes resolveram copiar o exemplo. Com a fartura dividida, mesmo Juvenal e seu “mago” Milton Cruz viram a qualidade desmoronar. Sem poderes na montagem do elenco, os técnicos encarnaram o exemplo do chef se virando para montar um cardápio, com aquilo que o dono do restaurante compra – isso quando não vende durante o expediente.

Conclusão final: a grande maioria dos técnicos desde 2009 foi mal contratada. Mas, ainda que fossem bons treinadores, não conseguiriam dar seu melhor num clube. É por isso que isso demitir e contratar não resolve o problema. Um eletrônico com duas pilhas gastas não vai funcionar trocando só uma. Sendo que o SPFC é um clube com várias baterias apodrecidas…

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