Tricolor trilegal

Créditos da imagem: Lucas Uebel

Mais até que em 2017, o time do Grêmio segue encantando e também intrigando – em especial, pela quantidade de jogadores desacreditados jogando bem. Porém, muitas das discussões a respeito, seja em botecos, redes sociais ou mesas redondas, não focam em três conceitos relevantes na observação do futebol da equipe de Renato Gaúcho. Conceitos estes que evidenciam o quão bravateira foi a declaração de que seu estudo é a praia. Na verdade, uma zombaria com os técnicos que fazem estágios, viajam e simplesmente não entendem o que viram (decoreba não resolve vida de treinador). Eis as lições que Renato, efetivamente, aprendeu e compreendeu.

1 – elenco não é soma; é COMBINAÇÃO – volta e meia as pessoas comparam times, contemporâneos ou de épocas diversas, apenas pela análise individual. Neste exato momento, há jornalistas e torcedores fazendo isso com o Grêmio atual e o de 1983. Imaginem a pane mental destes “experts” quando um time com Leonardo Moura, Cortez, Maicon e André, entre outros usualmente contestados, pratica um futebol mais fluente e moderno que o de elencos badalados. Há quem diga ser uma espécie de mística do Grêmio, mas não é nada assim. O melhor SPFC de todos os tempos, aquele que venceu o Barcelona em 1992, tinha a seguinte escalação: Zetti, Vítor, Adílson, Ronaldo e Ronaldo Luiz, Pintado, Cerezo, Cafu, Raí e Palhinha; Müller. No “raio x” das comparações individuais, esse time perderia para outros da História do tricolor paulista. Na prática da combinação, bateria todos. Sem exceção.

2 – volantes? Que volantes? – talvez a grande inovação não apenas brasileira, mas mundial. No Real Madrid, Zidane às vezes deixa Casemiro (um dos dois melhores volantes do mundo) na reserva, preferindo uma linha de meio-campistas. Renato tem feito isso em todos os jogos nos quais que atuam os titulares. Maicon e Arthur são armadores, não volantes. O critério ortodoxo até permitiria escalar os dois, mas à frente de um primeiro volante. Renato desafiou a regra. Michel, titular em 2017, foi para o banco. Maicon e Arthur se alternam no vértice do meio-campo. Isso permite a Renato manter Ramiro pela direita sem abrir mão dos armadores. Normalmente tentativas do tipo terminam com uma defesa esburacada como queijo suíço. Não é o caso do Grêmio, cujo goleiro chegou a ficar mais de oitocentos e cinquenta minutos sem tomar gol. Como isso acontece? Ver o próximo tópico.

3 – Lei dos seis segundos – quando se fala em Guardiola, pensa-se na ideia de posse de bola. O que normalmente ignoram é que, além da precisão nos passes, esta posse se reforça com um recurso que favorece a própria defesa. Quando o time é desarmado, os jogadores mais próximos da bola se lançam para recuperá-la antes que o adversário inicie o contragolpe. Isso tem que ocorrer em seis segundos ou menos. Para que funcione, o time tem que se posicionar em bloco quando ataca. Do contrário, a tentativa de abafar será facilmente contornada e a defesa ficará exposta. É um problema que até o Barcelona vem sentindo nesta temporada. Ou seja: a execução é difícil mesmo para quem a pratica por anos. O que o Grêmio fez nas últimas partidas beirou a perfeição. Podem estar certos de que isso não se consegue apenas com boa conversa.

Renato não é o único treinador brasileiro que vai atrás destes objetivos. Porém, mostra-se o mais adiantado no entendimento e na sua concretização. Resta saber se conseguirá manter este padrão na temporada ou, por força de lesões e despedidas do elenco, terá que se contentar com o futebol de marteladas – e lampejos de Luan – que marcou a reta final da Libertadores e facilitou muito a tarefa merengue no Mundial. O fato é que, nestas últimas partidas, foi o Grêmio que pareceu um top europeu enfrentando sul-americanos impotentes. O Santos nem precisou de Messi em campo para sentir um incômodo déjà vu. Bastaram Luan, Cebolinha, Arthur e o refugo Maicon. Por enquanto, uma combinação letal.

5 comentários em: “Tricolor trilegal

  1. Guardadas as devidas proporções, o filme Money Ball mostra a revolução no beisebol americano quando alguém percebeu que elenco não é mais composto por nomes badalados mas por funções bem executadas pelos atletas dentro do esquema de jogo.

  2. O corinthians de Tite no penúltimo título brasileiro tratava a bola com maestria. Não há nada de novidade no que faz o Renato . Ele tem a sua disposição um meio campo de qualidade onde tudo começa e termina em um time. Se vc acertar esse quebra cabeça a sua equipe estará pronta
    Quanto.a se comparar a times europeus , menos bem menos esse mesmo time se mostrou medroso diante do Real . Não temos autoconfiança pra encarar os grandes do velho continente.

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