Como a Libertadores se tornou uma Copa do Brasil com convidados

Créditos da imagem: Montagem / No Ângulo

Em 2017, a Conmebol estendeu a Libertadores por todo o ano, alegando ser um meio de “equilibrar” a disputa. Não demorou e a iniciativa se mostrou a pá de cal na inflada, porém esquálida correspondente da Champions League no Novo Mundo. Esta coluna aponta as causas da desimportância crescente da principal competição sul-americana, especialmente por conta do domínio brasileiro. São estas:

1 – é (também) a economia, estúpido – a crise veio para todos, mas nosso futebol é o que obtém mais receitas na América do Sul, fora as facilidades das normas locais aos endividados (não fosse a punição da FIFA, um clube em penúria como o Santos seguiria contratando). O Fair Play Financeiro, planejado pelo colega colunista Cesar Grafietti, deve regulamentar severamente esta lacuna. Só que enfrenta resistências (ex: os mecenas) e já se encontra em atraso – deveria ter sido implantado em setembro, que já passou.

2 – fazendo o rapa no continente – uma das consequências da superioridade econômica é o poder para tirar os principais jogadores de outros países da competição. Nacho González, destaque do River Plate nas campanhas vitoriosas, foi um dos presentes do mecenato ao Atlético Mineiro. A onda se estendeu aos treinadores estrangeiros que apareceram bem na competição. Mesmo que boa parte não tenha se dado bem no Brasil, seus métodos se tornaram mais conhecidos – o que inclui os antídotos para enfrentá-los.

3 – retoques na “cara de Libertadores” – mesmo antes da pandemia, a sequência de participações reduziu o desconforto fora de casa. Até a altitude deixou de ser aquele problema infernal. A necessidade de dar um ar menos caótico ao torneio, para não espantar patrocinadores, resultou em campos menos ruins (praticamente como os de nossos estádios), torcidas menos ensandecidas e, de forma inusitada, até os episódios de erros de arbitragem grosseiros mudaram de lado – talvez porque o dirigente do setor seja brasileiro.

4 – desinteresse europeu – foi-se o tempo dos times sendo desmanchados pelo êxodo à Europa. Percebendo o despencar de ritmo e nível, os clubes europeus passaram a se interessar apenas em atletas fora-de-série – preferencialmente muito novos. O Brasil não foge a este novo cenário. Temos uma faixa de atletas que, entre 22 e 25 anos, prefere continuar aqui e, mais adiante, aceitar propostas de centros periféricos. Resultado: os times brasileiros mantêm suas equipes-base por mais tempo – às vezes por anos, se tiverem dinheiro para isso (vide o Flamengo).

5 – festa do caqui nas vagas – com seis a oito participantes brasileiros, fica mais difícil que zebras ou poucos times competitivos consigam tirar nossos representantes antes da fase final. Fosse nos anos de duas ou três vagas, alguns tropeços bastariam para outros herdarem a taça. Agora não. Para piorar, o outro país com as mesmas vagas, a Argentina, passa por um momento terrível no futebol doméstico. Copas inchadas e confusas afetaram até a intensidade das equipes “hermanas”. Nem mesmo River e Boca estão metendo medo.

Com esta combinação trágica ao resto dos candidatos, não é exagero dizer que, para os brasileiros, a Libertadores é a terceira competição em grau de dificuldade. Em termos de mata-mata, a Copa do Brasil é mais árdua. O Brasileirão vem se reduzindo em pretendentes, mas as disputas por vagas e permanência na Série A dão um ar dramático que, a despeito de João Guilherme berrando “glória eterna”, supera a previsibilidade da “Liberta”. OK, há o atrativo do Mundial de Clubes. Mas a honra de dar vexames seguidos ganhou mais pinta de mico que prêmio.

Resta o dinheiro. Contudo, pergunto até quando as empresas vão gastar num torneio continental de um país só. Podem continuar, mas com somas bem menos generosas. Se quiserem evitar o panorama iminente, entre diversas providências, Conmebol e clubes precisam deixar a competição enxuta e curta. Sim, porque ainda vemos a bizarrice de uma decisão dois meses depois das semifinais. Há quem ainda se encante com tanta bagunça. Mas são poucos. Nem os amigos do João Guilherme aguentam mais. Haja tímpano…

Deixe sua opinião e colabore na discussão