O maior dos pecados no imbróglio da Anvisa no jogo Brasil x Argentina

Créditos da imagem: Marcello Zambrana / AGIF

O passo a passo de uma confusão Monumental – só que de Itaquera, não Nuñez.

O planeta futebol ficou pasmo diante de um Brasil x Argentina que, certamente, nunca será esquecido. Fez jus ao clichê de ser um jogo em que, realmente, tudo pode acontecer. Mas, sem passar pano para a postura cínica e desonesta da delegação argentina (se foi combinação anterior é outra história pendente de prova), vamos desconstruir o modus operandi tenebroso que, para variar, desmoraliza as autoridades brasileiras via satélite.

Trecho do documento da Anvisa sobre o preenchimento de declarações sanitárias de jogadores argentinos (Clique para ver ampliado). Foto: Reprodução G1

1 – como era de imaginar, um único funcionário da AFA preencheu as DSV de todos os integrantes da seleção argentina. Normalmente, em aeroportos, é um procedimento comum para agilizar o embarque e o desembarque de grandes delegações – e que deveria ter sido aventado desde o início pelos jornalistas e torcedores que acusavam os quatro atletas de mentirosos. De todo modo, foi o início da confusão. Com as declarações sendo entregues em momento separado ao da apresentação de passaportes, diante de funcionários distintos, não houve a comparação que facilmente constataria a irregularidade.

2 – como consequência desta divisão burocrática de eficácia discutível, os quatro argentinos ingressaram normalmente em território brasileiro, em desrespeito a portaria da Anvisa. Apenas um dia depois a Agência sanitária soube do fato. Já era, portanto, caso de deportação imediata. Os atletas haviam circulado e treinado. Não haveria sentido em aplicar a quarentena, porque esta teria 14 dias e privaria os jogadores de seguir viagem para a partida posterior. Com base nas informações, os servidores da Anvisa só tinham um caminho legal no dia 4 de setembro: ir ao hotel da seleção argentina e conduzir, com ou sem ajuda policial, os quatro atletas ao aeroporto.

3 – no lugar de cumprir o dever legal de proceder à expulsão, os agentes orientaram a delegação sobre como obter uma exceção junto a autoridades ministeriais, adicionando que deveriam realizar tal ajuste “com urgência”. Ora, não cabia fazer orientação alguma, pois era um procedimento que a AFA deveria ter feito antes da chegada ao país. Além da colher de chá, determinaram uma quarentena imprópria aos quatro atletas (ou é 14 dias, ou é nada) e foram embora, aparentemente, sem deixar uma pessoa sequer vigiando. Mesmo numa situação de alegada emergência, que já fugira ao controle desde o desembarque da delegação, não retornaram ao hotel no sábado.

4 – na manhã de domingo, ainda sem informações sobre eventual liberação, os agentes da Anvisa seguiram inertes e sem monitorar, no hotel, se os quatro atletas cumpriam o isolamento (não só não cumpriram como foram treinar no dia anterior). Levaram até o início da tarde, cerca de 14 h, para finalmente irem ao hotel proceder à expulsão dos atletas. Não tiveram a cautela de, sabendo que àquela altura a seleção argentina já estaria no estádio, entrar em contato para saber se os quatro estavam em seus quartos ou tinham ido à Arena com o restante da equipe. Mais tempo perdido. O jogo começaria em menos de duas horas.

5 – chegando ao estádio, já com a seleção argentina supostamente trancada em seu vestiário, os servidores (mesmo com a PF presente) não impediram que três dos quatro atletas, escalados entre os titulares, entrassem no gramado. Isso sem que, novamente, nenhum documento ou determinação governamental liberatória chegasse ao conhecimento da Anvisa. Importante destacar que, o tempo todo, a Anvisa tinha autoridade para determinar à PF que cumprisse suas determinações, devendo comunicar superiores em caso de recusa. Não havia milonga, nem mironga que justificasse a inação.

O zagueiro argentino Leandro Desábato só foi preso logo após o apito final da partida São Paulo x Quilmes. Foto: Reprodução.

6 – sem relatos mais aprofundados sobre suposta desobediência dos policiais, tampouco tendo interferido entre a caminhada ao gramado e o início da partida, os servidores pareciam aceitar que o jogo aconteceria. Compreensível. Se deixaram chegar até tal ponto, que se aguardasse. Afinal, até situações de custódia em flagrante de atletas foram executadas após o apito final. Mas eis que, com cinco minutos de bola rolando, resolveram literalmente entrar em campo. Qual a necessidade, àquela altura, de retirar atletas com testes negativos? Se era “evitar danos à imagem do país”, decisão brilhante. Dwight Shrute, o vendedor alucinado da saudosa série The Office, não teria feito melhor.

Como se vê, as autoridades brasileiras perderam todas as oportunidades de cumprir a Lei, sem constrangimentos públicos, da única forma cabível no caso: pegar os quatro argentinos pelas orelhas – sentido figurado – e levá-los direto a Cumbica. Escolheram, provavelmente por ordem de um presidente da Anvisa enfurecido (não sem motivo, mas despido de sensatez), o momento que expôs nossa reputação ao ridículo mundial. Isso não torna os argentinos vítimas (muito pelo contrário), mas lança holofotes sobre a incompetência e, pois sim, o pavor nacional na hora de aplicar a Lei conforme o “andar” em que reside o infrator. Convenhamos: nem precisávamos dos vizinhos para saber disso.

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