Sobre a ideia de criar o “diretor do NÃO” no futebol

Créditos da imagem: Reprodução Freepik

Digam SIM ao NÃO

Já calejado pelas frustrações da década perdida tricolor, tornei-me uma espécie de especialista em antever possíveis, prováveis ou muito prováveis efeitos negativos de determinadas medidas. Não raro me acham corneteiro, urubu, etc… Também não raro, sem falsa modéstia, estes efeitos acontecem. Às vezes, até em proporções maiores que as estimadas. Não sou pioneiro nesta história, ou então a Lei de Murphy seria a Lei de Fernandes. Mas, baseado na minha experiência como torcedor e comentarista amador, proponho uma iniciativa nova nos clubes brasileiros: o diretor do NÃO. Um em cada departamento, para ajudar na caça ao que pode dar errado.

A função é mais que o “just say no” da vovó Nancy*. O diretor do NÃO deve analisar as proposições para identificar os potenciais entraves. Desde os óbvios até os que vão além do racional. Exemplo: durante anos, o São Paulo contratou jogadores vindos do Botafogo (daí também o apelido de Botafogo do Jardim Leonor, by Danilo Mironga). Todos, sem exceção, foram mal. Incluindo atletas prestigiados, como o zagueiro Juninho – “melhor líbero do Brasil”, segundo PVC. O diretor do NÃO tem o dever de ir além da “mera coincidência”. Precisa entregar este dado a quem contrata. De preferência, aventando hipóteses para os fracassos seguidos – incompatibilidade de estilos, cobranças diferentes, adaptação a São Paulo, etc… O fundamental é que, na hora de decidir pelo eventual SIM, o clube tenha elementos para justificar um NÃO. Surpresas demais viram desculpas de imprevidentes.

A existência deste tipo de tarefa é mais indispensável em ambientes rodeados de oba-oba. Os torcedores normalmente são ávidos por boas notícias e é isso que recebem dos setoristas. Tome “saiba como” para explicar por que dá para escalar três centroavantes, dois meias e dois pontas no mesmo time. Rola até palavra de ordem. Quando Adílson Baptista foi contratado pelo SPFC em 2011, após dois desastres em menos de um semestre (Corinthians e CAP), um blogueiro e um jornalista disseram que críticas só poderiam ser feitas após determinado tempo de trabalho. Mesmo os que não têm esta verve chapa-branca costumam se sentir desconfortáveis para antecipar frustrações. Sempre dão um jeito de concluir que há esperanças. É o ponderado à brasileira. Aquele que, se fosse juiz, tascaria procedência parcial em todo processo, pra não ficar de mal com ninguém.

Nestas horas os leitores já devem estar pensando naquilo que uns costumam responder a interlocutores em certas rodas de conversa – presencial ou em redes sociais. “Já que o cara vai ficar vendo problema em tudo, por que não propõe também?”. Primeiramente, ninguém é obrigado a apresentar uma alternativa para poder dizer que a sugestão alheia é uma porcaria. Em segundo lugar, a razão pela qual este diretor não precisa propor nada é simples: porque não vai ser pago para isso. Caberá a outros ter ideias ou pensar sobre os meios de reduzir os riscos apontados pelo diretor do NÃO. Nas palavras de Cesar Grafietti, seriam os diretores do COMO. Uma contratação responsável é a que bate o martelo ouvindo o NÃO e o COMO. Mesmo que se trate de contratar Lionel Messi sem multa e recebendo cinquenta mil por mês. A cavalo dado se olha os dentes, sim. Mesmo um premiadíssimo.

Haverá quem considere isso uma bobagem. Há alguns anos, no FOMQ (Fórum O Mais Querido), um futuro dirigente do mesmo SPFC (na época, meu amigo) disse que contratação se faz na base do instinto. O já mencionado Mironga comentou, mais tarde, que então o diretor de futebol deveria ser um cachorro. Humanos não têm instinto aguçado e, em determinados testes, especialistas acertaram menos que chimpanzés. Portanto, passou da hora de a humanidade colocar o rabo (imaginário) entre as pernas e ser mais humilde. Como já resmungava Murphy.

*referência à campanha antidrogas de Nancy Reagan nos anos 1980.

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