Absurdo critério de desempate por número de vitórias pode matar final na última rodada

Créditos da imagem: Montagem / No Ângulo

Todos estamos empolgados com algo que nunca se viu por aqui desde a instituição dos pontos corridos: no próximo domingo, penúltima rodada do Brasileirão 2020, teremos praticamente uma final de campeonato com o duelo entre líder e vice-líder, Inter e Flamengo. Caso vença no Maracanã, o time gaúcho será campeão já no duelo direto.

Mas se não fosse pelo absolutamente sem sentido critério de desempate por “número de vitórias”, haveria uma considerável possibilidade de vermos uma outra final de campeonato, na última rodada.

Afinal, se o São Paulo hoje vencer a partida atrasada contra o Palmeiras, chegará aos 65 pontos, apenas 3 a menos do que o Flamengo e 4 a menos do que o Internacional. Caso na próxima rodada o rubro-negro carioca bata o Colorado e o tricolor paulista vença o já rebaixado Botafogo, chegaríamos à última rodada com o São Paulo dependendo apenas de si para se igualar ao Flamengo em pontos, no que poderia ser uma nova final (dependendo do que se passar entre Inter x Corinthians, no Beira-Rio).

Mas com o regulamento atual, o cenário descrito não poderia acontecer, mesmo com esses resultados, porque o São Paulo não poderia mais igualar o número de vitórias do Flamengo. Ou seja, ainda que o time do Morumbi viesse a vencer as duas partidas contra o rubro-negro (venceu no primeiro turno, no Maracanã) no campeonato e o superasse em saldo de gols, perderia o título em caso de igualdade de pontos.

Privilegiar o número de vitórias sempre me pareceu um completo absurdo. Penso que qualquer critério de desempate deve se orientar por duas variáves: emoção e justiça. O único critério que que contempla tudo isso é o novo confronto em campo neutro, mas isso é virtualmente impossível com o calendário que temos. Então o que melhor responde à emoção é o de saldo de gols, que pode ser alterado em qualquer partida (como exemplificado pelo histórico Argentina x Peru da Copa de 78, por exemplo). Já o mais justo em um campeonato de pontos corridos é o do confronto direto, afinal, se uma equipe superou diretamente o seu rival na disputa pelo título, por que não merece o título em caso de empate por pontos? São os jogos mais decisivos do campeonato, os “jogos grandes”, que devem ter um peso ressaltado frente aos demais. Ser capaz de vencer o time com quem se disputa a liderança é muito mais relevante do que ter vencido e perdido para um pequeno a mais em vez de ter empatado três vezes.

O critério de número de vitórias é o menos emocionante possível porque é estanque: já está dado e nada que venha a acontecer pode mudar isso. São Paulo e Flamengo só podem empatar em pontos de um modo em que o rubro-negro terá mais vitórias. Ponto. Ou seja, ele invalida a partida que poderia provocar o empate em pontos e todas as demais condicionantes para que o time que vinha atrás na tabela ainda pudesse superar o que vinha à frente. Pode golear, fazer o que for, que não vai mudar.

Outro problema é que este critério gera um benefício reincidente. Afinal, o número de vitórias já está expresso na pontuação dos times. Se um time tem 20 vitórias e o outro tem 18, o primeiro já fez seis pontos a mais. Inclusive, até o começo dos anos 1990 a vitória valia dois pontos, e a mudança para três foi justamente um estímulo para que os times fossem mais em buca dela. Frequentemente ouvimos que, em termos de pontuação, uma vitória e duas derrotas equivalem a três empates. Portanto, a quantidade de pontos que a vitória dá já é o maior incentivador para que as equipes lutem por ela. Já o saldo de gols ou o confronto direto não são diretamente representados na pontuação: um time pode golear sistematicamente os adversários e ter uma vitória a menos que o time burocrático do “meio a zero é goleada”, bem como ter feito o rival direto como freguês nos famosos “confrontos de seis pontos”.

Ou seja, há a ilusão de que desempatar pelo número de vitórias vai tornar as equipes mais ousadas. Ora, quem quer ser ousado já o é em busca dos três pontos, não pensando em improbabilíssimo caso de desempate.

Entretanto a questão que mais me incomoda é: e o reconhecimento a um time ser difícil de ser superado? Imaginemos uma situação na qual dois times terminem um campeonato empatados: um deles tem 25 vitórias e 13 empates; o outro tem 28 vitórias, 4 empates e 6 derrotas. É justo que o campeão seja aquele que foi superado por outros rivais no campeonato, enquanto um foi simplesmente invencível? E prefiro nem comentar sobre a possibilidade de o time invicto ainda ter saldo de gols superior e ter vencido o rival nas duas partidas do confronto direto.

Perto de outros problemas do nosso futebol isto não é nada. Mas é mais um deles, ao qual ninguém parece se atentar.

Dependendo das circunstâncias, na próxima quinta-feira brindaremos no Morumbi à sabotada final que poderia ter sido e não foi.

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