Votar é bom, mas tem que dar trabalho

Créditos da imagem: TV UOL

Sobre a importância de mudar a mentalidade do torcedor, se ele quiser participar da vida política do clube sem ser feito de joguete populista

Uma das assertivas crescentes dos últimos anos é que o torcedor precisa ganhar mais espaço no clube. Não o de organizada, mais preocupado com sua entidade – e os benefícios correspondentes. A ideia é trazer o sócio torcedor ao cenário eleitoral. Sugestão esta, por sinal, que este colunista lançou em 2005, também no extinto Canal 1000. Porém, mesmo as concepções mais bonitas devem ser repensadas. Estará o eventual torcedor-eleitor preparado para proteger sua paixão de candidatos oportunistas? Se analisarmos diversos exemplos, concluiremos que não. Longe disso. Vide o que aconteceu com o Internacional, primeiro clube a abraçar a iniciativa no caso concreto. O torcedor na política do clube pode não ser o combustível para empurrá-lo, mas incendiá-lo.

Infelizmente, existe uma certa condescendência com a visão restrita do torcedor. Aceita-se como natural que seu objetivo seja só ganhar, independentemente dos meios. Quando o Corinthians firmou parceria com a suspeitíssima MSI, a reação inicial de seus torcedores foi de euforia. Se questionados, a resposta invariável era “não importa de onde vem o dinheiro; torcedor quer saber é de títulos!”. Dois anos depois, a conquista de 2005 foi trocada por dívidas e um rebaixamento. Lição aprendida? Nem tanto. O mesmo torcedor deu de ombros às igualmente suspeitas fontes do seu estádio. Até porque o Brasil vivia tempos em que era “puta coisa chata esse negócio de ética”. Achavam que havia grana para todos, inclusive os corrutos. Eis que, hoje, temos um país em crise e um Corinthians, mesmo nas cabeças, sem saber como pagar pelo estádio e esperando (mais) um favor do governo. Tudo com a benção de seu torcedor, que deixou de lado os “entretantos” para só pensar nos “finalmentes”.

Não vejam isso como peculiaridade dos corintianos. A mesma postura pode ser contemplada em 100 % da concorrência. Inclusive nos que tentam criar juízo. O Botafogo, em período de rara lucidez, chegou ao fundo do poço com iniciativas desastrosas, como a vinda de Seedorf num “plano de marketing” que, como de costume, não gerou um décimo do prometido. Quantos botafoguenses foram contra desde o início? Provavelmente, meia dúzia. Neste caso, não era nem questão de onde vinha o dinheiro, mas de onde não vinha. Mas não pensem que a postura compreensiva, depois de outro rebaixamento, deve durar muito. Com a eliminação após boa campanha na Libertadores, logo virão pressões para gastar com estrelas além da solitária. Como? “Sei lá, virem-se!!!” – será a provável réplica. Enquanto estiverem do lado de fora do campo político, a diretoria poderá suportar. E se votassem? Os anseios não teriam como ser ignorados. A estabilidade voltaria a ficar por um fio – de algodão.

Há muitos outros casos, mas vou falar do clube que efetivamente acompanho. O São Paulo, com finanças já comprometidas, iniciou a temporada contratando Lucas Pratto por valores que, mesmo condizentes com seu futebol (algo que agora se discute), extrapolavam o orçamento. Qual a reação da torcida? A mesma dos corintianos do segundo parágrafo. O que vale é ter craque no time. Quando uns poucos criticaram o negócio, saíram-se com o clichê que este colunista tanto ama: bradar que “o futebol está muito chato”. Mesmo no FOMQ, fórum que se caracteriza por uma visão não-passional, surgiram “contas de padeiro” dando a compra como viável. Well… A padaria deve ter fechado, porque o tricolor paulista teve que preencher o resto do elenco com jogadores baratos e duvidosos, além de se desfazer de vários atletas. Não é por menos que, pelo segundo ano consecutivo, seu torcedor terá que se contentar (se tanto) em dizer que “time grande não cai”. Imaginem se votasse.

Há que ficar claro que, quando me refiro a esta postura da torcida, vale para todos os padrões econômicos e culturais. Não é porque o torcedor frequentou determinada escola, ou tem determinada quantia no banco, que pensa de forma diversa. Justamente por isso, não acredito que a forma de contornar este problema seja, simplesmente, aumentar o preço para que o sócio torcedor possa votar. É preciso ir muito além. Se quiser realmente dar um passo adiante e revolucionário, o torcedor tem que trocar de mentalidade. Menos autoindulgência com seu desconhecimento, mais aprendizado com a experiência. Seu time se afundou na irresponsabilidade há cinco anos? Não aplauda se começar a fazer de novo. Ou então não pense em participar dos rumos do clube. No lugar de trazer oxigênio aos ultrapassados dirigentes e conselheiros, acabará sendo asfixiado por eles. Pior: nem poderá sair reclamando do “que fizeram com o time”. Você fez junto.

O desafio está lançado. Como naquele filme dos anos 80, em que o protagonista de Kevin Bacon dizia que, se ele fosse lutar por um baile, o amigo precisava aprender a dançar. Se quiser entrar na dança política no seu clube de coração sem sair do ritmo, o torcedor vai ter que aprender a pensar. Aliás, já que a coluna chegou até aqui, que tal sairmos do futebol e sugerirmos ao eleitor que faça o mesmo? Depois não adianta sair reclamando do “que fizeram com o Brasil”. Você fez junto…

6 comentários em: “Votar é bom, mas tem que dar trabalho

  1. CONCORDO TOTALMENTE

    TEM ELEIÇÃO NO SANTOS EM DEZEMBRO E EU SÓ ESTOU DE OLHO NO QUE OS CANDIDATOS ANDAM FAZENDO E PROMETENDO

  2. O problema é que só tem gente mal-intencionada nos clubes. Veja o São Paulo, por exemplo (por quem torço), não há qualquer corrente que possa dar esperança ao torcedor de um futuro melhor. É tudo mais do mesmo.

  3. Muito bem colocado! E concordo totalmente com o final, afinal, o brasileiro acaba adotando a mesma postura inconsequente tanto em relação à política do país, quanto a do clube de futebol. Mas tem uma diferença fundamental: enquanto todos são obrigados a participar da política nacional, tirando título de eleitor e comparecendo às eleições, nos clubes de futebol só vai quem quer, ou seja, a pessoa deveria ter procurado se engajar e entender mais desde antes…

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