A (quase) finalíssima

Créditos da imagem: Montagem / No Ângulo

São raras as ocasiões em que um campeonato de pontos corridos pode ter uma espécie de final. No caso, uma partida entre os dois primeiros colocados em que a vitória encerra a disputa. Não é o caso do Flamengo, que ainda teria que bater o SPFC. Para o Internacional, porém, os três pontos fechariam a longa espera por um título brasileiro – desde 1979. É a vantagem psicológica colorada (poder decidir num jogo, em vez de dois) contra um Flamengo que busca uma espécie de titulo de consolação. Para quem começou 2020 pensando em revanche do Mundial, Brasileirão era favas contadas. Agora, longe disso.

O momento do Flamengo é o mais regular com o questionado treinador. Muito por uma alteração que, com o desfalque de William Arão, não será repetida no domingo. Mesmo sem experiência no setor, o volante se adaptou com uma qualidade que nunca foi o forte de Rodrigo Caio – posicionamento. Foi o que devolveu à defesa um pilar ausente desde que Pablo Marí foi para o Arsenal. Rever a dupla dos pesadelos (Rodrigo e Gustavo Henrique), logo contra uma equipe reativa, vai assombrar o sono do torcedor – e, provavelmente, de Rogério Ceni. Para este, aliás, a conquista é tudo. Assim, não será de espantar se tentar o inesperado na frente. Talvez com Pedro iniciando, para explorar os desfalques no miolo da zaga colorada. Se isso acontecer e Gabigol não estiver entre os titulares, a frase de Otto Gloria* ecoará pelo Maracanã.

Por sua vez, como apontado acima, Abel Braga terá que optar entre uma zaga inexperiente e o recuo de um volante. De uma maneira ou de outra, para atenuar o desentrosamento, a equipe gaúcha precisará se compactar atrás. A mudança na defesa trará reflexos ofensivos. Quanto maior a distância para o gol na retomada, mais difícil contragolpear. Se a escalação preocupa, mentalmente o placar em São Januário controlou os temores. A alternância entre fases vitoriosas e quedas livres assolou não apenas o líder anterior (São Paulo), como também os próprios Internacional e Flamengo. São consequências de uma temporada com jogos encavalados, desfalques constantes e pouco tempo para correções de rumo. Vencer logo após a derrota para o Sport foi importante para um ataque jovem, cuja média de idade não supera os vinte anos.

Em meio às expectativas sobre os times, há uma terceira estrela – esta indesejada – na disputa. O VAR à brasileira, com seus pontos cegos, suas linhas descalibradas e sua câmera lenta envenenada (tudo vira pênalti ou motivo para cartão vermelho), fora o drama da mão na bola ou bola na mão, pode roubar a cena no estádio Mário Filho. É desagradável ter que falar de arbitragem, mas não falar seria excluir do leitor um fator obviamente decisivo neste campeonato. Não são apenas as marcações e o tempo perdido. O pânico a cada bate-rebate na área e a cada choque entre atletas já prejudica a concentração. Curiosamente, os dois clubes foram acusados (assim como mais meia dúzia) em teorias conspiratórias. Esperamos que, ao menos por uma tarde, a conspiração das tias do Zap seja “o que levou o VAR a não estragar a partida”.

Muitas podem ser as histórias do que terá sido Flamengo x Internacional. Edificantes ou frustrantes. Pelo menos não teremos a repetição da covardia mútua que Palmeiras e Santos exibiram no mesmo palco. Não por coragem natural, mas porque chegar ao apito final sem perder não ajudará um deles. Além do mau retrospecto rubro-negro contra o mandante tricolor, o adversário enfrentará um visitante Corinthians com poucas chances de Pré-Libertadores. Se não quiser deixar nas mãos do inusitado, Rogério precisará ser diferente de Cuca e Abel Ferreira. Já o Abel colorado não precisa se incomodar em repetir o xará numa final. Nem seria novidade.

*”Quando o time ganha, o técnico é bestial. Quando o time perde, o técnico é uma besta.”

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