Ponderação à brasileira – a automordaça do jornalismo

Créditos da imagem: Gazeta do Povo

Mal o Real Madrid levantou a taça e surgiram colunas jornalísticas, nos veículos conhecidos, falando no “abismo” entre futebol europeu e brasileiro. Para mim não é surpresa, como meus leitores bem sabem. O que pergunto é o seguinte: por que esperaram o fim do jogo para postar esta opinião? Imagino que dirão que precisavam ver a disputa para conclusões definitivas. Cascata.

Como eles mesmos colocaram, esta situação não surgiu de sexta para sábado. Vem de muito tempo. Afinal, tampouco foi de uma hora pra outra que os clubes europeus ficaram ainda mais ricos e os brasileiros, mesmo com ajudas do governo e da TV, seguiram com promessas iniciantes, realidades não tão brilhantes ou figuras que retornaram do exterior encostadas – quando não em final de carreira. O que faltou a estes jornalistas e blogueiros foi a coragem de ver o que salta aos olhos, como o garoto da fábula em que o rei estava nu. Se bem que, fosse esta história do Brasil, o garoto ficaria de castigo e todos seguiriam babando pela “roupa nova” do governante. Não apenas no futebol. Dava pra saber, desde muito tempo, que aquele “Brasil fodão” de 2008/2012 tinha vida curta. Quantos se ergueram? Ser comentarista de videotape é fácil.

Pensei em cravar isso como covardia, mas está mais para conveniência profissional. Em nossa mídia esportiva, muita informação chega via cordialidade. As fontes (atletas e dirigentes) são pouco compreensivas se a liberdade de expressão é usada para criticar. Normalmente, quem se arrisca a criticar se de carisma peculiar e é relevado, na base do “ele não pensa muito no que fala, mas é gente boa” ou “Fulano é legal, falou que eu sou um b…!”. Quem não tem esse “dom” precisa se virar como ponderado. Que, em terras brasileiras, significa pisar em ovos. Os leitores devem estar imaginando Caio Ribeiro, mas há outros, inclusive capacitados. Já ouvi Mauro Betting dizendo que Alexandre Gallo é bom treinador. Quantos fracassos mais serão necessários pra falar que não é? Até o brilhante Cláudio Zaidan disse, antes de um jogo, que Maicossuel é “ótimo jogador”. Tenha dó, né????

Além do receio de magoar a fonte, o ponderado nacional tem pavor de ser chamado de polêmico. Num universo em que o público alvo não costuma aprender com a experiência (o torcedor que passa cinquenta anos repetindo a mesma coisa), qualquer opinião um pouco fora dos padrões, mesmo que bastante fundamentada, vira polêmica. Fosse o ponderado brasuca Galileu Galilei, não teria sido obrigado a se retratar. Afinal, nunca teria se arriscado a falar, em pleno século XVII, que a Terra gira em torno do Sol. Abriria mão do senso crítico e dos conhecimentos técnicos. OK, até dá pra entender que o sujeito fique quieto pela própria vida. Mas será que o emprego vale o mesmo? Reparem que os nomes que citei, caso dispensados, terão trabalho no dia seguinte. Não é que vivem com a corda no pescoço. Ou, então, foram eles mesmos que a amarraram.

Milton Nascimento (não, ele não é comentarista) já cantou que “ficar de frente para o mar, de costas pro Brasil, não vai fazer deste lugar um bom país!”. Eu digo que ficar de frente para a conveniência, de costas para os fatos, não vai fazer deste lugar um bom país, mesmo. Foi preciso perder de 7 a 1 para que ousassem enxergar os atrasos da seleção – ainda assim, com policarpos destacando que “o Brasil vinha bem até tomar o primeiro gol”. Com a crítica, veio a melhora. Para que isso se repita mais vezes, também é fundamental que o público não aceite o papel de bobo. Se for para continuar acreditando em Casagrande dizendo que “talvez o Real Madrid seja favorito”, talvez você prefira ser trouxa e mereça ficar com cara de tacho depois. A escolha é sua.

PS: não bastasse o temor de parecerem pessimistas, as emissoras brasileiras colocaram seus microfones na torcida do Grêmio, para que o telespectador tivesse a impressão de que a maioria do estádio estava com os gaúchos. Azar deles que a FOX Sports tinha a opção DES, com transmissão em inglês, em que o som ambiente escancarava a óbvia preferência pelo Real Madrid. Ao menos podiam ter ficado sem essa.

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8 comentários em: “Ponderação à brasileira – a automordaça do jornalismo

  1. Assino embaixo! Eu realmente não entendi o que aconteceu… o Real ganhou e dominou, como previsto, inclusive só fez o gol de bola parada. Ou seja, não teve nenhuma novidade, nenhum fato novo em relação ao desnível entre os principais times de lá e daqui. Novidade seria se fosse um jogo igual, oras!

    Ou, ainda, valeria uma nova reflexão se fossemos goleados de novo. Mas do jeito que foi, realmente não entendo…

  2. Eu acho que a explicação é ainda mais simples: esperavam por um milagre do Grêmio, pra poderem falar “viram, não existe esse abismo!!”. Fingiriam que foi uma vitória normal, e não um verdadeiro milagre, como foram milagres todos os títulos mundiais do Brasil nas últimas décadas.
    Quando o milagre acontece, fingem que o desnível não existe. Quando dá o óbvio, falam do abismo. E segue a hipocrisia.

  3. Agora, a crítica: essa mania de achar sempre um motivo pra criticar a Globo é muito chata.
    Durante todo a competição, e repetidas vezes durante o jogo, a Globo enalteceu os 7 mil gremistas que estavam nos EAU.
    Não precisa ser um gênio da matemática pra saber que 7 mil não eram a maioria no estádio.
    Colocar o microfone na torcida do Grêmio não tem a função de fingir que a torcida é maioria, mas sim a função de agradar a audiência brasileira.
    A Globo tem milhões de defeitos e problemas. Não existe a menor necessidade de inventar coisas pra criticá-la. Muito mais simples escolher um dos defeitos que já existem.

    1. Meu caro, eu disse que o objetivo do áudio era mostrar que havia mais torcida efetiva para o Grêmio no estádio, não que havia mais de sete mil gremistas. Ao colocarem o microfone onde colocaram, fizeram com que o desavisado achasse que ou a torcida do Grêmio berrava mais que todo mundo, ou que torcedores locais aderiram. Se você leu minhas colunas anteriores, dever lembrar que critiquei justamente essa história de culpar a Globo por tudo. Mas, desta vez, há motivo para criticar. Até porque jornalismo não é “agradar a audiência brasileira”. Abs

  4. Hoje em dia só existe “comentarista do pós jogo”… É a melhor profissão do mundo… sem compromisso algum… “O time A está.muito bem mas nunca se sabe né… quem nao faz leva e aind tem os acréscimos da partida…” E por.ai vai…
    Além disso, Infelizmente o paternalismo e os repórteres e comentaristas “amigos.de jogadores”/”reis.dos furos” tb nao ajudam em críticas imparciais no dia a dia….

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